Romeu Zema, cujo potencial eleitoral para a Presidência da República alcança a estupenda marca de 3%, consagra-se como modelito acabado do reacionário disfarçado de empreendedor, aquele que vê o Estado como inimigo da iniciativa privada, chama higienismo de meritocracia e, como provado agora, despreza qualquer coisa que lembre arte, história ou cultura.
Parte do acervo do Palácio das Mangabeiras escafedeu-se, não se conhece o paradeiro, como noticiado. Há uma investigação da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais em curso, pois sumiram obras de arte, móveis, pratarias, louças, equipamentos e livros que integravam a antiga residência oficial dos governadores mineiros. O governo de Minas Gerais diz que nada desapareceu, que está tudo catalogado, que muita coisa foi transferida para outros órgãos públicos. Parlamentares contestam a versão. O Tribunal de Contas do Estado investiga.
O que Romeu Zema, governador até outro dia, disse sobre o caso? Para o cínico neoliberal, qualquer perda com “móveis velhos” seria compensada pela economia decorrente do fato de ele não ter residido, enquanto governador, na residência oficial.
A visão argentária sobre valores culturais é uma das marcas dessa gente.
Peças que integram palácios oficiais possuem valor histórico, artístico e memorial intangível, que não pode ser monetizado ou reduzido à noção de utilidade comercial ou “velharia”, sabem os civilizados. Mas posturas como a de Zema são comuns entre os políticos de direita no Brasil e no mundo.
A desativação de palácios históricos e a dispersão de seus acervos costumam ser promovidas sob a bandeira do “combate a privilégios e mordomias” por governantes de direita. Embora o corte de gastos públicos seja uma política em certa medida legítima, nada justifica a descaracterização de monumentos e a perda do controle rastreável sobre a memória coletiva de um Estado.
Os representantes da elite do atraso, enraizados no Poder, não hesitam em destruir patrimônios culturais. Recorde-se o que fez João Doria quando aboletado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista: a madeira de lei centenária de seu mobiliário foi simplesmente laqueada de preto – um horror. Paredes, portas, lambris e tetos de salões importantes – como a Sala dos Pratos e o Salão dos Despachos – foram totalmente cobertos com tintas preta e cinza.

A aplicação direta de tinta escura escondeu a textura natural e os entalhes de móveis antigos e adornos históricos. Até mesmo brasões do Estado de São Paulo foram pintados. A tradicional mesa de reuniões principal – onde este jornalista cobriu nos anos 80 e 90 inúmeros eventos oficiais e entrevistas do governador – foi substituída por um tampo preto. Carpetes escuros foram instalados sobre os pisos originais. Além disso, diversas peças históricas foram removidas dos ambientes.
O atentado à história paulista custou cerca de R$ 2 milhões aos cofres públicos.
Nem se fale do que Jair Bolsonaro foi capaz de realizar contra a cultura nacional. A pura e simples extinção do Ministério da Cultura é emblemática, e junto com ela vieram inúmeras demonstrações de desapreço pela história e pela arte. Vale lembrar que, num evento público, o capitão declarou ter “ripado” – demitido – a direção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) após o órgão paralisar a construção de uma unidade da rede Havan, lojão cafona daquele “véio” bolsonarista, que se erguia sobre vestígios arqueológicos.
Sob Bolsonaro, o Conselho Consultivo do Iphan ficou quase dois anos sem realizar reuniões. Essa estagnação paralisou dezenas de processos de proteção ao patrimônio histórico em todo o país. Houve cortes contínuos de recursos destinados à manutenção, ao restauro e à fiscalização de acervos. A redução orçamentária do Instituto foi da ordem de 70%.
Zema, Doria, Bolsonaro e outros cumpriram à risca a cartilha da direita global, dos neoliberais idólatras de Margaret Thatcher. O que a Dama de Ferro fez no Reino Unido foi devastador para a cultura. Ela extinguiu o órgão público que cuidava dos reparos prediais dos museus (Property Services Agency) e repassou essa obrigação para as próprias instituições sem lhes dar os recursos necessários. Jornais da época relatavam tetos com goteiras, salas fechadas por falta de segurança, infiltrações ameaçando acervos e uma severa perda de funcionários técnicos essenciais para a conservação das peças.
Ao editar o National Heritage Act, 1983, o governo Thatcher retirou monumentos e castelos históricos do controle direto dos ministérios e criou a English Heritage, cujo objetivo real era “cortar o cordão umbilical do orçamento público”. Os monumentos físicos passaram a ser geridos sob uma lógica de “marketing territorial”, transformados estritamente em atrações turísticas que precisavam vender souvenirs, ingressos caros e eventos corporativos para não fecharem as portas.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/zema-honra-seu-reacionarismo-ao-desprezar-patrimonio-historico-mineiro/

