O Ministério Público da Bahia prendeu dez advogados suspeitos de atuar como mensageiros de facções criminosas dentro do Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, a 180 quilômetros de Salvador. A operação, realizada na última sexta-feira (3) com apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, também cumpriu mandados contra 12 detentos.
A investigação aponta que os profissionais funcionavam como um “núcleo jurídico” das organizações criminosas e usavam o parlatório da unidade para levar ao lado de fora ordens de chefes do tráfico que deveriam permanecer isolados. Câmeras instaladas com autorização judicial registraram conversas entre setembro de 2025 e janeiro de 2026.
As gravações mostram advogados recebendo e transmitindo orientações sobre compra e venda de armas, contabilidade do tráfico de drogas, homicídios e sequestros. Os investigadores também identificaram bilhetes com diretrizes das quadrilhas escondidos sob roupas íntimas para burlar a fiscalização.
“Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime”, afirmou o coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto. “Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios.”
▶️ Compra de armas e entrega de recados: vídeos mostram como atuavam advogados presos em operação na Bahia
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— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) July 6, 2026
Gravações detalham ordens sobre armas, drogas e sequestros
Um dos advogados citados na investigação, Ícaro Cardoso Viana, aparece nos registros recebendo instruções para recolher duas pistolas com a tia de um criminoso. Em outros trechos, ele anota preços de substâncias ilícitas enquanto um preso usa codinomes como “peixe” para cocaína, “óleo” para crack e “chá” para maconha; a contabilidade também incluía cheques bancários.
Os vídeos mostram Fernanda Oliveira Borges retirando papéis de dentro das vestes. Detentos ditam balanços financeiros de entorpecentes acompanhados por ela, além de ordens de cobrança de dívidas sob ameaça e anotações relacionadas a planejamentos de sequestros.
A investigação também cita Maria Mariana Batista de Oliveira, apontada como contato frequente de uma liderança do Comando Vermelho. Em um dos vídeos, ela chora com o preso ao falar sobre a morte de um comparsa que atuava na Bahia e morreu em confronto com a Polícia Militar no Rio de Janeiro durante a Operação Contenção, que deixou 122 mortos em outubro de 2025.
Depois dessa conversa, o detento afirma que pretende matar policiais. Maria Mariana, conforme os registros, repassa dados sobre o paradeiro de uma carabina chamada de “CT” e de frações de munição, além de receber instruções sobre como embalar cocaína em pinos plásticos para venda.
O delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, André Viana, disse que a força-tarefa começou após ações violentas coordenadas de dentro de presídios, incluindo um atentado contra o diretor de um estabelecimento prisional na região de Eunápolis. “Foi possível identificar que um advogado fazia a comunicação entre as lideranças criminosas com os criminosos que estavam soltos, justamente para organizar essa ação”, afirmou.
Relatórios da investigação apontam que os advogados prestavam assessoria informal fora dos autos processuais e mantinham detentos informados sobre o fluxo de caixa das facções. Os presos também usavam os profissionais para orientar a divulgação de fotos e vídeos promocionais de drogas no status de aplicativos de mensagens, com o objetivo de atrair compradores.
A operação cumpriu mandados de busca e apreensão em seis municípios baianos. O procurador-geral de Justiça do MP-BA, Pedro Maia Souza Marques, defendeu uma mudança na legislação estadual para adotar regra semelhante à dos presídios federais, onde o monitoramento audiovisual nos parlatórios é obrigatório desde 2019: “Não estamos pretendendo a devassa da privacidade e tornar violável tudo que é discutido, que é feito dentro de qualquer parlatório”.
A OAB na Bahia informou que encaminhará a documentação ao Tribunal de Ética e Disciplina para analisar a suspensão preventiva dos profissionais investigados. A defesa de Fernanda Oliveira Borges disse que não vai se manifestar sobre o mérito das acusações neste momento; a defesa de Maria Mariana Batista de Oliveira afirmou que suas manifestações ficarão restritas aos meios processuais adequados.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/videos-advogados-faccoes-presidio-seguranca-maxima-bahia/

