Da madrugada ao meio-dia, feira da Bandeira Branca segue contando histórias

Localizada em uma das avenidas mais movimentadas de Belém, a Feira da Bandeira Branca é um espaço de comércio popular e abastecimento entre os bairros do Marco e Curió-Utinga, na capital paraense. Com funcionamento nas primeiras horas da manhã, o local reúne feirantes e consumidores em busca de produtos frescos, como hortifrúti, carnes, frango abatido e itens regionais a preços acessíveis. Apesar da vasta gama de produtos, os feirantes relatam dificuldades de venda e o sumiço dos fregueses nos últimos anos. 

Construída em meados de 1940, a mercearia da Bandeira Branca foi criada por Abílio Tavares da Silva, na intercessão entre as avenidas Doutor Freitas e Almirante Barroso, próximo ao primeiro Marco da Légua. Edificado no canteiro central da Almirante Barroso, em frente ao atual Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Universidade do Estado do Pará (UEPA), o monumento simples marcava a área territorial que compreendia uma légua de distância a partir do local de fundação de Belém. 

Até o fim do século dezenove, aquela região era considerada uma parte mais afastada da cidade. Foi nessa época que o engenheiro Manoel Odorico Nina Ribeiro elaborou um planejamento urbano para a área, que serviu de orientação para as obras de urbanização do intendente Antônio Lemos, em 1897. Assim, o novo bairro começou a ser lentamente povoado e, nesse cenário, a mercearia, posteriormente nomeada de Feira da Bandeira Branca, fez parte da história dos primeiros moradores. 

Feirantes mantêm tradição viva em um dos mercados mais antigos de Belém Foto celso Rodrigues/Diário do Pará.

Atualmente, a feira livre vende de tudo: frutas, legumes e verduras, temperos, pescado, marisco, carne vermelha, frango abatido, entre outros alimentos. Desde o início, o mercado é a principal fonte de renda de inúmeros feirantes do bairro do Marco, local de onde tiram o sustento diário da família e pagam as próprias despesas básicas. É o caso da feirante Cássia Lopes que há 15 anos trabalha no mercado. 

O box “Lu Plásticos e Descartáveis” foi herança do tio que, depois de adoecer, passou o ofício de feirante a sobrinha. “Antes, eu trabalhava de carteira assinada, mas fiquei desempregada. Fiquei um tempo sem emprego em casa e ele me ofereceu para vir trabalhar aqui porque ele estava com problemas de saúde. Ele foi me ensinando, eu me identifiquei, achei bacana e estou aqui todos esses anos”, contou a feirante, de 54 anos. 

Com baixo movimento, Cássia relata que a feira já teve seus dias de grande circulação de clientes Foto celso Rodrigues/Diário do Pará.

Com baixo movimento, Cássia relata que a feira já teve seus dias de grande circulação de clientes, o que diminuiu muito anos após a construção do elevado Carlo Marighella, localizado no cruzamento da avenida Almirante Barroso com Doutor Freitas, inaugurado em 2001. “As vendas caíram muito nos últimos anos. Antigamente a Doutor Freita era ida e vinda, então o movimento era muito melhor todos os dias e no final de semana melhor ainda, a feira era muito movimentada. No sábado continua sendo melhor do que durante a semana. Tanto é que durante a semana eu não chego cedo para abrir aqui”, disse. 

Em contrapartida, a feira tem claros diferenciais, sendo a organização e limpeza os principais deles. “A nossa feira é muito organizada. A gente mesmo que zela por ela, cada um zela, a gente não deixa lixo acumulado, a não ser no sábado que vem esse pessoal do interior, que a feira já fica um pouco bagunçada, mas logo é limpa. Mas nós que trabalhamos aqui direto, de segunda a segunda, a gente deixa todo o tempo limpa, cada um zela pelo seu espaço. Esse é o principal diferencial aqui da Bandeira Branca em relação a outras feira”, apontou Cássia.  

Memória viva da Bandeira Branca

O ofício como feirante acompanha Francisco Pereira por 49 anos. Foi em 21 de abril de 1977 que ele começou a vender frutas na antiga feira, que funcionava na atual área de venda de caranguejos. Depois, o mercado passou para a avenida Doutor Freitas, onde era organizado em tabuleiros pelos próprios feirantes. Anos mais tarde, na gestão municipal de Duciomar, os trabalhadores passaram para o mercado coberto e dividido entre setores. 

O ofício como feirante acompanha Francisco Pereira por 49 anos. Foto celso Rodrigues/Diário do Pará.

Desde o início, Francisco exercia o trabalho de fruteiro na Frutaria do Pereira. Com grande freguesia, naquela época ele trabalhava ao lado de mais quatro homens para dar conta da alta demanda. “Eu tinha uma freguesia aqui, não tinha tempo de tomar café. Às vezes eu ia no banheiro, quando eu voltava de lá tinha dois ou três clientes pegando mercadoria. Era eu e mais quatro rapazes e a gente não dava conta. Dia de final de semana, eu vendia três mil, quatro mil reais, era muito movimentado”, relembrou. 

Há cerca de seis anos, o feirante viu o mercado esvaziar. Agora, quase sem movimento, principalmente nos dias de semana, trabalha somente ele e a esposa para evitar despesas. Mesmo chegando entre duas e quatro horas da manhã, o rendimento nunca mais foi o mesmo e ele sente saudade do tempo em que a feira atendia aos milhares de clientes do bairro do Marco. 

“Era bom e hoje em dia eu tenho dificuldade para vender duzentos, trezentos reais, é uma luta. Eu chego no mesmo horário, o meu sistema continua o mesmo, só que agora eu tenho que esperar os clientes chegarem. Dia de semana eu fico olhando o meu vizinho vender, que não passa ninguém. Fico sentado aqui horas e horas. Eu sinto falta desse tempo, isso porque eu ainda tenho o freguês de entrega também, isso aí ajuda um bocado. São tudo aqui do bairro e da antiga também a maior parte”, revelou o feirante de 76 anos. 

Após perda familiar, Erika transforma legado em sustento na feira

A feira passou a ser o local de trabalho de Erika Aguiar, que há dez anos comanda o box “Point da Farinha”. O espaço foi herdado do tio que trabalhou durante 22 anos na Bandeira Branca e morreu após um assalto de madrugada a caminho da feira. Com experiência em empregos de carteira assinada, no início ela não tinha noção de atendimento e até mesmo como escolher uma boa mercadoria. 

Legado que continua: Erika mantém viva história do tio na Bandeira Branca Foto celso Rodrigues/Diário do Pará.

“Eu não tinha nada de experiência, não tinha a mínima ideia nem de farinha.  Os clientes que foram me ensinando, explicando qual era o tipo de farinha, foi difícil até para comprar. Cada um dava uma informação errada do dia que o caminhão vinha com mercadoria, eu não sabia o dia e o horário, tinha que comprar fora e trazer uma farinha de péssima qualidade, porque eu não sabia escolher. Eu tive que ir em outra feira perguntar o número do telefone do rapaz que entregava aqui para descobrir como era, aí foi melhorando”, relatou. 

Bem torrada e com sabor mais suave são os critérios que diferenciam uma farinha boa da ruim, aprendeu Erika. “Agora só em olhar, eu já sei. Quando eu provo, eu tenho certeza”, disse. De segunda a segunda, de 5h30 às 12h, ela recebe os clientes na primeira barraca do setor. “Eu gosto de trabalhar aqui porque eu gosto de atender o público, é uma coisa que me distrai, eu converso, e acabo ficando amiga dos clientes, aí tu acaba que tu já acha que são todos teus parentes, teus amigos”, afirmou a feirante de 42 anos. 

Entre as opções de farinha d’água, seca, lavada, ela contou que é o produto de Mãe do Rio que mais faz sucesso entre os clientes. “Sai muito porque é uma farinha no estilo de antigamente, aquela que fica de molho, é prensada, é assada no tacho, fica diferente e gostosa, o pessoal gosta muito. Os antigos, que conhecem farinha, não se empolgam com essas farinhas que são feitas no forno, eles preferem essa”, finalizou Erika. 

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/da-madrugada-ao-meio-dia-feira-da-bandeira-branca-segue-contando-historias/