Donald Trump parece determinado a transformar Lula em beneficiário político de sua própria arrogância imperial. Ao atacar instituições brasileiras, defender os Bolsonaros e tratar o Brasil como seu quintal, o presidente dos Estados Unidos reproduz uma fórmula que já fracassou recentemente em outras democracias. No Canadá e na Austrália, sua interferência ajudou adversários de centro-esquerda a vencerem eleições que pareciam perdidas.
O caso canadense é emblemático. Durante meses, os conservadores lideravam as pesquisas e caminhavam para derrotar os liberais após quase uma década de governo. A situação mudou quando Trump voltou à Casa Branca e iniciou uma escalada de hostilidade contra o país. Além de impor tarifas comerciais, passou a falar repetidamente sobre a incorporação do Canadá como o “51º estado” americano.
O resultado foi uma explosão de sentimento nacionalista. Eleitores que criticavam o governo passaram a enxergar a eleição como uma escolha entre defender a autonomia canadense ou premiar um grupo político visto como excessivamente alinhado ao trumpismo. Os liberais reverteram a desvantagem e venceram. O líder conservador Pierre Poilievre, frequentemente comparado a Trump por adversários, perdeu até mesmo sua cadeira no Parlamento.
Na Austrália, o roteiro foi semelhante. O Partido Trabalhista enfrentava desgaste econômico e pesquisas desfavoráveis. Mas a volta de Trump ao centro da política internacional alterou o cenário. Suas guerras tarifárias, suas ameaças a aliados históricos dos Estados Unidos e sua postura agressiva diante de governos estrangeiros fortaleceram o discurso de defesa das instituições democráticas. O primeiro-ministro Anthony Albanese conquistou uma vitória muito superior à esperada, enquanto Peter Dutton, que tentou surfar na onda conservadora internacional inspirada pelo movimento MAGA, sofreu uma derrota histórica e também perdeu seu assento parlamentar.
No Brasil, o fenômeno pode ser ainda mais intenso porque a ligação entre Trump e os Bolsonaros é explícita. Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, era o cachorro do americano, a quem dirigiu um “I love you” patétino na ONU. Eduardo está há anos nos Estados Unidos articulando encontros, pressionando autoridades americanas e defendendo medidas contra o país. Flávio esteve com Trump no Salão Oval uma semana antes da designação de PCC e CV como organizações terroristas.
Quando Trump afirma no G7 que o Brasil é um país “perigoso politicamente” e lamenta que “prenderam Bolsonaro Jr” (o idiota confundiu Flávio e Eduardo), ele não atinge apenas Lula. Atinge o Estado brasileiro. Está se metendo onde não foi chamado.
Deu a Lula a chance de responder com a altivez que o assunto exigia. “Eu acho que ele conhece pouco o Brasil. Se ele conhece o Brasil pela relação que ele tem com a família Bolsonaro, ele desconhece o Brasil”, disse. “Se tem alguém que tem que aprender com eleições civilizadas no Brasil é o meu amigo Trump. Na próxima vez [que encontrar Trump], vou levar a urna eletrônica para mostrar como ela funciona”.
Donald Trump “continua agindo como imperador” e teve uma postura “desaforada”, apontou Lula. É isso. O Brasil não quer gringo metendo a mão aqui. Ao abraçar os Bolsonaros com sua proverbial torpeza, Trump vai ajudar a eleger Lula — eventualmente no primeiro turno.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/trump-vira-o-maior-cabo-eleitoral-de-lula-ao-abracar-os-bolsonaros-e-ameacar-o-brasil/

