Por Leonardo Sakamoto, no UOL.
Donald Trump declarou vitória por ter resolvido um problema que ele mesmo criou, sem apresentar garantia real de que o Irã abandonará seu programa de armas nucleares ou mesmo de que este é o ponto final no conflito. Vende como triunfo a reabertura do Estreito de Ormuz, depois de levar Teerã a descobrir que têm nas mãos uma das armas de guerra mais eficazes do planeta: não uma bomba, mas uma torneira. Enquanto isso, é ignorado por Benjamin Netanyahu, que o arrastou para o conflito. Se isso é vencer, imagina só se perdesse.
Trump, claro, prefere narrar a história como se tivesse salvado a humanidade. Disse que abriu caminho para a paz, para a segurança regional e para a retomada do fluxo de petróleo. Mas a paz anunciada pelo trumpismo costuma vir embrulhada em bravatas, com laço de improviso e manual de instruções faltando. O ponto central da guerra, o programa nuclear iraniano, foi empurrado para negociações futuras.
No Oriente Médio, comemoração antes da hora costuma custar caro. Trump já tinha anunciado que havia aniquilado capacidades militares, contido ambições nucleares e humilhado o regime iraniano. Depois, prometeu entregar uma vitória rápida. Agora, tenta vender como conquista a volta ao ponto de partida, com um Irã mais consciente de sua capacidade de paralisar a economia global e um acordo ainda dependente de conversas complexas sobre urânio enriquecido, sanções, mísseis e garantias de segurança.
Com o anúncio, os mercados gozam, mas sendo Trump quem é, podemos estar vendo uma ejaculação precoce.
Enquanto isso, Israel dá de ombros. Mesmo com o acordo sendo apresentado como começo de uma trégua regional, Benjamin Netanyahu continuou atacando o Líbano, como se a diplomacia norte-americana fosse apenas ruído de fundo entre uma operação militar e outra. O Líbano, aliás, virou mais uma prova de que os chamados cessar-fogos na região muitas vezes servem mais para reorganizar a violência do que para encerrá-la.
Netanyahu convenceu Trump que a aventura contra o Irã era sopa no mel, vendendo a fantasia de uma vitória rápida, limpa e fácil. Agora, cobra-se a conta. Em Israel, da sua base de apoio à oposição, passando por famílias cansadas de viver sob sirenes e comunicados militares, cresce a percepção de que Israel está mais inseguro agora do que estava no início do conflito. O governo prometeu segurança e entregou mais frentes abertas, mais inimigos mobilizados e menos clareza sobre o dia seguinte.

Para Netanyahu, porém, o dia seguinte é justamente a questão. Com eleições em outubro e um julgamento por corrupção pendurado sobre sua cabeça, uma derrota política pode significar não apenas o fim de um ciclo, mas a perda do escudo que o mantém livre. Para um líder acuado, a guerra deixa de ser apenas estratégia externa e se transforma em método de sobrevivência interna.
O que também vale para Trump, de olho nos estragos da guerra na inflação dos alimentos e dos combustíveis para os trabalhadores norte-americanos. Em novembro, eles vão às urnas para reciclar o Congresso.
Trump quer posar de pacificador porque precisa de uma vitória para exibir aos eleitores, ao mercado e à própria mitologia. Netanyahu quer manter a guerra porque precisa dela para sobreviver politicamente. O Irã descobriu que pode ameaçar o bolso do mundo com um estreito e drones a preço de carro popular. E as populações da região seguem aprendendo, à força, que a paz anunciada por homens que lucram com o conflito, não é confiável.
Em Gaza, exemplo maior disso, mil pessoas morreram desde o cessar-fogo entre o Hamas e Israel. Para o povo palestino, tréguas são uma farsa.
O acordo pode abrir o Estreito de Ormuz, aliviando o preço do petróleo. Mas não elimina a inflação política produzida por líderes que criam crises para depois posar de bombeiros. No fim, Trump anuncia que resolveu parte do problema que ele mesmo fabricou, chamando isso de estadismo. Netanyahu ouviu, sorriu de lado e continuou atirando.
O mundo, mais uma vez, é convidado a aplaudir a foto oficial enquanto tenta sobreviver ao que ficou fora do enquadramento.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-trump-comemora-ao-resolver-a-propria-lambanca-e-e-peitado-por-netanyahu/

