O jornalista, escritor e roteirista paraense Ullisses Campbell, conhecido nacionalmente por seus livros de investigação criminal e pela série Tremembé, do Prime Video, criticou as declarações do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre Belém, feitas durante o debate da TV Globo, na noite de sexta-feira (23 de outubro). Em uma publicação nas redes sociais, Campbell afirmou que os problemas históricos de saneamento e infraestrutura da capital paraense não podem ser utilizados para desqualificar a cidade e seus moradores. Para ele, a precariedade dos serviços públicos deve ser compreendida como resultado de decisões políticas, e não como uma característica da população.
Durante o confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro mencionou esgoto a céu aberto, lixo nas ruas e urubus nas proximidades de residências, afirmando que Belém enfrenta problemas de mau cheiro. A declaração provocou reações públicas, entre elas a do prefeito Igor Normando (MDB), que contestou a descrição feita pelo senador e destacou investimentos em infraestrutura na capital.
Jornalista contesta desqualificação da cidade
Ao comentar o episódio, Ullisses Campbell recorreu à própria experiência como repórter para questionar a maneira como Belém foi apresentada no debate.
Nascido na capital paraense, ele trabalhou durante cinco anos, na década de 1990, nos jornais A Província do Pará e O Liberal. Nesse período, percorreu bairros, visitou residências e ouviu moradores sobre as dificuldades enfrentadas no cotidiano.
A experiência, segundo o jornalista, ajudou a construir sua percepção sobre as desigualdades urbanas e a responsabilidade do poder público.
“Foi ali que aprendi que uma cidade não se conhece pela paisagem que oferece aos visitantes, mas pela maneira como trata seus habitantes”, escreveu.
Campbell classificou a declaração do candidato como uma forma de desqualificação territorial, na qual problemas de infraestrutura passam a ser associados à identidade da própria cidade.
“É uma inversão perversa”, afirmou, ao argumentar que essa abordagem desloca a responsabilidade dos governantes para o território e seus moradores.
Problemas históricos e responsabilidade política
Na publicação, o escritor relacionou as deficiências de saneamento de Belém à trajetória histórica da Amazônia, marcada por exploração econômica, concentração de renda e dificuldades para transformar a riqueza regional em melhores condições de vida.
Para Campbell, o reconhecimento desses problemas não deve ser confundido com uma avaliação depreciativa da capital paraense. “Seus problemas de saneamento não são uma fatalidade geográfica, mas o resultado de escolhas políticas”, escreveu.
A crítica não nega a existência de desigualdades ou carências de infraestrutura. O argumento do jornalista é que essas questões exigem políticas públicas e responsabilização administrativa, em vez de generalizações sobre a cidade.
Ao encerrar sua manifestação, Campbell reafirmou o vínculo com a terra natal e destacou a importância cultural de Belém na formação brasileira. “Belém não precisa ser idealizada para merecer respeito. Precisa ser compreendida.”
De Belém ao jornalismo nacional
A trajetória profissional de Ullisses Campbell começou na imprensa paraense. Depois de atuar em A Província do Pará e O Liberal, o jornalista trabalhou no Correio Braziliense e na Folha de S.Paulo, além de produzir reportagens para revistas como Veja, Época e Superinteressante.
Ao longo de aproximadamente três décadas de carreira, destacou-se na reportagem investigativa, com trabalhos sobre desigualdade social, exploração de trabalhadores e crimes de grande repercussão.
Entre os reconhecimentos profissionais, acumula três Prêmios Esso de Jornalismo e um Prêmio Embratel.
Atualmente, assina a coluna True Crime, no jornal O Globo, dedicada à investigação e à reconstrução de crimes reais.
Livros sobre crimes de repercussão nacional
Campbell também construiu uma carreira literária voltada ao jornalismo investigativo e às biografias de personagens envolvidos em crimes conhecidos nacionalmente.
Em 2020, publicou Suzane: Assassina e Manipuladora, sobre Suzane von Richthofen, condenada pelo assassinato dos pais.
No ano seguinte, lançou Elize Matsunaga: A Mulher que Esquartejou o Marido, reconstruindo o caso da mulher condenada pela morte do empresário Marcos Matsunaga.
Em 2022, publicou Flordelis: A Pastora do Diabo, sobre a ex-deputada federal condenada por envolvimento no assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo.
A produção literária continuou com Francisco de Assis: O Maníaco do Parque, lançado em 2024, e Tremembé: O Presídio dos Famosos, publicado em 2025.
As obras foram desenvolvidas a partir de entrevistas, documentos judiciais e investigações sobre a trajetória dos personagens retratados.
Sucesso no streaming com Tremembé
A experiência de Campbell no jornalismo criminal também abriu espaço para sua atuação como roteirista audiovisual.
Ele integra a equipe de roteiro da série Tremembé, lançada em 31 de outubro de 2025 pelo Prime Video. A produção foi inspirada principalmente nos livros sobre Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga.
A série acompanha personagens envolvidos em crimes de repercussão nacional e suas trajetórias no sistema prisional, combinando investigação documental e dramatização.
Campbell participou do desenvolvimento do roteiro ao lado de Vera Egito e outros profissionais. Sua atuação envolveu pesquisa e verificação de informações utilizadas na adaptação.
O jornalista também é autor do livro sobre o Maníaco do Parque, que inspirou uma produção cinematográfica. Sua participação como roteirista está confirmada em Tremembé; as fontes consultadas não permitem atribuir a ele, com segurança, roteiros de outras séries televisivas específicas.
Reação amplia debate sobre a capital paraense
A manifestação de Campbell acrescentou à repercussão do debate presidencial uma discussão sobre a forma como cidades amazônicas são retratadas no cenário político nacional.
De um lado, Flávio Bolsonaro utilizou problemas de saneamento e limpeza urbana para criticar as condições de infraestrutura da capital. De outro, Campbell argumentou que essas deficiências precisam ser examinadas a partir de suas causas históricas e das responsabilidades do poder público.
A discussão ocorre às vésperas do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), e envolve tanto a situação dos serviços urbanos quanto o tratamento dado à população de Belém no debate político.
Para o escritor paraense, reconhecer os problemas da cidade é necessário, mas não elimina seu valor histórico, cultural e social.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/a-cidade-nao-precisa-ser-idealizada-para-merecer-respeito-ullisses-campbell-rebate-flavio-bolsonaro-apos-criticas-a-belem/

