Entre barracas no Ver-o-Peso, boieiras e erveiras mantêm tradições que sustentam famílias e preservam saberes que atravessam gerações. São mulheres que transformam a força do trabalho diário e fazem do Ver-o-Peso não apenas um dos maiores cartões-postais da cidade, mas também um território de protagonismo feminino.
O ramo da alimentação no Ver-o-Peso é bastante procurado, principalmente no horário do almoço, quando trabalhadores, comerciantes e turistas se concentram nas barracas em busca de refeições. A movimentação intensa transforma o espaço em um dos pontos mais disputados do complexo, conhecido pela tradição culinária regional e pela oferta de pratos típicos.
Com uma rotina intensa de trabalho, a boieira Rosa Figueiredo, 36, consegue pagar as contas e demais despesas de casa com a venda de refeições. A rotina inicia às 9h e só termina depois das 15h, período em que se divide entre o preparo dos alimentos, a organização da barraca e o atendimento direto aos clientes, muitas vezes em sequência.

Há uma década trabalhando com a venda de alimentos no Ver-o-Peso, Figueiredo afirma que a rotina exige dedicação constante, principalmente no preparo dos alimentos e na agilidade para servir as refeições, em especial quando há muitos clientes realizando pedidos ao mesmo tempo. Segundo ela, o movimento se intensifica aos fins de semana, exigindo planejamento prévio para não faltar ingredientes. “Temos que ter jogo de cintura, mas organizando tudo dá certo”, pontua. “A opção preferida é o peixe frito com açaí. É o que tem mais saída”, destaca, ao mencionar o prato mais procurado pelos clientes.
Ela revela ainda que alimenta um sonho pessoal que pretende realizar em breve. “Tenho vontade de estudar medicina veterinária. Gosto demais dessa profissão e acho muito bonita”, ressalta. Sendo mulher, afirma que ainda percebe desvantagens em determinados contextos sociais e profissionais. “Eu acredito que nós mulheres merecemos mais respeito, mais oportunidades e mais igualdade. Infelizmente, ainda percebo que homens ainda têm mais vantagens na sociedade”, observa.
Com rotina semelhante, a boieira Alda Cardoso, 47, mantém um ritmo diário rigoroso. Ela dorme antes das 22h para acordar ainda na madrugada e estar às 3h30 da manhã no Ver-o-Peso, onde realiza a compra de peixes, carnes, temperos e demais itens necessários para o preparo das refeições do dia. Após as compras, inicia o preparo dos pratos e permanece no local até o fim da tarde, atendendo clientes de forma contínua. “Chego de madrugada para que tudo esteja dentro do planejado para os clientes”, pontua ela, que atua no ramo da alimentação no Ver-o-Peso há 15 anos.


Antes de conquistar o próprio ponto, Cardoso trabalhou como auxiliar de restaurante, experiência que, segundo ela, foi fundamental para aprender técnicas de cozinha e aprimorar o preparo dos alimentos. O conhecimento adquirido permitiu que ela estruturasse o próprio negócio e fidelizasse a clientela. “Cozinhar para mim é uma paixão. Gosto bastante de preparar as refeições porque é com elas que ganho meu dinheiro para pagar minhas contas e outras despesas de casa”, afirma. Assim como outras boieiras, ela destaca que o peixe frito com açaí é o prato mais solicitado pelos clientes.
Cardoso ressalta que sempre buscou independência financeira e que começou a trabalhar ainda jovem, contribuindo para a renda familiar. Para ela, o trabalho representa dignidade e autonomia para as mulheres. “Que todas as mulheres sejam independentes. É muito prazeroso conquistar as coisas com o próprio trabalho e esforço. As mulheres merecem ser reconhecidas sempre como referência”, declara.
Na parte dos produtos naturais, a erveira Áurea Cheirosinha, 60, é uma das veteranas no ramo, com três décadas de atuação no Ver-o-Peso, dedicadas à comercialização de essências, ervas e preparados tradicionais. Ela informa que as essências coloridas vendidas em pequenos frascos, com nomes curiosos como “Chama Gringo” e “Afasta Homem Liso”, lideram a preferência dos clientes, tanto moradores quanto turistas. A produção, segundo ela, é artesanal e envolve a participação da família em todas as etapas, desde a preparação até a organização para a venda. “Muita gente compra para dar como lembrança ou como presente para si mesmo”, afirma.


Além das essências, Cheirosinha trabalha com ervas e cascas utilizadas para diferentes finalidades, como banhos de cheiro e preparos medicinais populares. Ela destaca que o conhecimento sobre as propriedades das plantas é resultado de uma tradição familiar transmitida entre gerações. “É um saber tradicional que começou com a minha bisavó, passou pela minha avó, e aprendi com a minha mãe”, explica. Com uma rotina que inicia por volta das 8h e só encerra no final da tarde, a erveira mantém a tradição familiar enquanto garante o sustento e investe nos próprios projetos de vida.
Ao falar sobre a condição feminina na sociedade, Cheirosinha afirma que muitas mulheres ainda se tornam vulneráveis diante de comportamentos abusivos. “As mulheres sofrem assédio e outros tipos de violência no dia a dia que precisam acabar. Tem muito desrespeito e ameaça. Tem homem que acha que pode ser autoritário com a gente. Isso não pode ser mais aceitável”, reflete, ao defender mais igualdade e proteção.
“É tradição e conhecimento repassados por gerações até chegar aos dias de hoje. Aqui é a minha segunda casa”, afirma a erveira Joseane Santos, 45, que atua no setor há pelo menos três décadas no Ver-o-Peso. Ela destaca que as garrafadas estão entre os produtos mais procurados na barraca onde trabalha, com indicações variadas de compostos naturais voltados a cuidados com a saúde e bem-estar, conforme a demanda dos clientes.
A depender do dia, a rotina de trabalho de Joseane pode ultrapassar 12 horas, das 6h30 às 19h, período em que permanece à disposição do público, organizando os produtos e prestando orientações sobre o uso das ervas. “Foi com este trabalho que consegui criar meus três filhos”, afirma, acrescentando que dedicou a vida inteira à atividade aprendida com a mãe.
“Minha mãe, grávida de mim, vinha para cá trabalhar com a venda das ervas. Desde criança ela me trazia. Aos poucos fui aprendendo sobre as ervas e hoje eu estou aqui”, relata. Para a erveira, apesar dos avanços, ainda há desafios a serem superados para que haja igualdade plena entre homens e mulheres. “Eu acredito que nós mulheres precisamos ser mais respeitadas porque ainda vivemos em uma sociedade que tenta nos diminuir”, conclui.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/entre-cheiros-e-sabores-mulheres-mantem-viva-a-alma-do-ver-o-peso/

