Mulheres estão indo às ruas hoje pela radical exigência de não serem mortas

Essa ideologia contemporiza quando a mulher é transformada em objeto de prazer para ser violentada dentro da própria casa e alvo de ejaculação em trens e ônibus; chama o assédio sexual e o desrespeito de “simples elogio” ou “brincadeira”; declara o corpo delas como propriedade masculina, tentando proibir até abortos de crianças em caso de estupro; faz com que elas se sintam culpadas pela violência que sistematicamente sofrem; torna o disparate tão normal a ponto de nunca ser preciso pedir desculpas, mas, pelo contrário, faz com que esperemos delas a desculpa pela nossa própria agressão.

Enquanto isso, as reclamações delas, de que é necessário dar um basta a isso, são alardeadas como “ideologia de gênero”. Sim, é ridículo, mas isso dá voto e pega em cheio quem terceirizou o senso crítico.

Essa qualificação, é claro, vem de um processo que envolve escolas, famílias, sociedade civil e mídia. Em tese, seria um processo lento, porque passa pela formação de visão de mundo. Mas mulheres continuam a ser agredidas, estupradas e mortas simplesmente por serem mulheres na terceira década do século 21. Portanto, não temos o luxo de contar com esse tempo.

Posar de espectador inocente enquanto a engrenagem que nos formou continua triturando vidas diante de nossos olhos é ser cúmplice. Se a cada mulher assassinada seguimos reagindo com choque performático e, no dia seguinte, voltamos a tolerar os mesmos machismos que pavimentam o caminho do feminicídio, então somos parte ativa da continuidade desse horror.

Ou rompemos agora com essa pedagogia da crueldade (enfrentando nossos iguais, desnaturalizando nossas desculpas, desmontando nossos privilégios) ou continuaremos assistindo a esse massacre cotidiano como se fosse uma tragédia inevitável. Quando, na verdade, é apenas o reflexo mais brutal do mundo que, repito, nós, homens, todos nós, sem exceção, insistimos em manter de pé.

Em tempo: a Agência Brasil reuniu informações sobre atos em algumas cidades: São Paulo (SP): 14h, vão do Masp; Curitiba (PR): 10h, praça João Cândido; Campo Grande (MS): 13h, av. Afonso Pena; Manaus (AM): 17h, largo São Sebastião; Rio de Janeiro (RJ): 12h, Copacabana; Belo Horizonte (MG): 11h, praça Raul Soares; Brasília (DF): 10h, Feira da Torre de TV; São Luís (MA): 9h, praça da Igreja do Carmo; Teresina (PI): 17h, praça Pedro II.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-mulheres-estao-indo-as-ruas-hoje-pela-radical-exigencia-de-nao-serem-mortas/