Santos populares de Belém e suas histórias nos cemitérios

Pedidos pela saúde de uma criança, pela solução de um problema financeiro ou por uma relação amorosa fazem parte da devoção aos santos populares de Belém. Nos cemitérios da Soledade e de Santa Izabel, a tradição reúne histórias de pessoas às quais os fiéis atribuem a concessão de graças.

Entre elas estão um médico, um advogado, mulheres escravizadas e crianças. Flores, velas, brinquedos e placas de agradecimento expressam essa relação de fé. O culto às almas tem nas segundas-feiras um dia tradicional de orações e visitas às sepulturas.

No Cemitério de Santa Izabel, a história de Severa Romana está entre as que mobilizaram a população para além da morte. Lavadeira, casada com Pedro Cavalcante de Oliveira, ela também servia as refeições aos moradores da casa onde vivia, na rua João Balbi. Naquele período, o Umarizal era considerado uma região quase isolada de Belém.

Por razões financeiras, o casal compartilhava a moradia com outras pessoas, uma prática comum à época. Entre os moradores estava o cabo Antônio Ferreira dos Santos, responsável pelo assassinato de Severa em 2 de julho de 1900.

Flores e velas expressam a devoção popular a Severa Romana, sepultada no Cemitério de Santa Izabel, em Belém. O túmulo traz a inscrição “assassinada em defesa de sua honra no dia 02 de julho de 1900”, que remete ao crime que marcou sua história. Foto: Cintia Magno

O processo judicial que registra o crime e a condenação do autor integra o acervo do Centro de Memória da Amazônia (CMA), ligado à Universidade Federal do Pará (UFPA). Conforme o documento, escrito à mão, Antônio almoçava na residência quando tentou abusar sexualmente de Severa, que estava no fim da gestação. Diante da resistência dela, o cabo a matou com golpes de navalha.

Jornais daquele período registraram a comoção provocada pelo crime e uma coleta de recursos para construir a sepultura da lavadeira. A mobilização deu lugar ao culto à sua alma, à qual devotos atribuem graças. Flores, água mineral, velas e pequenas placas de granito com agradecimentos estão entre as homenagens registradas no túmulo.

Camilo Salgado e os pedidos de cura

Também no Santa Izabel, próximo à entrada, o túmulo do médico Camilo Salgado tornou-se destino de pedidos pela saúde. A procura começou após sua morte, em 1938, e integra a tradição de devoção popular do cemitério.

Segundo relatos de familiares, Camilo era filho de um professor de francês. Ainda jovem, deixou Belém para estudar medicina na Bahia, pois a capital paraense não oferecia essa formação. Concluiu a graduação no Rio de Janeiro e, depois, aprimorou os conhecimentos na França, onde adquiriu experiência na área cirúrgica.

De volta a Belém, passou a operar em diferentes hospitais. Ficou conhecido por atender o maior número de pacientes que conseguia, inclusive aqueles que não tinham condições de pagar. Após anos de dedicação à medicina, morreu em casa, vítima de um infarto.

A relação com pessoas em busca de cura, porém, passou a se manifestar também na sepultura. Desde 1938, há registros de pedidos de devotos pela própria saúde ou pela de familiares.

As crianças veneradas no Soledade

No Parque Cemitério Soledade, no bairro de Batista Campos, o Menino Zezinho está entre os santos populares mais conhecidos. A lápide identifica uma criança chamada José e informa a data da morte: 13 de fevereiro de 1881. Os demais aspectos de sua história permanecem pouco conhecidos.

O túmulo do Menino Zezinho, no Cemitério da Soledade, em Belém, recebe brinquedos e até alimentos deixados por
devotos, que associam sua intercessão a pedidos ligados a crianças e jovens. Foto: Cintia Magno

A cartilha do Cemitério da Soledade, elaborada pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC) da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), registra sua associação aos erês das religiões de matriz africana. De acordo com o documento, os devotos dirigem a ele pedidos relacionados a crianças e jovens.

A devoção também se expressa nas homenagens deixadas na sepultura. Brinquedos, bombons, roupas e alimentos estão entre as oferendas registradas, assim como uma placa com a inscrição “agradeço graças alcançadas”.

Outra criança venerada no local é o Menino Cícero. Seu túmulo também reúne manifestações de fé, com registros de brinquedos, como caminhão de plástico e bolas de gude, além de terços e fitas.

Em estilo neoclássico e construído em cantaria de lioz, o túmulo do Menino Cícero é um dos espaços de devoção
popular no Cemitério da Soledade, em Belém. Foto: Cintia Magno

Mulheres, memória e graças atribuídas

No corredor central do Soledade, próximo à Capela de Nossa Senhora da Soledade, fica a sepultura de Preta Domingas. A mulher, que foi escravizada e morreu em 25 de março de 1871, recebeu sepultamento em uma área nobre do cemitério. Seu túmulo está entre os locais de devoção popular.

Mulher escravizada, Preta Domingas recebeu sepultamento em uma área nobre do Cemitério da Soledade. Seu túmulo neoclássico reúne símbolos como a ampulheta alada e a urna em chamas. Foto: Cintia Magno

Outra mulher escravizada cultuada no espaço é identificada como Escrava Anastácia ou Romana. No livro “Procissão dos Séculos: vultos e episódios da história do Pará”, de 1952, o historiador Ernesto Cruz informa que Romana foi a primeira pessoa sepultada no Soledade.

As atribuições de cada santo popular variam conforme as relações que os devotos estabelecem com sua trajetória e com as referências presentes nas lápides. É o caso de Marianna Izabel Leite da Silva, sepultada em 1880. A expressão “amor conjugal”, inscrita em seu túmulo, acompanha uma devoção ligada às questões amorosas.

A devoção a Marianna Izabel Leite da Silva está ligada principalmente às relações amorosas. Seu túmulo, no Cemitério da Soledade, foi construído em cantaria de lioz. Foto: Cintia Magno

Já o advogado Joaquim Almeida recebe agradecimentos associados a problemas jurídicos e financeiros. A memória popular o apresenta como um homem que teria ajudado os mais necessitados em vida. Placas de mármore deixadas em sua sepultura registram graças atribuídas a ele.

A placa diante do túmulo de Joaquim Inácio Almeida identifica a sepultura como espaço de devoção no Parque
Cemitério Soledade, em Belém. Foto: Cintia Magno

Uma tradição ligada à memória

Inaugurado em 1850, o Cemitério da Soledade encerrou os sepultamentos na década de 1880, após esgotar sua capacidade. Ernesto Cruz registra em “Procissão dos Séculos” que o espaço recebeu 31.872 sepultamentos durante seu período de funcionamento.

O fim dessa atividade não interrompeu as visitas. A tradição do culto às almas manteve a ligação entre o cemitério e os frequentadores que procuram as sepulturas para rezar, fazer pedidos e agradecer.

Fonte: https://diariodopara.com.br/cotidiano/conheca-os-santos-populares-que-recebem-pedidos-de-gracas-nos-cemiterios-de-belem/