O assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, embaixador Celso Amorim, afirmou que a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está ciente dos riscos de um eventual encontro com o líder estadunidense Donald Trump, mas garantiu que “eles não enganam Lula”. Em entrevista exclusiva ao Uol, o principal diplomata brasileiro comentou o gesto de abertura feito por Trump durante a Assembleia Geral da ONU e os possíveis temas prioritários para o Brasil na conversa entre os dois presidentes.
Amorim destacou que ainda não existe uma definição sobre o formato do encontro, mas sinalizou que investimentos e comércio podem ser os pontos iniciais do diálogo.
Sobre o significado do gesto de Trump, que resultou no convite para a conversa, Amorim avaliou que “até agora havia apenas uma relação indireta, por carta, sempre muito tensa”. Ele acrescentou que “houve um desejo de distensão” e ponderou que “se vai resolver alguma coisa, os problemas substantivos, temos ainda que ver”. O embaixador, no entanto, vê com otimismo a perspectiva de diálogo: “Mas há a possibilidade e o desejo de conversa, e isso é positivo”.
Questionado sobre a mensagem que o governo brasileiro levará à conversa, Amorim enfatizou a importância da relação bilateral. “Somos os dois maiores países das Américas, temos um histórico de boa relação. O que procuramos para o mundo é um certo equilíbrio e que contribua para a paz. Isso é bom para todos. Essa é a nossa mensagem”.
Na área comercial, o diplomata foi pragmático: “Evidente que favorecemos o comércio multilateral. Mas vamos tentar tratar do imediato, fazer como outros países estão fazendo”. Ele lembrou que anteriormente não era possível avançar devido a questões judiciais e políticas impostas pelo lado estadunidense, mas agora “talvez consigamos ir já resolvendo algumas questões comerciais”. Amorim finalizou a ideia com uma avaliação estratégica: “Quando uma conversa começa, tudo já muda de figura”.


Sobre o ponto de partida das discussões, Amorim indicou que “conversas de presidentes são sempre amplas. Mas o primeiro objetivo talvez seja a área comercial”. Ele também mencionou que “há aspectos da área judicial que são muito importantes para nós e só o presidente [Lula] vai poder decidir”.
Quanto ao processo aberto pelo Brasil contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), o embaixador não vê motivo para retirada imediata. “Eu não vejo razão para retirar o processo. Sempre tivemos amizade com os EUA e eles tinham processos contra nós e nós contra eles”.
No entanto, deixou uma porta aberta para negociação: “Agora, se eles disserem que, para resolver um tal ponto, esse processo deve ser retirado, não sei. Tudo é negociável. Por todas as razões, sou muito favorável à OMC. Mas tampouco é uma religião”.
Sobre a possibilidade de o Brasil oferecer redução de tarifas, Amorim foi claro: “Não tem muito o que reduzir, nem eles pediram especificamente isso”.
Ele antevê que a negociação deve se concentrar em investimentos, “desde que haja processamento no Brasil”. O embaixador afirmou que “não daremos nada de graça” e destacou a importância do beneficiamento local, citando que “muitos reclamam das fábricas chinesas, mas muitas delas entraram onde as norte-americanas saíram”.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/trump-nao-engana-lula-diz-celso-amorim-sobre-encontro-entre-presidentes/

