É curioso como o mundo só ameaça acabar quando o pobre ameaça descansar.
A ala das baianas gira, rodando saias que estampam direitos sociais. Cada volta é um 13º, cada giro é uma férias remuneradas, cada passo é a lembrança de que nada disso destruiu o capitalismo, que segue forte e pimpão. Quando disseram que limitar jornada a 44 horas semanais seria o fim da economia, ela continuou. Quando criaram o descanso semanal remunerado, o sol nasceu no dia seguinte. O mercado abriu às nove.
No segundo carro, surge a alegoria do burnout, um monstro de olhos vermelhos feito de notificações de aplicativo, metas inatingíveis e mensagens fora do horário. Ele cospe fumaça, exausto, simbolizando a epidemia silenciosa que corrói trabalhadores que vivem para trabalhar, e não o contrário.

A bateria acelera. É o coração da classe trabalhadora, que pulsa seis dias seguidos e, no sétimo, mal consegue viver, controlado na base do captopril. O intérprete canta que dois dias de descanso não são luxo escandinavo, são civilização mínima. Não se trata de trabalhar menos para produzir menos, mas de trabalhar melhor para viver melhor.
Sobe o coro bradando que a economia não é um deus a ser alimentado com horas humanas queimadas em sacrifício, mas existe para organizar a produção de riqueza que permita às pessoas existirem com dignidade. A bateria para, uma voz de mulher negra se levanta e grita: Qualidade de vida não pode ser efeito colateral do desenvolvimento, mas sua razão de ser.
Vejam a ala das crianças, correndo pela avenida. Elas carregam mochilas leves e cartazes dizendo “domingo com o pai”, “sábado com a mãe”. Dois dias de descanso significam tempo para estudar, amar, cuidar da saúde, consumir cultura, circular renda. Descanso também movimenta a economia, restaurantes cheios, parques ocupados, cinema com fila. O trabalhador que respira também compra, cria, convive.
No último carro alegórico, uma enorme ampulheta se parte. A areia deixa de cair apenas para o lado do lucro imediato e começa a desenhar outra paisagem: menos acidentes, menos adoecimento, mais produtividade sustentável. Não é utopia. É planejamento com humanidade.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-o-samba-da-exaustao-ou-o-brasil-nao-vai-acabar-se-aprovada-a-escala-6×1/

