Vexame do Brasil na Copa marca fim da era Neymar

Raphinha consola Neymar após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026. Foto: Reprodução/BP Filmes

A eliminação para a Noruega nas oitavas de final não foi uma zebra. Foi o desfecho lógico de um projeto que deu errado desde o primeiro dia. O Brasil não caiu por causa de um jogo ruim. Caiu porque passou quatro anos fingindo que ainda era uma potência organizada, quando, na verdade, era apenas uma seleção vivendo da nostalgia e da esperança de que um talento do passado resolvesse os problemas do presente.

O maior símbolo desse fracasso atende pelo nome de Neymar. Ninguém apaga sua história. Foi um craque, talvez o maior brasileiro depois de Ronaldo. Mas a Seleção insistiu em tratar um jogador de 34 anos, castigado pelas lesões, como se ainda fosse capaz de decidir uma Copa praticamente sozinho. Era uma aposta mais emocional do que racional. O Brasil continuou refém de um atleta que já não consegue sustentar fisicamente o futebol que um dia encantou o mundo.

Também não ajuda a imagem de um camisa 10 cuja vida fora de campo frequentemente ocupa mais espaço do que suas atuações. É evidente que um jogador pode ter hobbies e vida pessoal. Mas, quando o desempenho deixa de corresponder à idolatria, a discussão sobre prioridades se torna inevitável. A Seleção precisa voltar a girar em torno do coletivo, não da expectativa permanente de que Neymar reencontre um futebol que ficou no passado.

Mas reduzir o vexame a Neymar seria conveniente demais. A responsabilidade maior é da CBF e do planejamento inexistente para este Mundial. Durante todo o ciclo, o Brasil nunca pareceu um time. Trocou treinadores, mudou ideias, alterou convocações e chegou à Copa sem uma espinha dorsal definida. Nem mesmo Carlo Ancelotti, um dos maiores técnicos da história, seria capaz de organizar em poucas semanas aquilo que foi abandonado durante anos. Não por acaso, houve críticas recorrentes de analistas ao fato de a Seleção chegar ao Mundial sem uma equipe consolidada e praticamente sem tempo de trabalho conjunto.

A convocação foi o retrato perfeito da bagunça. Havia jogadores em baixa técnica, atletas vivendo de prestígio e nomes que sequer despertavam identificação no torcedor. Danilo, do Flamengo, Lucas Paquetá, um Raphinha sem ritmo e outros tantos compuseram uma lista que parecia mais fruto da falta de opções do que de convicção. E quando um torcedor pergunta “quem é Douglas Santos?”, o problema não é ignorância da arquibancada. É a distância entre a Seleção e o próprio país. O Brasil deixou de convocar jogadores que empolgam para reunir atletas que mal despertam conversa no bar.

Neymar
Erling Haaland, o protagonista de Brasil e Noruega. Foto: James Lang/IMAGN IMAGES/Reuters

A consequência apareceu em campo. Faltou intensidade, faltou criatividade e sobrou previsibilidade. A camisa amarela já não intimida ninguém. A Noruega entrou em campo acreditando que podia vencer, e venceu. O respeito que antes era automático hoje precisa ser conquistado. E este Brasil não fez por merecê-lo.

Como se o futebol já não estivesse suficientemente em segundo plano, o entorno da Seleção parecia mais interessado em alimentar a indústria do entretenimento. A série da Globo sobre as mulheres dos jogadores virou pauta nacional em plena Copa do Mundo. Foi o retrato de uma Seleção cada vez mais preocupada com a própria narrativa e cada vez menos reconhecida pelo futebol apresentado.

Também ficou evidente a incapacidade de renovar. O Brasil passou anos adiando a sucessão de Neymar. Em vez de preparar uma nova liderança, preferiu esperar um milagre. Enquanto Espanha, França, Inglaterra e até a Argentina reformularam seus elencos sem medo de romper com o passado, o Brasil permaneceu emocionalmente preso ao seu antigo camisa 10.

A eliminação para a Noruega deveria servir como uma limpeza completa. Não basta trocar treinador, presidente da CBF ou comissão técnica. É preciso abandonar a cultura de fabricar salvadores da pátria, parar de convocar jogadores pelo currículo e voltar a montar uma equipe em vez de uma coleção de nomes. O futebol brasileiro continua produzindo talento. O que falta é projeto, coragem e humildade para reconhecer que o prestígio do passado já não ganha jogos.

O vexame nas oitavas de final encerra, de maneira melancólica, uma era que já dava sinais de esgotamento havia muito tempo. O Brasil perdeu para a própria arrogância, para o improviso e para a incapacidade de entender que nenhuma seleção vence uma Copa vivendo de lembranças. Pelo menos a eliminação precoce evitou uma goleada sofrida para a Inglaterra ou, pior, para a Argentina

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/vexame-brasil-copa-fim-era-neymar/