A abertura do Festival Chocolat Amazônia + Flor Pará, ontem, 23, no Hangar Centro de Convenções, em Belém, marcou a celebração dos 10 anos do evento. A feira segue até domingo, 26, com uma expectativa de público de 100 mil visitantes e R$ 15 milhões de reais em negócios fechados.
Belém e Pará – Titular da Sedap, Giovanni Queiroz destacou que o festival simboliza um novo momento para o setor, com foco na valorização do produto local e na autonomia dos produtores. “A gente já conquistou reconhecimento mundial. O Pará tem hoje um dos melhores cacaus do mundo e também uma das maiores produtividades por hectare”, afirma. Segundo ele, o avanço agora passa por um processo estratégico, a verticalização da produção. “Nós precisamos deixar de vender apenas a amêndoa e passar a transformar esse cacau aqui dentro. Quando a gente produz chocolate, manteiga e outros derivados, a gente agrega valor e deixa de depender de poucas multinacionais que controlam o mercado”, explica.
Queiroz chama atenção para a concentração global do setor, que impacta diretamente o produtor local. “Hoje, quatro grandes empresas processam mais de 90% do cacau do mundo. São elas que acabam determinando os preços, muitas vezes com base em movimentos de mercado que não refletem a realidade do produtor”, pontua. Essa dependência, segundo ele, reforça a importância de políticas públicas voltadas ao cooperativismo e à industrialização local. “O caminho é fortalecer o produtor para que ele participe de toda a cadeia, não apenas da produção da matéria-prima”, completa.
Se por um lado o estado avança no reconhecimento internacional da qualidade da amêndoa, por outro enfrenta um cenário econômico desafiador, marcado pela queda brusca nos preços do cacau como commodity e pela necessidade urgente de transformação no modelo de produção. A análise é compartilhada pela presidente da Câmara do Cacau da Faepa, Maria Goretti Gomes, que traça um cenário ainda mais direto sobre a crise enfrentada pelos produtores. “No ano passado, a gente vivia uma euforia. Hoje, a realidade é completamente diferente. O preço do quilo da amêndoa caiu de cerca de 54 reais para algo entre 8 e 10 reais”, afirma.
Segundo Goretti, a queda está ligada a fatores do mercado internacional, como excesso de oferta e retração da demanda. “As grandes indústrias se abasteceram antes e agora compram menos. E quando compram, pagam menos ainda, com base em mecanismos da bolsa internacional que penalizam o produtor”, explica. O impacto é tão significativo que, em alguns casos, a colheita deixa de ser viável. “Tem produtor que prefere deixar o cacau no pé, porque o custo de colher é maior do que o valor que ele vai receber. Para empatar, a gente precisaria vender a pelo menos 23 reais o quilo”, revela. Diante desse cenário, a saída apontada também passa pela diversificação da produção. “A gente precisa ensinar o produtor que ele pode fazer outros produtos: nibs, licor, mel de cacau, chocolate. É isso que vai garantir renda e é essa conscientização que buscamos com a feira”, destaca.
Para quem está na ponta da produção, o festival representa oportunidade de visibilidade. A produtora Cleide Suk, de Brasil Novo, aposta no diferencial do chocolate amazônico, feito com ingredientes naturais e sem aditivos industriais. “O nosso chocolate não tem gordura hidrogenada nem conservantes. Ele valoriza o sabor real do cacau e ainda incorpora ingredientes da Amazônia, como o camu-camu, cumaru, jambu e castanha, por exemplo”, explica. Para ela, o contato direto com o público é essencial. “A feira permite que as pessoas experimentem e conheçam o produto. Isso faz toda a diferença”.
Do outro lado, o público também reconhece a importância do evento. A visitante Carmen Tavares, 73, vê na iniciativa uma forma de aproximar os consumidores da produção local. “É uma oportunidade de conhecer o que os municípios produzem. A gente vê o trabalho de quem está lá na ponta, produzindo”, comenta.
Além do cacau, também ocorre de maneira simultânea a feira Flor Pará, que abre espaço para o empreendedorismo em bioeconomia com a produção de flores e plantas. A expositora Keila Gomes, 40, conta que migrou do setor de transporte para a produção de plantas ornamentais e vasos de cerâmicas em Marituba e participou pela primeira vez do FlorPará. “Comecei produzindo em casa, por gosto, e hoje tenho meu negócio. A minha mãe sempre gostou de plantas então aprendi bastante com ela a plantar e cuidar. Como nunca gostei dos vasos de plástico, passei a fazê-los de cerâmica e meus amigos, pela beleza das peças, aconselharam-me a criar uma loja. Há um ano e meio trabalho com isso e estar aqui é uma oportunidade de crescer e mostrar o trabalho para mais gente”, afirma. O Festival Chocolat Amazônia + Flor Pará segue até domingo, 26, com entrada franca e horário de funcionamento das 14h às 22h.
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Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/festival-chocolat-amazonia-deve-receber-100-mil-pessoas-e-movimentar-r-15-mi/

