Guardado na memória como uma fotografia colorida do início do século, o ano de 2002 permanece vivo para quem viveu a experiência do primeiro voto. Naquela época, o período eleitoral transformava as ruas em um verdadeiro espetáculo visual e sonoro. As cidades respiravam política do início ao fim do dia, tomadas pela distribuição indiscriminada de outdoors com sorrisos impecáveis, bandeiras hasteadas em cada esquina e carreatas embaladas por jingles “chiclete”, que grudavam na mente por meses.
Vivíamos a era de ouro do que se convencionou chamar de “A Festa da Democracia”. Vestir a camisa do seu candidato não era apenas uma metáfora: as pessoas saíam de casa literalmente trajando os slogans de suas preferências. Bottons reluziam nas lapelas das jaquetas, adesivos cobriam os para-brisas dos carros e chaveiros, bonés e brindes eram distribuídos com generosidade nos comícios de praça pública.
Havia uma vibração festiva e popular no ar. O engajamento parecia palpável, estampado no algodão das camisas e no papel dos santinhos que forravam o asfalto perto das zonas eleitorais.
A evolução da propaganda eleitoral
De lá para cá, contudo, o cenário da propaganda eleitoral mudou radicalmente. Visando coibir o abuso do poder econômico e equilibrar as disputas, a legislação brasileira passou por profundas reformas. Os vistosos outdoors foram banidos, a distribuição de brindes e vestuários personalizados foi proibida e a farra do material impresso sofreu duras restrições.
A festa que antes ocupava o asfalto e as praças migrou em grande parte para o ambiente digital. Hoje, a batalha pelas mentes e corações dos eleitores acontece nas telas dos smartphones, nos feeds das redes sociais e nos aplicativos de mensagens instantâneas, onde o alcance é silencioso, mas cirúrgico. Busca-se a cada segundo capturar o algoritmo digital do eleitor, a fim de atrair atenção à mensagem que o partido ou candidato desejam propagar.

A emoção do primeiro voto permanece
No entanto, em meio a tantas transformações normativas e tecnológicas, existe algo intrínseco ao processo democrático que o tempo não conseguiu apagar: o entusiasmo de exercer a cidadania pela primeira vez. A sensação de caminhar até a seção eleitoral, portando o documento oficial e a própria convicção, carrega um peso simbólico inestimável.
Diante da urna eletrônica, a digitação de cada número no teclado faz o coração acelerar. E ao ouvir o famoso som “Pilili” acompanhado da mensagem Fim, o jovem eleitor compreende que sua voz tem o mesmo valor e poder de decisão que a de qualquer outro cidadão no país.
Essa experiência fundamental é garantida pela Constituição, que estimula a participação política desde cedo. No Brasil, o alistamento eleitoral e o voto são facultativos para os jovens a partir dos 16 anos, oportunidade de ingressar na vida pública e opinar sobre os rumos da nação antes mesmo da maioridade civil. Já aos 18 anos, a cidadania plena se consolida e o voto torna-se obrigatório.
Seja no longínquo ano de 2002, quando tive minha primeira participação efetiva na “Festa da Democracia”, contribuindo com meu voto, unitário e não menos importante, embalado por panfletos e camisas coloridas, ou nos dias de hoje, marcados pela rapidez das redes digitais, o ritual da primeira escolha segue inalterado em sua essência. Muda-se a forma de fazer campanha, alteram-se as leis e transformam-se os canais de comunicação, mas a emoção do primeiro voto permanece intacta, um marco inesquecível na vida de qualquer pessoa.
Ao término de um pleito eleitoral, fica ao jovem eleitor que votou pela primeira vez a ânsia em comparecer novamente às urnas e depositar sua contribuição à Democracia do país; e aos adolescentes prestes a completar 16 anos, a angústia pela chegada das próximas eleições, sejam municipais ou gerais.
Dentre os vários encantos da Democracia, tão vilipendiada nos últimos anos, sem dúvidas o primeiro voto e as gerações que se renovam nesta experiência são algo que podem ser retratados em um pequeno trecho da canção “Amanhã”, de Guilherme Arantes: “Amanhã mesmo que uns não queiram será de outros que esperam ver o dia raiar”.
* Marcelo Guedes e advogado especialista em Direito Eleitoral e ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/a-emocao-do-primeiro-voto-um-rito-inesquecivel-na-vida-do-eleitor/

