Foto: Miguel Worcman
Por Miguel Worcman, escritor, repórter e estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
Estudantes da USP que estão em greve desde 14 de abril ocuparam, na tarde desta quinta-feira (7), o prédio da administração da universidade, após o reitor Aluísio Segurado continuar a ignorar as reivindicações da greve. A reabertura da mesa de negociação da reitoria estava marcada para ontem, mas o reitor, já no início da semana, afirmou que “não iria mais conversar com os estudantes”, rompendo a sua promessa inicial.
Os alunos bloquearam as entradas da reitoria a partir das 6h da manhã para pressionar o gabinete a remarcar a sessão de negociação. Sem qualquer resposta do reitor, os estudantes pularam as grades, derrubaram os portões e ocuparam o edifício da administração.
A ocupação da reitoria foi retratada como “invasão”, “escalada na violência” e “depredação do patrimônio” em notas da reitoria e de institutos da universidade. Estas expressões também aparecem em diversas reportagens da grande mídia, reforçando a narrativa da universidade sobre as ações de ontem.

A vereadora Luana Alves (PSOL-SP) esteve presente ontem na assembleia dos estudantes realizada dentro do prédio ocupado. A parlamentar ressaltou o caráter pacífico da ocupação: “Vandalismo é expulsar estudante preto e periférico da universidade por falta de bolsa estudantil. Vandalismo é servir comida mofada e forçar os terceirizados a trabalharem até a exaustão”.
Dany Oliveira, uma das diretoras do DCE (Diretório Central dos Estudantes Livre da USP) e estudante da universidade, explica os motivos da revolta: “Estamos muito indignados e nos sentindo completamente ignorados, porque desde o início nós pedimos para fazer uma negociação justa e apresenta dados, já fizemos vários dossiês em relação à situação dos bandejões, em relação à situação do orçamento da universidade, da falta de professores, e mesmo apresentando todas as provas, a reitoria continua se negando ao diálogo”.

Imediatamente após a entrada dos estudantes, a Polícia Militar disparou balas de efeito moral com o intuito de dispersar a mobilização. Frente ao grande número de manifestantes, a PM armou um cerco na ala ocidental do edifício.
Em nota, a universidade afirmou que “adotou as medidas cabíveis, acionando as forças de segurança pública que, já presentes no local, atuam para evitar a ocupação de outros espaços e prevenir maiores danos patrimoniais”.
Esse processo de mobilização e escalada da greve é uma resposta imediata e organizada às condições precárias dos bandejões universitários, o valor insuficiente das bolsas de permanência estudantil (PAPFE) e, sobretudo, a intransigência da reitoria em dialogar com os estudantes.

O atual palácio da reitoria nunca havia sido ocupado pelos estudantes. Neste momento, os alunos estão dentro do prédio da reitoria e passaram a noite no interior do edifício, prometendo permanecer ali até que o reitor aceite dialogar.
“O que exigimos da reitoria é o básico. É o diálogo. Ocupamos esse espaço por uma coisa só, que é conseguir uma mesa de negociação com a reitoria. Queremos conversar com os nossos representantes. Eles são eleitos para representar a direção da universidade. Os estudantes terem ficado torrando no sol, terem pulado as grades, tudo isso acontece porque o reitor vem se recusando a escutar os estudantes”, diz a diretora do DCE.
Nas redes sociais, o DCE se posicionou: “Os estudantes em greve da USP tomaram hoje a decisão de ocupar a Reitoria da USP, de forma pacífica e sem depredação, como acusa a PRIP de forma mentirosa. A nossa ação é um pedido justo e legítimo frente à intransigência da Reitoria que unilateralmente fechou a mesa de negociação, sem o acordo não apenas dos negociadores mas sobretudo da grande maioria dos cursos que seguem em greve em mais de 3 semanas.”
USP tem comida mofada, falta de água e alunos dormindo no chão
Líderes do movimento estudantil denunciaram com exclusividade ao DCM o descaso da faculdade em relação ao corpo discente e aos trabalhadores. Daniel Lustosa, estudante de Relações Internacionais e morador do Conjunto Residencial da USP (CRUSP), descreveu as condições extremamente precárias de serviços básicos da universidade, um dos principais motivos que levaram à greve.
“Desde fevereiro há pautas fortes relacionadas à estrutura. Moradores do CRUSP fizeram mobilizações por falta de água e falta de vagas, houve casos de estudantes dormindo no chão. Existem problemas estruturais graves, como mofo, infiltrações e cozinhas coletivas inutilizáveis”, afirma Daniel, que também é membro do DCE.
Os alunos denunciam ainda a má qualidade dos serviços de alimentação, conhecidos como “bandejões”. Foi relatada a presença de larvas e até vidro na comida. Em nota nas redes sociais, o DCE reforçou: “Só saímos com conquistas concretas. Uma universidade rica beneficiar apenas uma categoria não é normal. Os estudantes comerem larva, barata, vidro, não é normal. Paramos para que a USP seja, de fato, de qualidade e para todos”.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/vandalismo-e-servir-comida-mofada-alunos-da-usp-ocupam-predio-da-reitoria-em-greve-historica/

