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Na Praia da Pipa, onde o turismo dita o pulso da economia e a paisagem — falésias, mar aberto e ruas de fluxo constante — funciona como principal ativo, a gastronomia começa a assumir um papel mais estruturante. Não apenas como complemento da experiência turística, mas como vetor de identidade e desenvolvimento. É nesse ponto de inflexão que o Sabores da Pipa Festival Gastronômico insere sua edição de 2026 ao anunciar a chef Janaína Torres como convidada central.
A escolha não é casual. Ao trazer um dos nomes mais influentes da gastronomia brasileira contemporânea, o festival sinaliza uma mudança de ambição: deixar de operar apenas como circuito gastronômico sazonal e se posicionar como uma plataforma maior de articulação entre cultura alimentar, território e economia criativa.
Janaína Torres construiu sua trajetória longe dos caminhos mais previsíveis da alta gastronomia. Nascida e formada no centro de São Paulo, sua cozinha sempre orbitou o cotidiano — pratos populares, receitas afetivas, técnicas transmitidas fora dos ambientes formais. Ainda assim, ou talvez por isso, tornou-se uma das figuras mais relevantes da cena internacional ao tensionar uma pergunta que atravessa o setor: o que define valor na comida contemporânea?
À frente do Bar da Dona Onça, no Edifício Copan, e sócia de empreendimentos como A Casa do Porco, Hot Pork, Merenda da Cidade e Sorveteria do Centro, Torres consolidou um modelo que combina escala, identidade e consistência. Seu trabalho parte de referências reconhecíveis — feijoada, galinhada, couve, miúdos — e as reposiciona não como releituras sofisticadas, mas como afirmações culturais. A técnica está presente, mas não como fim; funciona como ferramenta para ampliar o alcance de uma cozinha que se quer inclusiva.
O reconhecimento veio em sequência. Em 2023, Janaína foi eleita a melhor chef mulher da América Latina. Em 2024, recebeu o mesmo título em nível global pela lista The World’s 50 Best Restaurants, organizada pela empresa britânica William Reed. Mais do que uma distinção individual, o prêmio consolidou sua posição como porta-voz de uma cozinha brasileira que busca ampliar sua presença internacional sem perder a ancoragem local.
É essa combinação — projeção global e discurso territorial — que interessa ao Sabores da Pipa.
Para a organização do festival, a presença da chef opera como um ponto de inflexão no posicionamento do festival. “Receber Janaína Torres no Sabores da Pipa é um momento muito especial para todos nós. Em seu projeto ‘À Brasileira’, ela representa uma gastronomia que mergulha nas tradições culinárias e na riqueza cultural dos territórios, exatamente os valores que também sustentam o nosso festival. Sua presença eleva o evento e cria uma oportunidade única de troca entre profissionais, estudantes e toda a cadeia produtiva local, uma verdadeira riqueza”, afirma Adrianne Ciantelli, idealizadora e coordenadora geral.
Na prática, essa troca se dá em múltiplas camadas. Além da participação na programação oficial, Janaína chega ao festival como uma espécie de embaixadora informal de iniciativas que conectam gastronomia e desenvolvimento. Durante sua passagem pela Pipa, deve visitar restaurantes participantes, circular pela cena local e estabelecer contato direto com produtores, pescadores, maricultores e fornecedores — agentes que sustentam a cadeia, mas raramente ocupam o centro da narrativa.
Esse movimento dialoga com uma mudança mais ampla no setor. Em diferentes partes do mundo, festivais gastronômicos têm deixado de ser vitrines efêmeras para se tornarem plataformas de conexão entre turismo, produção local e políticas de sustentabilidade. No Nordeste brasileiro, onde a sazonalidade ainda impõe limites ao fluxo econômico, esse reposicionamento ganha peso adicional.
O ponto alto da participação de Janaína será no dia 9 de maio, na Arena Gastronômica “Saberes e Sabores”. Ao lado de chefs locais, ela comandará o preparo de um prato coletivo em uma ação de caráter beneficente. A renda será destinada à revitalização da Casa de Farinha da comunidade quilombola de Sibaúma — um gesto que reforça a dimensão social do evento e sua tentativa de se ancorar no território para além do discurso.
Criado como um circuito voltado ao turismo, o Sabores da Pipa chega à sua quinta edição ampliando escopo e expectativas. Em 2026, o festival acontece de 30 de abril a 10 de maio, com público estimado em 20 mil pessoas e cerca de 50 estabelecimentos participantes em Tibau do Sul. A programação inclui menus especiais, ações de capacitação, atividades culturais e iniciativas ligadas à sustentabilidade.
Mais do que números, o que está em jogo é o reposicionamento de um destino. Ao investir em nomes de projeção internacional e em uma narrativa que valoriza identidade e cadeia produtiva, o festival tenta responder a uma questão central para economias dependentes do turismo: como transformar fluxo em permanência.
Nesse contexto, a gastronomia aparece como ativo estratégico. Não apenas pelo potencial de atração, mas pela capacidade de articular diferentes dimensões — cultura, produção, educação e impacto social. A presença de Janaína Torres, com sua trajetória que conecta cozinha popular e reconhecimento global, sintetiza esse movimento.
Serviço
Sabores da Pipa Festival Gastronômico – V edição (2026)
Quando: de 30 de abril a 10 de maio de 2026
Onde: Praia da Pipa, Tibau do Sul (RN)
Público estimado: cerca de 20 mil pessoas
Participantes: aproximadamente 50 estabelecimentos
Mais informações: @saboresdapipaoficial no Instagram
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/presenca-da-chef-janaina-torres-redefine-escala-do-festival-sabores-da-pipa/

