Que foto inspirou o rosto da Imagem de N. S. de Nazaré?

Durante décadas, Mízar Bonna preservou uma informação pouco conhecida sobre a criação do rosto da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Pouco antes de falecer, a escritora e pesquisadora decidiu contar ao projeto Mãos de Outubro qual fotografia integrou o conjunto de referências encaminhado ao escultor responsável pela peça.

Tratava-se de uma foto 3×4 da própria Mízar ainda jovem. Segundo ela, porém, o retrato não deveria ser e não foi reproduzido fielmente. A intenção era oferecer ao artista uma inspiração para o tipo de mulher que apareceria na imagem, com feições jovens, olhos castanhos e cabelos castanhos.

Mízar faleceu em 29 de abril de 2026, aos 89 anos, em Belém. Autora de diversos livros sobre o Círio de Nazaré, ela afirmou durante a entrevista que havia mantido a história em silêncio por muitos anos.

“Agora eu estou te passando essa notícia, que olha lá, guardada há quantos anos? Eu estou com 89 anos, fui me segurando, me segurando”, declarou na gravação.

O segredo por trás do rosto

De acordo com Mízar Bonna, a história começou quando o então pároco de Nazaré, padre Miguel Giambelli, decidiu encomendar uma nova escultura para as procissões e demais compromissos religiosos. A Basílica precisava recorrer a uma imagem emprestada quando recebia pedidos para visitas, bênçãos e cerimônias realizadas fora do templo.

A representação usada nas procissões também apresentava diferenças em relação à Imagem Original de Nossa Senhora de Nazaré, a que foi encontrada por Plácido, venerada na Basílica. Conforme Mízar, na imagem emprestada para as procissões o Menino Jesus aparecia deitado no colo e tinha os cabelos cobertos por uma touca, traços que remetiam a outra invocação mariana.

Diante disso, o padre decidiu encomendar uma nova peça a um escultor na Itália. Antes que o trabalho começasse, porém, seria necessário documentar as dimensões e as características da imagem original para enviar ao artista.

O escultor italiano Giacomo Mussner foi o responsável por criar a criar a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, utilizando as fotografias enviadas como referência e modificando algumas feições. Foto: Reprodução

Fotografias orientaram o escultor

Mízar conta que chamou o fotógrafo Pedro Pinto para realizar os registros. Ela, o sacerdote e o profissional se encontraram às 11h na Basílica Santuário de Nazaré.

A imagem foi fotografada sem o manto e de vários ângulos. Mízar segurava uma régua e girava cuidadosamente a escultura, enquanto Pedro Pinto mantinha a câmera na mesma posição. Dessa forma, o fotógrafo registrava as proporções, as mãos, a altura e outros detalhes que ajudariam a orientar o escultor.

Além desses registros, padre Miguel buscava uma referência para as feições de Nossa Senhora.

“Ele incluiu nas fotos que o Pedro levou direto para ele, a foto de uma moça com o mesmo tipo das mulheres da cidade de Nazaré da Galileia: moças brancas, com olhos e cabelos castanhos”, disse referindo-se à sua própria foto.

A pesquisadora contou que chegou a mencionar fotografias de suas irmãs louras, mas o padre considerou que aquele perfil não correspondia à representação pretendida.

“Eu ainda perguntei para ele: ‘Mas eu tenho fotos das minhas irmãs louras, bonitas…’, mas ele disse “Nossa Senhora nunca foi loura, nem de olhos claros. Os olhos de Maria são castanhos’”, explicou Mízar.

Ela contou que também havia o desejo de mostrar Nossa Senhora mais jovem, pois a imagem original que fica no Glória, na Basílica, aparentava retratar uma mulher de aproximadamente 30 anos. E o padre desejava uma imagem que retratasse a Virgem de Nazaré na idade em que ela deu a luz a Jesus.

Retrato não deveria ser copiado

Foi durante essa discussão que Mízar acabou apresentando uma foto 3×4 dela própria. A pesquisadora ressaltou que ofereceu o retrato apenas como inspiração para o tipo de mulher que o escultor deveria representar. Ela não pretendia ter suas feições reproduzidas integralmente na escultura.

“Eu levei minha foto, eu levei uma foto 3×4 e pedi para ele: ‘Não copie o meu retrato, que vai me causar problema’”, recordou.

Apesar da preocupação manifestada por Mízar, padre Miguel escolheu encaminhar a fotografia ao escultor. “É essa que vai”, teria afirmado o sacerdote.

Ao relembrar o episódio, a escritora reforçou que o artista recebeu autorização para alterar as características do retrato, já que a fotografia serviria apenas como referência para o perfil desejado. “Era só o tipo”, explicou.

Segundo Mízar Bonna, o escultor modificou os olhos e acentuou o contorno superior dos lábios, confirmando que a foto 3×4 serviu apenas de inspiração para as feições da Imagem Peregrina. Foto: Frame/Vídeo “Como nasceu a Senhora da Berlinda?”/Mãos de Outubro.

Escultor alterou traços da fotografia usada como referência

O resultado, segundo Mízar, não foi uma cópia de seu rosto. O escultor modificou determinadas feições, como os olhos, e acentuou o contorno da parte superior dos lábios. Também realizou mudanças no cabelo do Menino Jesus.

“Tá aqui a foto que foi e a imagem que é”, disse a pesquisadora ao comparar os dois registros durante o depoimento.

Mízar Bonna guardou por décadas o segredo sobre a foto 3×4 e decidiu revelar a história aos 89 anos. Foto: Frame/Vídeo “Como nasceu a Senhora da Berlinda?”/Mãos de Outubro

A explicação de Mízar estabelece uma distinção importante. O escultor usou a fotografia dela como referência, mas não reproduziu integralmente as feições de Mízar na imagem. O retrato ajudou a indicar o tipo de mulher jovem que deveria orientar a criação do rosto da Imagem Peregrina.

Primeira versão foi rejeitada

A escultura conhecida atualmente não foi a primeira versão enviada, conforme contou Mízar. A peça inicial produzida pelo artista apresentou características diferentes das solicitadas pelo padre Miguel Giambelli e acabou rejeitada.

Segundo a pesquisadora, essa primeira imagem foi levada para Bragança, no nordeste paraense, onde passou a participar do Círio realizado no município. Após receber a peça, o sacerdote teria reforçado ao escultor: “Eu quero aquilo que eu encomendei”.

O artista produziu uma segunda escultura com modificações. Essa versão tornou-se a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré usada nas procissões oficiais do Círio de Nazaré, em Belém.

VÍDEO: Confira a entrevista na íntegra

Revelação guardada por décadas

Mízar participou do registro das medidas, acompanhou a produção das fotografias e ofereceu o retrato que serviria de referência para as feições femininas. Mesmo assim, afirmou que evitou revelar seu envolvimento durante décadas.

A decisão de falar sobre o assunto ocorreu depois que diferentes versões a respeito da origem do rosto começaram a circular. Na entrevista concedida antes de partir, a escritora recuperou as lembranças da reunião na Basílica e da preparação do material enviado ao escultor.

A revelação acrescentou uma memória pessoal ao legado da pesquisadora e aos bastidores da criação da imagem que acompanha os fiéis nas procissões oficiais do Círio de Nazaré.

Fonte: https://diariodopara.com.br/cirio-de-nazare/ela-guardou-por-decadas-mizar-bonna-revela-foto-ligada-ao-rosto-da-imagem-peregrina/