Cidade Velha: Como é viver no bairro mais antigo de Belém

Entre ruas estreitas, casarões coloniais e a rotina marcada pela proximidade com o rio, o bairro da Cidade Velha reúne mais de quatro séculos de história e vivência cotidiana, preservando, entre memórias da fundação da capital paraense e relatos de moradores, um patrimônio cultural que resiste às transformações urbanas.

Fundado a partir da ocupação portuguesa, o território guarda marcas da formação urbana, dos conflitos e das influências culturais que moldaram a cidade. Hoje, o bairro preserva tradições e se afirma como um dos principais símbolos da identidade cultural de Belém.

A Cidade Velha é o berço de Belém. O primeiro e mais antigo bairro da capital paraense, criado junto à fundação da cidade, em janeiro de 1616, surgiu a partir da construção do Forte do Presépio, a mando de Francisco Caldeira Castelo Branco, formando o povoado inicial chamado de “Feliz Lusitânia”. Contudo, antes da chegada dos portugueses, o território já era ocupado pelos povos Tupinambás, organizados em aldeias onde hoje compreende o Largo do Carmo.

Conforme o professor e historiador Márcio Neco, no século XVI, os portugueses utilizaram o espaço para se estabelecerem nas novas terras da colônia.

Com o objetivo de iniciar o desenvolvimento da cidade de Santa Maria de Belém, eles construíram a Capela do Senhor Santo Cristo e adentraram a mata próxima ao Forte, erguendo a Igreja Matriz, uma pequena ermida feita de taipa de pilão, madeira e palha, conhecida como a Igreja de Nossa Senhora da Graça, a atual Catedral da Metropolitana de Belém.

Foi nesta época que os portugueses também abriram a primeira rua da cidade a partir do curso do rio, a Rua do Norte, atual Siqueira Mendes, que ia do Forte do Presépio à Igreja do Carmo, margeando a Baía do Guajará. Inicialmente, a via serviu de abrigo para os soldados de Castelo Branco.

A Capela de São João Batista, conhecida como “São Joãozinho”, também marcou a ocupação da Belém colonial.

Construída dentro da mata a mando do Capitão-mor Bento Maciel Parente, em 1622, com estrutura de taipa e cobertura de palha, a igreja atendia aos pedidos dos colonos portugueses saudosos da pátria e dos festejos de São João, conforme diz o livro “História de uma Igreja e cercanias” (1969), de Américo Leal.

A construção motivou a abertura da quarta rua da cidade, a Rua São João Batista, atual Tomázia Perdigão, posteriormente as ruas do Espírito Santo (atual Dr. Assis) e dos Cavaleiros (atual Dr. Malcher).

“Ali vai haver um pequeno povoado onde vai começar toda uma dinâmica social e comercial da cidade, a maioria formada por militares e os primeiros conflitos que temos, como a revolta dos Tupinambás, que atacaram o Forte.

A Cidade Velha vai ser palco de inúmeros acontecimentos e muito da fundação de Belém está hoje materializado naquele espaço, seja a Catedral, seja o Forte do Presépio, seja a própria Casa das Onze Janelas, sejam os casarões coloniais. Podemos perceber pela espacialidade do bairro, pelas ruas estreitas que ainda guardam muito dessa Belém colonial”, disse o historiador.

A ideia de urbanização belenense foi importada dos portugueses que, para concretizar o planejamento urbano, usaram mão de obra escrava para edificar casarões, igrejas e a pavimentação das ruas estreitas, uma parte comumente esquecida da história.

“Muito do que nós temos ali foi utilizada a mão de obra escravizada dos africanos. Os tupinambás, portugueses e negros escravizados eram os grupos sociais que tiveram um papel e uma importância na formação urbana e cultural do bairro”, afirma Márcio Neco.

EXPANSÃO

Naquela época, segundo o historiador, o pequeno povoado concentrava os poderes civis, militares e religiosos. Ainda em meados do século dezessete (XVII), Belém passa pela primeira expansão urbana, através da ocupação para além do Alagado do Piri, um igarapé que “cortava” a frente da vila desde a atual avenida Almirante Tamandaré até a pedra do peixe do Ver-O-Peso, dividindo-a nas freguesias da Cidade e da Campina.

Enquanto na Cidade se estabeleceu a Ordem dos Carmelitas Calçados, em terreno doado por Bento Maciel Parente, em 1627, que abrigou o convento e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo ao fim da Rua do Norte, para os lados da freguesia da Campina foi erigido o convento dos frades da Ordem de Santo Antônio, seguido pelos frades da Ordem da Redenção dos Cativos, posteriormente conhecidos como Mercedários, que edificaram capela e convento.

Foi a partir do século dezoito (XVIII) que o vilarejo passou por mais uma expansão do núcleo urbano, sobretudo, impulsionado pelo aterramento do Lago do Piri, o que propiciou o surgimento de outr. Atualmente, ….as localidades. Assim, a cidade cresceu “de costas” para o litoral, com o prolongamento de novas ruas para o seu interior.

A obra “Roteiros do Patrimônio: Largos, Coretos e Praças de Belém”, de Elizabeth Soares em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), revela que o crescimento das demandas de habitação propiciou a criação de novos pátios e largos por meio do estabelecimento de igrejas, campos ou terreiros.

Sendo assim, pela área da Cidade, os frades antoninos da Conceição da Beira e Minho foram responsáveis pela ultrapassagem da fronteira do Largo do Carmo, com a construção do Convento de São Boaventura.

Na frente deste convento, um descampado era adicionado à paisagem urbana: o Largo do Bagé, em seguida chamado de Praça do Arsenal e hoje conhecida como Praça 11 de Junho. Já os franciscanos da Província da Piedade adentraram a mata e margearam o Alagado do Piri, abrindo uma clareira bem afastada do centro do núcleo urbano, onde instalaram o Convento de São José.

Para acessá-lo houve a necessidade de abrir um caminho longo, fazendo a ligação com a freguesia, o Largo de São José, que abrigava o Largo de São José, hoje Praça Amazonas.

Na Campina também foram abertas novas ruas devido a sua rápida expansão, com o estabelecimento de um cemitério para os desfavorecidos e escravos, em uma clareira ao final da antiga Travessa dos Mirandas, atual avenida Presidente Vargas, conhecido, naquela época, como Largo da Campina.

Com a abertura do descampado, o governo colonial construiu um depósito de pólvora e armamentos, mudando o seu nome para Largo da Pólvora, depois Praça Dom Pedro II e hoje Praça da República.

A importância do bairro, de acordo com Márcio Neco, é ser guardião da história de Belém, narrando o seu início, dificuldades e resistências, auxiliando na formação da identidade do povo paraense.

“Outro papel que a Cidade Velha tem é uma vocação muito grande, pouco explorada ainda, para o turismo. Talvez se pensar aqueles órgãos públicos, que são inúmeros, criar uma cidade administrativa em outro local, desafogar os estacionamentos, a movimentação e investir em turismo, a ficar própria mesmo para a visitação e para a cultura”, disse.

“A Cidade Velha tem papel fundamental não só como guardiã da nossa história, mas como um espaço, um bairro, que se projeta para o futuro do turismo, da cultura, da visitação, da valorização da arquitetura, da religiosidade, da história do nosso estado. O bairro tem papel fundamental, histórico e um potencial econômico ainda pouco explorado”, complementa o professor.

Moradores convivem com comércio intenso no bairro

Há quarenta anos, o comerciante João Nunes, 54 anos, reside nas proximidades da Praça do Carmo. Ele chegou à Cidade Velha trazido pelos tios, comerciantes do município de Bragança que buscavam novas oportunidades na capital. Logo estabeleceram uma loja de materiais náuticos, em uma das transversais do Largo do Carmo, em meados de 1980, onde atendiam aos viajantes de embarcações vindas dos interiores do estado do Pará.

“Meus tios, que são meus pais de criação, vieram de Bragança para serem comerciantes. Nessa época, aqui não tinha tantos acessos, principalmente para quem vinha do Marajó e do Baixo Amazonas, era tudo por barco mesmo. Naquela época as embarcações que vinham de Cametá, eram barcos de madeira, sempre dava problema e quando eles chegavam em Belém, eles corriam aqui para comprar peças, fazer conserto, essas coisas”, relembrou.

Ainda na juventude, João lembra que o bairro era marcado pela tranquilidade mesmo em horário comercial, característica que se mantém até os dias atuais. “Antigamente, a Praça do Carmo tinha coretos com aquele mesmo material do Mercado de Carne do Ver-O-Peso. Mais a frente tinha uma base da Polícia Militar, que era toda feita nessa mesma estrutura. A minha infância foi toda aqui, brincando nessa praça. Conheço toda a Cidade Velha, o Ver-O-Peso, toda essa região”, disse.

Para João, o bairro carrega um diferencial: a proximidade com o comércio e o centro da capital paraense. “O acesso a tudo é bem mais próximo e a tranquilidade também porque é um bairro bem calmo. Daqui eu consigo ir rápido ao Ver-O-Peso, ao comércio, nessa parte da cidade que tem tudo o que imaginar. Então, é um bairro muito bom de se morar”, afirmou.

Entre idas e vindas ao Pará, o fotógrafo e empresário Natan Garcia, 51 anos, escolheu a Cidade Velha como o seu lar em Belém. Natural do Ceará, ele esteve pela primeira vez na capital paraense em 2014, quando conheceu a história do bairro, e chegou a morar, anos depois, na Rua Cametá, anteriormente chamada de Rua da Alfama. “Em Belém é o melhor bairro que tem para morar por ser no centro da cidade, muito bem localizado e com características de bairro com casas, de conhecer e conversar com os vizinhos, aquela relação de pedir açúcar mesmo”, opina.

A predominância de residências unifamiliares e sobrados permite que Natan conheça o nome e a vida dos vizinhos que o circundam, principalmente os mais antigos. “Todo mundo meio que nasceu e cresceu aqui de certa forma, ou então mora há muito tempo”, diz.

Atualmente residindo em uma casa datada de 1898, na travessa Joaquim Távora, no entorno da Praça do Carmo, ele relata que é a característica histórica que mais o encanta no bairro. A paixão por esse aspecto da Cidade Velha, o fez investir no Espaço Cultural Candeeiro, um local de convivência com galeria de arte e café, conectando as culturas do Norte e Nordeste do Brasil em um porão de um típico casarão histórico de Belém.

“Eu acho que a Cidade Velha respira cultura. O comércio que existe aqui faz parte do contexto cultural do bairro, dessa relação com os ribeirinhos. A Cidade Velha, assim como a Campina e um pouco do Reduto, são bairros que pela característica, pela preservação, apesar de precária, mas que ainda existe comparada a outros centros urbanos e históricos no Brasil, tem essa característica de ser um atrativo cultural”, observa.

“Olinda, Centro Histórico de Recife, Salvador com o Pelourinho, João Pessoa, são cidades que, de certa forma, preservaram e mantiveram essa arquitetura colonial das casas e a Cidade Velha tem muito isso. Aqui tem muitos espaços culturais. Mudar para cá foi juntar as coisas: o gostar do bairro, a característica da casa e contar esse espaço”, revela.

Entre barracas e o fluxo constante de visitantes, trabalhadores informais também encontram no espaço uma oportunidade de renda e recomeço. Há apenas quatro meses no Complexo Feliz Lusitânia, Valdirene Viana, de 37 anos, conta que assumiu a venda de água natural e de coco após o falecimento da irmã e viu na atividade uma alternativa para manter o sustento, deixando de lado os serviços de beleza que fazia enquanto autônoma.

“Eu fazia sobrancelha, unha, não tinha um lugar fixo. Minha irmã faleceu recentemente e não tinha quem assumisse a barraca dela. Como eu estava sem trabalhar, vim para cá e acabei ficando”, relata.

Segundo Valdirene, o bairro oferece uma experiência distinta de outras áreas da cidade por estar no centro histórico, local que não tinha visitado anteriormente. Além disso, a Cidade Velha representa a realização de um desejo antigo: acompanhar de perto as manifestações religiosas e culturais tradicionais de Belém.

“Aqui é mais tranquilo, tem segurança, tem movimento. Já recebi gente de tudo quanto é lugar, de São Paulo, até da Europa. Eu até guardei um dólar que ganhei, não quis trocar. É uma lembrança. Eu sempre quis trabalhar por aqui, mas não conhecia esse bairro. Sempre quis ver a passagem de Nossa Senhora de Nazaré, e agora estou aqui. Nesse domingo mesmo vi a Procissão de Ramos da Igreja da Sé pela primeira vez. É como um sonho realizado”, concluiu a ambulante.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/cidade-velha-como-e-viver-no-bairro-mais-antigo-de-belem/