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Gravar um longa no próprio estado, ao lado de moradores da comunidade e com uma personagem forte nas mãos. Para a atriz potiguar Titina Medeiros, a experiência em Filhos do Mangue foi mais que um papel – foi afirmação. “Nós existimos”, diz a artista, ao falar sobre a importância de um filme filmado em Barra de Cunhaú, no município de Canguaretama, e que chegou aos cinemas do País inteiro no último dia 17. Em Natal, a produção está em exibição no Moviecom, no Praia Shopping.
No drama dirigido por Eliane Caffé, Titina interpreta uma mulher marcada pela violência doméstica e pelo abandono. Ao lado de Felipe Camargo, que vive o protagonista Pedro Chão, ela mergulha em um enredo que traz uma denúncia social clara. Em entrevista ao AGORA RN, a atriz falou sobre o processo de filmagem e a alegria de levar o RN para as telas.
Confira a entrevista:
AGORA RN – Você comentou que esse foi seu primeiro papel realmente dramático. Como foi sair da sua zona de conforto e mergulhar nesse novo registro?
Titina Medeiros – Eu fiquei muito apreensiva porque era uma cena de violência doméstica. Nunca vivi uma situação desse tipo e sou uma atriz que tem mais habilidade com comédia. Acredito na força da coisa na hora, ou então fica engessado, fica frio, fica falso. Uma coisa que me ajudou muito foi a força da diretora, Eliane Caffé. Ela tem um poder de condução muito lindo e eu falei: ‘Eliane, estou um pouco com medo porque eu sou uma atriz mais cômica, nunca fiz um personagem assim’. Aí ela usou uma expressão linda, ela falou assim: ‘Ah, você vem da comédia? Perfeito! Todo ator de comédia sabe fazer drama. Difícil o ator do drama fazer comédia, mas todo ator de comédia é um ator dramático. Você vai arrasar’. E assim a gente foi para a cena. O cinema também tem uma coisa da verdade. Estavam lá as palavras agressivas. Então, no fundo, foi se deixar levar pela ação.
AGORA RN – Como foi gravar em Barra do Cunhaú?
Titina – Gravar em Barra foi um presente. Primeiro porque o lugar é lindo. Nesse filme, não foi só poder viver a natureza linda de Barra de Cunhaú, do próprio mangue, mas, sobretudo, a natureza das pessoas de Barra de Cunhaú. Porque eu estava atuando com elas. Foi um encontro, assim, único. A gente criou ali uma comunidade só, se misturando. Eliane também tem esse poder de misturar todo mundo. E me senti muito em casa, com os meus. Gravar esse filme foi muito especial. Hoje somos amigos. Quando eu estou na pousada de Dona Socorro, estou em casa literalmente. Foi lindo e mágico estar gravando em casa, no nosso estado, que é uma loucura de belo.
AGORA RN – A presença da natureza é quase um personagem no filme. Como isso influenciou sua atuação?
Titina – Acho que não só a natureza física me ajudou na construção da personagem, mas a natureza humana, porque a gente convivia, os nossos sets eram na casa dos pescadores. Conviver com aquelas pessoas, estar no dia-a-dia com aquelas pessoas, ter um pescador, por exemplo, como o meu pai. Tudo isso me fez me conectar com o meu eu, os meus ancestrais, as pessoas simples da minha vida. Sou constituída dessa natureza, eu sou a mulher do povo do Rio Grande do Norte. Na hora que eu estou dentro, imersa naquela natureza, eu estou em casa, e isso me ajudou muito a me constituir. Uma mulher de uma comunidade, de uma cidade pequena, como eu sou, de gente simples, brasileira, como eu sou, vivendo situações do povo brasileiro, como eu sou. Foi como um abraço.
AGORA RN – O filme trata de temas difíceis como violência doméstica. Como foi lidar com esses assuntos durante as filmagens?
Titina – Lidar com esses temas foi uma das coisas que me encantou nesse roteiro. Quando a gente é artista, a gente quer dar voz àquilo que nos causa inconformidade. Representar uma personagem que sofre violência doméstica, sabendo que a cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil, a cada duas horas uma mulher é morta no Brasil, é uma forma de, através do meu trabalho, através da minha arte como atriz, contando uma história narrativa no cinema, gritar para o mundo de que isso não pode mais ser possível. É como uma denúncia, fico bastante honrada de poder usar o meu ofício para dar esse grito. Chega de violência doméstica, chega de abusos, chega de todo tipo de coisas que nos amarram, que nos fazem infelizes, que atrasam a nossa humanidade.
AGORA RN – A arte pode ser uma forma de denúncia e transformação social nesse tipo de contexto?
Titina – Sim, o cinema vem com essa força de denúncia. Não que o cinema seja denúncia, a arte seja só denúncia, não é isso. Mas isso cabe, e a gente se utiliza também desses espaços para a transformação da sociedade. Esse filme traz isso, não só em relação à violência doméstica, mas a tantas outras violências que estão lá expostas no filme, enganações, violência política, dominações. Todas as formas de expressão artística estão aqui para ser como uma aliada nossa nesse grito.
AGORA RN – Após esse papel, você se vê cada vez mais aberta para outros gêneros além da comédia?
Titina – Espero que sim. A comédia é uma coisa que eu amo e eu sei que faz muito bem para as pessoas. A comédia é transformadora, é irreverente, é uma loucura. Ela faz a crítica provocando riso. Mas, como atriz, eu quero estar aberta a todo tipo de possibilidade de gênero, porque tudo é desafio. Espero que me vejam como uma atriz mais versátil.
AGORA RN – Qual é a importância, para você, de levar uma produção filmada no Rio Grande do Norte para salas de cinema em todo o Brasil?
Titina – Importância imensa, porque a gente mora num país continental. Somos um estado pequeno, mas a gente existe, a gente está aqui, a gente produz cinema, a gente tem muita gente talentosa. Poder ver Barra de Cunhaú nos cinemas nacionais do Brasil é um prazer. A gente quer dizer para o Brasil: nós existimos, nós estamos aqui, nós temos produção. Cada vez que a gente ocupa, fura essa bolha e chega a nível nacional, a gente comemora. Que venha mais, mais, mais produções.
AGORA RN – Você sente que o cinema nacional tem olhado mais para as histórias do Nordeste de forma respeitosa?
Titina – A gente tem uma cultura artística que é inegável, que está na literatura, está na história do Brasil, da arte brasileira. A gente tem grandes artistas, o Nordeste é berço. Não que seja o único, nem o melhor, mas a gente tem a nossa força, a nossa potência. Triste daquele que não olha para a gente com esse respeito. A gente é mesmo celeiro de grandes artistas.
Enfim, eu acho que isso é inquestionável. Nas produções audiovisuais, a gente teve um espaço, muito tempo, de não entendimento talvez dessa força, visões preconceituosas e tudo mais. Mas eu acredito que sim, que a cada dia a gente tem sido visto, pelo menos no audiovisual, com mais respeito.
AGORA RN – Qual sua mensagem para quem vai assistir Filhos do Mangue, especialmente os potiguares?
Titina – Vão para o cinema, vão ver a nossa gente, a nossa cara, a nossa natureza. Vocês não vão se arrepender. Vão ouvir o nosso sotaque, o povo de Barra de Cunhaú arrasando. Vão que vocês vão ver atores do Rio Grande do Norte como eu quanto tantos outros. Não deixem de ver Filhos do Mangue, vocês vão gostar.
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/titina-celebra-protagonismo-do-rn-em-filhos-do-mangue-existimos/

