Por Leonardo Sakamoto, no Uol
Timing é tudo nesta vida. Se Donald Trump tivesse elogiado Flávio Bolsonaro no dia em que o senador o visitou Casa Branca, teria sido a glória. Mas o presidente dos EUA resolveu exaltar o filho de Jair nas redes no momento em que ele era acusado de ajudá-lo a descer o sarrafo no Brasil, atingindo empregos, empresas e o Pix. Com isso, ele acabou passando a imagem de estar saindo em socorro de um aliado que o ajudou. Ou seja, emitiu um atestado de traição.
E tudo o que o senador e pré-candidato à Presidência da República não pode, neste momento, é passar a imagem de agente infiltrado de Washington. “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”, escreveu em sua rede social, a Truth Social.
Lula havia acabado de fazer uma dura crítica à família Bolsonaro, corresponsabilizando-a pelo tarifaço de 25% anunciado pelo governo Trump a produtos brasileiros em retaliação a tudo o que alegam atrapalhar o comércio dos EUA: o Pix, decisões do STF contra plataformas de redes sociais, insuficiência de medidas anticorrupção, pirataria, falta de acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
“Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. São na verdade vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores”, disse. “Imbecil. Ele [Flávio] não sabe que não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar o povo brasileiro, vai prejudicar os empresários brasileiros, vai prejudicar o agronegócio.”

Logo após começarem a circular memes, como o que mostra o senador como um jogador dos EUA chamado “Tariflávio”, transformado em figurinha do álbum da Copa do Mundo, ele deu uma entrevista jurando que pediu “expressamente” ao governo Trump para não taxar as empresas brasileiras.
Mas como seu irmão, Eduardo Bolsonaro, abertamente chamou para si os louros pelo tarifaço de 50% imposto ao Brasil no ano passado, quando ele usava a pressão de Trump para tentar livrar seu pai da cadeia por tentativa de golpe, a palavra do senador vem sendo posta em xeque.
O episódio expõe uma contradição difícil de resolver para Flávio Bolsonaro: quanto mais Trump o elogia, mais ele precisa se explicar perante o eleitorado brasileiro. Pelo menos, o eleitorado independente, que é quem define eleição.
Em ano eleitoral, a narrativa de “traidor da pátria” tem solo fértil, e o PT já demonstrou, em outros ciclos, habilidade para regar esse tipo de semente até a colheita. Para o Planalto, contudo, o episódio também tem seus riscos. Lula precisa calibrar o tom: atacar demais os Bolsonaro pode soar como manobra eleitoral disfarçada de patriotismo, enquanto atacar de menos deixa o campo livre para a oposição reescrever a narrativa.
O abraço público do presidente norte-americano, longe de ser um presente político, tornou-se um fardo. No tabuleiro global, Trump mostrou-se tóxico a candidatos aliados que abraçou, do Canadá à Hungria.
Mas, em última instância, a culpa por essa exposição é do próprio Flávio Bolsonaro. Ninguém o sequestrou e o obrigou a ir a Washington tirar uma foto no Salão Oval, foi ele quem quis para que o povo se esquecesse dos R$ 134 milhões que pediu ao seu “irmão” Daniel Vorcaro. O que lembra que precisamos ter muito cuidado com o que queremos porque o desejo corre o risco de se tornar realidade.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-elogio-de-trump-a-flavio-bolsonaro-na-hora-errada-vira-atestado-de-traicao/

