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Durante 17 dias, uma comitiva liderada pelo presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, percorreu a China em uma missão institucional que visitou a maior feira de importação e exportação do mundo — a Canton Fair, em Guangzhou — e instalações industriais em cidades como Shenzhen. O objetivo, segundo ele, foi mais do que buscar oportunidades comerciais: foi compreender de perto o que faz da China um símbolo mundial de inovação.
“O empresariado pôde conhecer como a China respira a inovação e os avanços tecnológicos. E, de fato, nós constatamos isso”, afirmou Serquiz, em entrevista à TV Agora RN nesta terça-feira 4. Para o dirigente, mais importante do que importar produtos ou equipamentos, o grande aprendizado da viagem está em conhecer a cultura chinesa de inovação, que ele defende ser fundamental para o futuro da indústria potiguar.
A missão reuniu 28 empresários e dirigentes industriais, divididos entre as duas primeiras etapas da feira, que reúne mais de 10 mil fábricas chinesas. Segundo Serquiz, a experiência revelou o quanto o país asiático consolidou sua hegemonia na indústria de transformação — e como a tecnologia está integrada ao cotidiano produtivo.
“A China domina a indústria de transformação mundial. Tanto é que os Estados Unidos têm um olhar especial para reduzir esse ímpeto chinês”, observou. Ele relatou que a cidade de Guangzhou, com 18 milhões de habitantes, é hoje o núcleo dessa indústria, enquanto Shenzhen fabrica 85% dos celulares do mundo.
Em visitas técnicas, a delegação conheceu de perto o parque industrial da BYD, gigante do setor elétrico e de mobilidade. “A BYD fabrica avião e também metrô”, destacou Serquiz, surpreso ao descobrir que a empresa tem 30 anos de existência. Lá, os potiguares conheceram protótipos de carros sem retrovisores, com autonomia de condução e recarga em cinco minutos — sinal da velocidade da inovação chinesa. “O carro com recarga em cinco minutos já é uma realidade em desenvolvimento. Hoje, eles trabalham para autonomia de 400 quilômetros”, contou.
Inovação e eficiência: da manutenção preditiva ao robô humanoide
Serquiz destacou ainda a sofisticação dos processos industriais observados nas fábricas visitadas. Um exemplo foi a adoção da manutenção preditiva, conceito ainda pouco difundido no Brasil.
“Todos nós conhecemos a manutenção preventiva, que é aquela que a gente faz a cada tantos quilômetros. A preditiva é diferente. Quando o chinês vende a máquina, ele já diz qual peça deve ser trocada em seis meses ou um ano, garantindo longa vida ao maquinário”, explicou.
Essa prática, associada à produção em escala e à pronta entrega, permite à China oferecer equipamentos com preços médios 30% inferiores aos praticados no Brasil, segundo ele. A lógica é clara: produzir para todos os tamanhos de empresa, do micro ao grande industrial, com flexibilidade e eficiência.
Outra tendência que impressionou a delegação foi o avanço da robotização e da inteligência artificial. “Os pavilhões dedicados à robotização eram enormes. Lá, vimos o robô humanoide, aquele que tem semelhança com o corpo humano”, relatou. Ele explicou que a visão e a audição dos robôs já estão consolidadas, enquanto sentidos como olfato, paladar e equilíbrio ainda estão em fase experimental. “Logo teremos robôs com sentidos biológicos. Isso são tendências reais”, previu.
“A China não prevê, ela constrói o futuro”
Ao refletir sobre as diferenças culturais entre os dois países, Serquiz apontou que o maior ativo chinês é a mentalidade coletiva e a velocidade de execução. “Quem tem a ideia não é quem inova. Entre a ideia e o inovador existe a implementação. E essa velocidade já é uma cultura do povo chinês”, afirmou.
Segundo ele, os chineses têm um senso de nação que se reflete em sua produtividade: “Desde o nascer, o espírito coletivo é de que se a nação estiver bem, o cidadão estará bem. Isso transborda para o processo produtivo”.
Para o dirigente, esse modelo precisa inspirar a indústria brasileira. “A China não prevê, ela constrói o futuro. Eles encaram a competição. Se existe o Uber, eles criam o Didi. Se existe o iPhone, eles criam as próprias marcas”, ressaltou, defendendo que o Brasil invista em marca própria e agregação de valor como estratégia de competitividade.
Reforma tributária e ambiente de negócios
Durante a viagem, Serquiz acompanhou à distância o impacto de uma decisão da Secretaria Estadual de Fazenda (Sefaz) que determinou a antecipação do pagamento de metade do ICMS devido por empresas potiguares, entre elas as beneficiárias do Proedi. “Foi uma surpresa. O diálogo com o Estado é aberto e independente, mas essa medida pegou a todos de surpresa”, afirmou. Ele contou que precisou interromper a agenda na China para dialogar com empresários e organizar a reação institucional.
Para o presidente da Fiern, o episódio expôs a fragilidade fiscal do Estado. “A arrecadação vem crescendo, mas as despesas crescem mais. Isso interfere na capacidade de investimento e gera déficit de infraestrutura”, alertou.
Ele lembrou o histórico de desequilíbrios fiscais potiguares, desde o uso do fundo previdenciário nos governos passados, e cobrou um “pacto pela sustentabilidade financeira”. “Se nós não buscarmos esse pacto, o nosso futuro será um passado repetido. É preciso que cada um dê sua cota de sacrifício”, declarou.
PPPs e modernização das licenças ambientais
Serquiz defendeu que parcerias público-privadas (PPPs) e a modernização da legislação ambiental são caminhos urgentes para destravar investimentos. Ele lembrou que a Fiern participou ativamente da elaboração da Lei das PPPs e acompanha a tramitação da nova política industrial, que deverá ser enviada até o fim do ano à Assembleia Legislativa pela governadora Fátima Bezerra (PT).
“A política industrial é importante porque estamos no período de transição da reforma tributária, que prevê o fim dos benefícios fiscais. Vai valer a vocação de cada região e de cada município”, explicou.
Sobre o licenciamento, ele defendeu a revisão da Lei Complementar nº 272, de 2004, que regula o tema há 20 anos. “A realidade do Estado é outra. Precisamos evoluir, descentralizar, permitir que os municípios licenciem empreendimentos locais”, disse, reclamando do fato de que o Idema, órgão estadual, é o responsável por licenciar empreendimentos de todos os portes em todo o Estado.
O objetivo, afirmou, é alinhar a legislação potiguar à norma nacional, sem atropelar legalidades. “Queremos criar um ambiente competitivo regional, com foco e agilidade”, resumiu.
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/apos-missao-industria-potiguar-quer-importar-cultura-de-inovacao-da-china/

