Fifa ignorou direitos humanos e Trump aproveitou, diz Sakamoto

Donald Trump e Gianni Infantino. Foto: Reprodução.

Por Leonardo Sakamoto, no Uol

Se a Fifa se importasse um milímetro com direitos humanos, a bola não teria rolado na Rússia autocrática de Vladimir Putin em 2018. Nem nos estádios erguidos no Catar, em 2022, sobre a exploração de trabalhadores migrantes tratados como peças descartáveis de uma máquina petrobilionária.

Mas a entidade máxima do futebol não é exatamente uma campeã da defesa da dignidade humana. Pelo contrário: ela têm funcionado funcionou mais como um balcão global de negócios, onde discursos bonitos sobre união, paz e inclusão são vendidos junto com patrocínios, direitos de transmissão e camarotes VIP. Donald Trump, que reconhece oportunismo de longe, apenas encontra na cartolagem internacional o parceiro ideal. Junta a fome com a vontade de cobrar (caros) ingressos.

Desde a Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, o padrão de exigência em relação às obras para o evento subiu, fazendo com que muitos países não queiram assumir a bucha. E governos que colocam os direitos ambientais, trabalhistas e sociais abaixo do lucro facilitam as demandas da Fifa.

A instituição não imaginou que, no Brasil, a fiscalização do poder público sobre as obras e os protestos sociais contra os gastos seriam tão duros quanto foram. Desde então, coincidentemente, as Copas são realizadas em países que não temem atropelar o interesse dos mais vulneráveis, como Rússia, Catar e EUA.

Sede da Fifa com bandeiras de países
Gianni Infantino. Foto: Reprodução.

Canadá e México, co-anfitriões, são mais democráticos que o vizinho, mas contam com duas e três cidades-sede, respectivamente, enquanto os EUA possuem 11. Ou seja, a Copa não é da América do Norte, é predominantemente do Tio Sam. E, mesmo assim, o país latino-americano mostra a força de sua democracia com grandes protestos de professores aproveitando a Copa.

Omar Artan poderia entrar para a história como o primeiro somaliano a apitar um mundial. Mas, nos Estados Unidos de Trump, não basta ser considerado o melhor árbitro do continente africano. É preciso ter o passaporte certo, a origem certa e, de preferência, não incomodar o preconceito migratório do anfitrião, que chama de terroristas todos aqueles do qual não gosta.

Artan foi barrado pela imigração norte-americana mesmo com visto válido. A Fifa, sempre veloz quando se trata de proteger seus negócios, soltou uma nota protocolar dizendo que “não se envolve nos processos de imigração dos países-sede”. Traduzindo: xenofobia não é problema nosso e, desde que a bola role, a publicidade entre e o dinheiro circule, Trump está certo.

O atacante Aymen Hussein, principal nome da seleção iraquiana, ficou retido por sete horas antes de ser liberado. Uma humilhação pública dessas que serve menos para checar documentos e mais para lembrar quem manda. O meia haitiano Woodensky Pierre virou notícia não por um golaço, mas por conseguir o quase milagre burocrático de um visto para se juntar aos companheiros na Flórida. A seleção iraniana terá de se basear em Tijuana, no México, cruzando a fronteira para jogar e voltando no mesmo dia.

Hoje, sete países classificados para a Copa enfrentam algum grau de restrição de visto. Irã e Haiti aparecem em listas ainda mais duras, que transformam nacionalidade em suspeita e passaporte em sentença. A Fifa não se importa. A mesma entidade que posa de guardiã do futebol como patrimônio da humanidade entregou o torneio a um país cuja política migratória trata delegações esportivas, jornalistas, torcedores e trabalhadores estrangeiros como ameaça potencial.

Para quem ainda tinha alguma dúvida sobre os “valores” da federação, bastou observar a bajulação política em torno do bélico Trump, que recebeu dela um Prêmio da Paz.

Enquanto a bola não rola, a distopia se organiza do lado de fora dos estádios. Agentes do ICE, a polícia migratória americana conhecida pela truculência, não descarta prisões de estrangeiros durante o evento. O resultado é previsível. Torcedores de vários países fizeram contas não apenas sobre o preço salgado de ingresso, hospedagem e passagem aérea, mas para o risco de atravessar oceanos e acabar detidos em um país que grita ao mundo que nem todos são bem-vindos.

E a Fifa? A Fifa vai fazer o que sempre fez: olhar para o placar financeiro, ajeitar o terno, sorrir para as câmeras e dizer que o jogo deve sempre continuar.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-fifa-direitos-humanos-trump-copa/