O bairro Mucuripe, em Fortaleza, é um dos principais cenários da história dos pescadores e jangadeiros do Ceará — figuras icônicas que representam a coragem e a resistência de homens que enfrentam o mar diariamente em busca de sobrevivência. A atividade, marcada por simplicidade e bravura, atravessa gerações e mantém viva uma cultura profundamente ligada ao litoral cearense.
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Pescadores e jangadeiros moldaram a história do Ceará e de Fortaleza
A trajetória desses trabalhadores remete a figuras históricas como Chico da Matilde, o Dragão do Mar, que saiu de jangada até o Rio de Janeiro para reivindicar melhores condições de trabalho. Ao longo do tempo, os jangadeiros também ganharam projeção internacional ao serem registrados pelas lentes do cineasta Orson Welles, que esteve no Ceará para produzir o filme “It’s All True” (“É Tudo Verdade”). Ainda hoje, a memória desses personagens permanece viva entre aqueles que continuam a tradição no Mucuripe.
Na chamada Praia dos Botes — trecho que vai da Igreja de São Pedro até o Mercado dos Peixes — é possível encontrar uma grande diversidade de embarcações, como paquetes, jangadas, lanchas, botes de remo, barcos de casco, veleiros e catamarãs. O local concentra também a comercialização de pescados frescos, mantendo uma dinâmica econômica própria, sem a presença de intermediários, o que atrai moradores e turistas.
O vendedor Vicente Marques destaca a variedade e a preferência dos consumidores. “Peixe que vem do nosso mar é pargo, sirigado, garupa, cavala… O que se procura mais é o pargo, sirigado, cavala. São os peixes que são tradicionais do dia a dia”, diz ele, ao falar com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza.

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Trabalho dos pescadores no Mucuripe, em Fortaleza, conta com rotina e técnicas específicas
É na praia que a rotina dos pescadores começa. O trabalho exige preparo e organização desde as primeiras horas do dia. Conhecido como “tratador”, por também realizar a limpeza dos peixes, José Ronaldo iniciou na atividade ainda na adolescência, seguindo os passos da família.
“Meu pai começou, ele tinha 13 anos de idade. Aí eu estava estudando, mas antigamente nós tínhamos uma dificuldade em casa, né? Aí quando eu vi aquele experimento do meu irmão mais pequeno, eu com 13 anos, eu também fui escondido. Não é que eu podia ir, eu deixei de estudar para pescar porque estava com dificuldade em casa, né?”
A pesca no Mucuripe envolve uma rede de trabalhadores. Em média, cinco pescadores tiram o sustento de cada embarcação, formando uma comunidade de pelo menos 500 pessoas diretamente ligadas à atividade. Entre eles estão jangadeiros como José Francisco, que descreve a preparação para as viagens ao mar. “A gente acorda logo cedo. De manhã cedo, já prepara tudo, rancho, gelo. isca, tudo isso a gente já… É uma das coisas mais principais, né?”
As jornadas podem durar dias ou até mais de uma semana no Oceano Atlântico. Durante esse período, os pescadores precisam lidar com a imprevisibilidade do tempo e contar com o apoio mútuo. No Mucuripe, há sempre embarcações chegando e outras partindo, em uma dinâmica contínua de trabalho e cooperação.
Dentro das jangadas, o espaço é reduzido e cada item tem função essencial. Equipamentos, gelo para conservação do pescado e compartimentos improvisados para descanso fazem parte da estrutura. José Ronaldo explica parte desse funcionamento: “Aqui é o viveiro e botar o peixe vivo dentro. Isso aqui é uma paradeira, isso aqui é um aguador, entendeu?”

Quando as condições climáticas impedem a saída para o mar — seja por ventos fortes ou mudanças no tempo — os pescadores permanecem em terra, onde aproveitam para trocar histórias, experiências e fortalecer os laços da comunidade. Em meio à simplicidade, demonstram orgulho de uma profissão que exige resistência e coragem.
Experiência de décadas
Com quase 50 anos dedicados à pesca, José Carlos é um dos mais experientes do grupo. Ele começou ainda criança, aos 11 anos, e acumula histórias de uma vida inteira no mar. Para ele, além das dificuldades, a atividade também proporciona momentos únicos. “O sol nascendo aqui em 5h20, 5h30 é lindo. O sol fica todo colorido. Do mesmo jeito é quando ele vai se pôr. Fica bem bonito. Por causa que a gente vê o começo dele e vê o fim. O nascente e o poente. A pessoa vê tudo. É muito lindo. Muito, muito lindo.”
Ao ser questionado se deixaria a profissão, a resposta revela o vínculo profundo com o ofício. “Só quando Deus me levar. Quando Deus me levar, eu tenho que deixar de ser pescador. Mas, enquanto não, enquanto eu tiver a força e a coragem, Deus me der a minha coragem, eu vou. Toda hora eu vou.”
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Fonte: https://gcmais.com.br/noticias/2026/03/17/tradicao-dos-pescadores-e-jangadeiros-de-fortaleza-se-mantem-viva-no-mucuripe/

