Belém e Pará – Conhecida há décadas como a Cidade das Mangueiras, Belém ainda mantém forte sua identidade verde, com mangueiras presentes em praças, avenidas e quintais. Mas, apesar da abundância visual e da variedade de frutos nas áreas urbanas, a produção comercial de manga no Pará segue inexpressiva, segundo dados do IBGE e especialistas locais.
Em entrevista ao jornal, o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Urano de Carvalho, detalhou o cenário atual da mangicultura paraense que, embora rica em diversidade, não alcança relevância econômica no contexto nacional. “Na arborização de Belém, temos mais de 15 variedades de manga. Só na Praça Batista Campos, por exemplo, já identifiquei pelo menos cinco tipos diferentes”, aponta Carvalho.
Entre as variedades locais, a manga comum predomina nas ruas da capital, mas a manga Bacuri é a mais valorizada, ainda que rara na arborização urbana. Essa variedade, cultivada em maior escala no município de Abaetetuba, é a preferida dos consumidores mais tradicionais. “A manga Bacuri é, sem dúvida, a que tem melhor aceitação entre as locais. Ela possui qualidade superior e valor de mercado diferenciado”, afirma o pesquisador.
Enquanto isso, as mangas disponíveis nos supermercados, como Palmer, Tommy Atkins, Haden e Keitt, chegam de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, onde o cultivo ocorre o ano inteiro, graças aos perímetros irrigados do Vale do São Francisco. “Essas variedades não se adaptam bem ao clima úmido de Belém. Aqui, elas são muito suscetíveis a doenças e têm frutos mal formados. Já em regiões mais secas, como Altamira e Santarém, o comportamento delas é mais razoável”, explica Urano.
Segundo o IBGE, em 2024 o Pará produziu apenas 14 toneladas de manga, número irrisório se comparado à produção nacional, que superou 1,2 milhão de toneladas. Mas essa baixa representatividade estatística esconde um cenário mais complexo. “O IBGE só contabiliza pomares com mais de 50 pés. Isso exclui milhares de mangueiras espalhadas em quintais e vias urbanas. Só em Belém, estimo que a produção anual pode chegar a 40 toneladas, mesmo sem plantios comerciais estruturados”, comenta o pesquisador.
Esse tipo de produção é chamado de ‘produção invisível’, e seu consumo se dá principalmente de forma direta ou por meio de vendedores ambulantes, que colhem as frutas com varas e vendem em carrinhos de mão.
Safra atrasada e mercado da nostalgia
A safra em Belém costuma começar no fim de outubro e seguir até março, com pico entre dezembro e janeiro. Mas os últimos anos foram marcados por atrasos causados por estiagens e mudanças climáticas. “A florada está atrasada este ano, como também aconteceu em 2024. É provável que a safra se estenda até o fim de fevereiro ou março”, diz Carvalho.
Apesar da presença constante das mangas importadas nos supermercados, há ainda um forte apelo afetivo pelas variedades locais. “Existe um mercado da nostalgia”, define o pesquisador. “Muita gente prefere a manga que comia na infância, como a Bacuri, a Cametá e a manga comum. As novas gerações, no entanto, tendem a se acostumar com as variedades de fora, mais presentes nas gôndolas”.
Origem asiática e herança urbana
Embora muitos ainda acreditem que a manga seja nativa do Brasil, a fruta é originária da Ásia, e só chegou ao país por volta do século XVIII, trazida inicialmente para a Bahia. Em Belém, a árvore ganhou destaque a partir da gestão do intendente Antônio Lemos, grande responsável pela arborização da cidade com mangueiras. “Acredita-se que as primeiras mudas tenham sido trazidas por Antônio Lemos e outros técnicos, como o arquiteto Antônio Landi. Eles buscaram na manga uma espécie ideal para sombrear a cidade, que na época não tinha edifícios altos, e onde praticamente toda casa tinha um quintal com um pé de manga”, relembra Urano.
Ainda assim, a presença das mangueiras segue como um dos símbolos mais fortes da paisagem urbana de Belém. Mesmo com o avanço das mangas vindas de outras regiões nos supermercados, o hábito de colher frutos diretamente das árvores espalhadas pela cidade ainda persiste, principalmente entre os moradores mais antigos, que mantêm uma relação afetiva com as variedades locais.
Em uma das calçadas da Avenida Magalhães Barata, a aposentada Maria Júlia, de 69 anos, moradora do bairro Sideral, parou para recolher algumas mangas caídas. “Eu gosto muito de manga. Sempre que vejo na rua, eu pego. Gosto dessa comum mesmo, que tem nas ruas de Belém. São docinhas, gosto muito”, contou, com um sorriso.
Na mesma avenida, Aúria Carvalho, 60 anos, também aposentada, compartilha do mesmo costume. Moradora das proximidades da Avenida Almirante Barroso, ela conta que sempre aproveita quando encontra uma mangueira carregada pelo caminho. “Aonde eu moro não tem manga, mas se eu vejo na rua, eu pego. É sempre bom. E faz bem pra saúde também”, afirma.
Para além das estatísticas oficiais, essas cenas cotidianas revelam o valor cultural e nutricional da manga para os belenenses, especialmente das variedades locais, como a manga comum e a bacuri, frutos que continuam a fazer parte da rotina da cidade, mesmo diante das mudanças no consumo.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/cidade-das-mangueiras-variedades-locais-de-manga-resistem-as-importadas/


