Sakamoto: na Copa, troque as bets pelo bolão, que não te empobrece

Plataforma de bets. Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Não é Vini Jr., Endrick ou Neymar. A grande estrela desta Copa, a mais falada nas transmissões esportivas no YouTube ou na TV, a mais promovida entre influenciadores digitais, o hit das propagandas na mídia, são as casas de apostas. Bombardeando a sugestão mentirosa de que vão te enriquecer de forma fácil, as bets estão promovendo uma transferência de bilhões do bolso dos trabalhadores para o de alguns empresários.

E, claro, para o dos políticos que voam de jatinho nas asas deles para depois defendê-los no Congresso Nacional.

Enquanto isso, estão empacados projetos de lei apresentados há tempos proibindo propagandas de bets, tal como já funciona com o tabaco. Veja que estou falando de restrição de anúncios porque nem trabalho com a hipótese de deputados e senadores financiados pelo jogo colocarem em votação um bloqueio total à jogatina virtual. É mais fácil o camelo passar pelo buraco da tal agulha do que muitos parlamentares que dizem seguir princípios cristãos agirem de forma coerente.

Pesquisa da Kantar revelou que 37% dos brasileiros afirmaram que apostariam com certeza nas bets durante a Copa. Ou seja, o maior evento esportivo do mundo pode deixar por aqui um rastro de endividamento, com impactos para a qualidade de vida da população. Não é apenas o dinheiro da reforma da casa que acaba vazando pelo ralo, mas também a mensalidade da faculdade, a grana do supermercado ou o presente de aniversário dos filhos.

Do que adiantam programas de redução ao endividamento, como o Desenrola 2, e ações para tomar a grana de casas de apostas ilegais se, ao final da Copa, o Brasil estiver mais pobre e mais triste? Nem falo por causa do hexa porque não estou tratando de narrativas ficcionais.

Jogadores da Seleção Brasileira durante partida da Copa do Mundo
Vini Jr. após gol pela Seleção Brasileira na Copa. Foto: Reprodução

E não é só o poder público. Comunicadores têm um papel fundamental nesse processo porque são eles que vêm vendendo a sua credibilidade para promover essa abissal transferência de renda com impactos nocivos à vida em sociedade. Quem se importa em ser visto como cúmplice precisa não apenas evitar vender essas ilusões, como também alertar a população. Pois a Copa das Bets está esvaziando o bolso dos trabalhadores no Brasil.

Além das dívidas, as bets não vão sumir com o encerramento do torneio. Vão continuar ali, brilhando na tela, prometendo o próximo jogo, a próxima chance, a virada que nunca vem. É a lógica do negócio: não existe aposta final, existe sempre a próxima.

Na Copa, se quiser apostar, troque as bets por um bolão com os amigos, no máximo botando na mesa alguns trocados ou uma cerveja. E fuja daqueles que tentam te convencer, a cada partida, a perder mais e mais. Pois a única ressaca que o bolão vai trazer é a moral com a gozação por ter apostado em um time que já foi grande como campeão ou em um ex-jogador em atividade como artilheiro, sem ter que lidar com o cheque especial, o agiota ou o desespero diante da própria família.

O Brasil tem uma habilidade histórica de transformar tragédias em entretenimento e entretenimento em tragédia. Desta vez, fizemos as duas coisas ao mesmo tempo.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-na-copa-troque-as-bets-pelo-bolao-que-nao-te-empobrece/