Sakamoto: Musk como 1º trilionário do mundo é péssima notícia para a humanidade

Elon Musk – Foto: Divulgação/wallpapercat/@kaylah22

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Com o IPO, a oferta pública de ações da SpaceX, a humanidade adentrou território desconhecido. Não foi a Starship chegando a Marte. Não foi a Neuralink fazendo cadeirantes voltarem a andar. Foi algo mais revelador sobre em que tipo de mundo estamos vivendo: Elon Musk se tornou o único empresário que possui mais de US$ 1 trilhão de dólares em patrimônio pessoal.

A euforia que tomou conta das redes sociais, com gente festejando a marca como se fosse uma conquista coletiva, diz muito sobre o estado de alienação em que vivemos. Trabalhadores que ganham pouco vibrando pela imensurável fortuna de outra pessoa é um espetáculo da auto-humilhação voluntária de partir o coração.

A grana de Musk não surgiu do nada, como por encantamento. Ela foi construída em cima de sua inteligência e de seu senso de oportunidade, mas também sobre um sistema que transfere de baixo para cima.

Por exemplo, a Tesla acumula denúncias de jornadas exaustivas, condições de trabalho abusivas, ambientes insalubres, assédio sexual e retaliação contra demandas por melhores condições. No X, cada usuário entrega dados gratuitamente que ajuda a alimentar e construir a plataforma de inteligência artificial do trilionário. Suas empresas, em diferentes momentos, receberam subsídios públicos, bilionários contratos governamentais e infraestrutura financiada pelo contribuinte. A própria SpaceX cresceu em parte a partir de contratos com a Nasa e agências de defesa dos Estados Unidos.

Ou seja, dinheiro público ajudou a construir riqueza privada que jamais será devolvida na mesma proporção à sociedade. Isso não é empreendedorismo puro, mas socialização dos custos e privatização dos lucros no seu estágio mais extremo.

Enquanto alguns gozam com a fortuna dos outros, vendo nisso o exemplo do sucesso ou da benção de Deus, outros já perceberam o impacto disso para o mundo. Infelizmente, não apenas vimos crescer o número de bilionários nas listas da Forbes como presenciamos o nascimento do primeiro trilionário.

Enquanto Musk atravessa a fronteira do trilhão com a estreia da SpaceX na Nasdaq, bilhões de pessoas no planeta não têm acesso a saneamento básico, saúde de qualidade ou educação decente. Não é coincidência. Um sistema que permite a concentração ilimitada de riqueza nas mãos de pouquíssimas pessoas é o mesmo sistema que garante que a maioria permaneça vulnerável. A riqueza de um é, em alguma medida, a pobreza redistribuída de muitos.

Elon Musk – Foto: Reprodução/X – @Nasdaq – 12.jun.2026

O problema da concentração de riqueza não é uma questão de inveja ou ressentimento, como querem fazer crer o pessoal que terceirizou a capacidade crítico para o zap. É uma questão de Justiça. Quem tem um trilhão de dólares não tem apenas dinheiro, mas poder para influenciar eleições, moldar opinião através de algoritmos que condicionam o debate público, decidir quem tem internet e quem não tem (ou seja, quem se comunica), sentar ao lado de presidentes, primeiros-ministros e reis como se fosse um igual, quando na prática é um superior hierárquico.

Musk já demonstrou tudo isso. Comprou uma plataforma de comunicação global por US$ 44 bilhões, em 2022, e a transformou num canal de propaganda pessoal. Interferiu em conflitos internacionais ao acionar e desativar serviços da Starlink. Aproximou-se de governos de diferentes países com a facilidade de quem sabe que tem algo que o outro precisa. Atacou instituições em vários países quando seus interesses bateram de frente com leis nacionais. Ajudou a extrema direita em muitas eleições.

Há quem diga que Musk merece cada centavo porque é um gênio. Talvez seja. Mas a pergunta certa não é se ele merece e sim que tipo de mundo estamos construindo quando um único indivíduo acumula mais riqueza do que o PIB de países inteiros enquanto outro ser humano morre de uma doença tratável por falta de acesso a medicamentos? Quando um homem pode mandar um carro para o espaço como teste de foguete e há crianças sem ter o que comer na Terra?

A desigualdade social, que seria motivo de vergonha, vem sendo razão de orgulho para muita gente. O importante para uma parte da população, tanto a que está no topo quanto a que sonha em estar lá, não é reduzir a diferença, mas garantir que ela seja devidamente glamurizada e a ascensão social, mitificada. Assim, o indivíduo passa a não desejar justiça social coletiva, mas um lugar ao sol para si mesmo.

A biografia de Musk escrita por Walter Isaacson o descreve como alguém obcecado com a ideia de que a humanidade corre perigo. É por isso, dizem, que quer colonizar Marte e tem muitos filhos.

Mas existe uma ironia cruel em um homem que diz querer salvar a humanidade acumular riqueza numa escala que, por si só, representa um dos maiores perigos que a humanidade enfrenta: a de viver em um mundo onde direitos deixam de ser universais e passam a ser proporcionais ao tamanho da conta bancária.

O primeiro trilionário da história não é uma conquista humana. É um sintoma de que a humanidade vai mal.

Em tempo: nesse contexto, faz muito sentido a proposta do senador democrata Bernie Sanders para taxar as gigantes de tecnologia, focando em sua área de Inteligência Artificial. Ela exige que as big techs não paguem com lucros, mas com 50% de suas ações, criando um fundo público, uma vez que as IAs foram criadas e alimentadas usando conhecimento coletivo da humanidade.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-musk-como-1o-trilionario-do-mundo-e-pessima-noticia-para-a-humanidade/