Por Leonardo Sakamoto, via UOL.
Para conquistar o eleitorado bolsonarista, o ex-governador e pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) resolveu recauchutar pérolas proferidas por Jair Bolsonaro. Repete, assim, a estratégia do ex-presidente, que barbarizava para chamar a atenção da imprensa, inflamar debates nas redes sociais e capturar a atenção pública.
Ao pendurar uma melancia digital no pescoço, Zema ganha atenção da mídia. Depois, quando a polêmica se instala, é só dizer que foi mal compreendido — como fez hoje em entrevista à Daniela Lima e Fábio Zanini, no programa Frente a Frente, do Canal UOL.
Para quê a estratégia, ainda não está claro. Se tudo der certo, leva adiante sua candidatura. Se tudo der muito certo, pode pleitear a vaga de vice em uma chapa com Flávio Bolsonaro (PL).
Em entrevista ao Canal Livre, da BandNews TV, neste domingo (3), afirmou que pretende excluir do Bolsa Família uma parcela dos beneficiários que classificou como “geração de imprestáveis”. Disse que quem recusar uma segunda proposta de emprego perderá o benefício.
Se faltam trabalhadores para determinadas funções, cabe ao setor privado melhorar salários e condições oferecidas à base da pirâmide, não exigir que aceitem qualquer coisa, nem cortar a renda de quem depende do mínimo para não passar fome.
Há muito empregador possuído de raiva porque não consegue contratar nas mesmas condições que antes, o que é ótimo. Empregos melhores atraem trabalhadores. O aumento da vulnerabilidade, não.
A esmagadora maioria dos beneficiários do Bolsa trabalha e não quer permanecer na miséria, precisa apenas de apoio enquanto isso não é possível. Afinal, nem todos tiveram acesso às mesmas oportunidades. Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social mostram que, com a abertura de negócios, a formalização e o aumento da renda, mais de 2 milhões de famílias deixaram o programa entre janeiro e outubro do ano passado.
Os que optariam por viver apenas do benefício são uma minoria ínfima — embora discursos simplistas tentem vendê-los como regra. Vale lembrar: o valor médio pago a 18,9 milhões de famílias em abril foi de R$ 678,22. Supor que a maioria prefere “viver de grana fácil” revela mais sobre a visão de mundo de quem afirma isso do que sobre a realidade.
A fala de Zema ecoou declarações antigas de Jair Bolsonaro. “O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque, se for trabalhar, perde o Bolsa Família”, afirmou o ex-presidente em entrevista à Record News, em 2012. Três anos depois, voltou ao tema com generalizações sobre beneficiários e produtividade — falas que ajudaram a gerar polêmica, ampliar sua visibilidade e alimentar uma extrema direita órfã desde o fim da ditadura.

No Dia do Trabalhador, Zema também defendeu flexibilizar regras para permitir o trabalho infantil, prometendo “mudar isso aí”, na contramão de esforços globais, liderados pela Organização das Nações Unidas, para erradicar essa prática, que ainda atinge 138 milhões de crianças.
Mais uma vez, repetiu Bolsonaro, que manifestou saudosismo em relação ao trabalho infantil várias vezes. Curiosamente, não há registro de que os filhos do ex-presidente eram fundamentais para ajudar a sustentar a casa. Tampouco os de Zema, que certamente não operavam os fornos de carvão vegetal que marcaram a infância de parte de muitas crianças do interior de Minas.
O argumento aparece quase intacto nos dois casos: a ideia de que o trabalho precoce dos mais pobres molda seu caráter e os afasta do crime. Ignora-se, porém, que a realidade é desigual: enquanto crianças ricas “aprendem” nos negócios da família ou dentro das regras (a lei permite a função de aprendiz a partir dos 14 anos), as pobres enfrentam o semáforo, a casa de farinha ou a faxina.
Quando as declarações ecoaram negativamente, ele tratou defendeu que não foi bem compreendido. Em entrevista ao programa Frente a Frente, no Canal UOL, ele modulou o discurso, dizendo que o “trabalho pode ser complementar” e defendeu expandir o programa Jovem Aprendiz.
Zema não é o primeiro a reproduzir a tática de Jair. Ela já se mostrou eleitoralmente eficaz, como no caso do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), que construiu visibilidade com confrontos e polêmicas na Câmara dos Deputados e acabou eleito.
A “melancia digital” pendurada no pescoço até garante visibilidade momentânea e aplausos de uma parcela do eleitorado ou mesmo abre caminho para composições políticas, mas cobra um preço: reduz o debate público a provocações e simplificações que pouco contribuem para soluções concretas.
Se essa estratégia levará a algum lugar duradouro ou apenas repetirá um ciclo de ruído e polarização é algo que o tempo (e o eleitor) tratarão de responder.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-zema-pendura-melancia-digital-no-pescoco-ao-repetir-o-pior-de-bolsonaro/

