Belém e Pará – “Lugar de mulher é onde ela quiser”, é um lema de empoderamento que afirma o direito à autonomia, liberdade de escolha e igualdade das mulheres em todas as esferas. E a percussionista paraense Brena Corrêa vai fortalecer isso com o projeto “Nzinga – mulheres tocadoras de axé”, que oferece oficinas gratuitas de iniciação em tambores afro-brasileiros, exclusivas para mulheres. As atividades começaram no último sábado, 07, na Casa Templo Babá Abuke, com o objetivo de apresentar instrumentos, histórias e fundamentos do toque sagrado, respeitando os limites e segredos das liturgias religiosas.

“Se a mãe de santo, a Ialorixá pode tudo, as mulheres também podem tocar os nossos tambores sagrados, os atabaques são orixás também, eles trazem a divindade, chamam os orixás em terra e a iniciativa é que as mulheres sintam, ainda mais as de terreiro, como é o prazer de chamar o orixá, porque sentimos como é prazeroso de ver o orixá dançando, você tocando para orixá. A nossa iniciativa é para as mulheres, para quebrar essa hegemonia masculina”, falou Brena Corrêa, explicando em seguida que não se trata de disputa de espaço.
“Não é uma disputa de cargo, nem de espaço, é só para quebrar a hegemonia, para que sejamos todas iguais, uma inclusão, e todas as mulheres sentem essa falta de inclusão, da equidade, sobretudo das mulheres negras, nós mulheres negras somos mais violentadas, e a questão da percussão é mais dito como um espaço masculino. Por conta de ser um tambor, por conta de bater forte, talvez seja isso que as pessoas achem”, explicou ela.
Além das oficinas, o projeto prevê rodas de conversa e uma pesquisa cartográfica sobre a presença feminina nos tambores de religiões afro-brasileiras no Pará.
Para a publicitária Daniele Tupinambá, frequentadora de terreiro, a opção em participar das aulas vem da necessidade das mulheres também ocuparem esse espaço.
“Já frequento terreiro há um tempo, mas para além disso, sou cantora, então sempre tive contato com a música, já toquei bateria em igreja, mas conforme fui crescendo encontrei o meu caminho e o meu objetivo de estar aqui hoje é realmente fortalecer a ideia do projeto, que é ter mais mulheres dentro do atabaque, dentro da percussão nos terreiros, que é um lugar que ainda precisamos reivindicar atualmente, acho que é o começo de algo muito importante”, disse a publicitária.
“Infelizmente ainda temos muita resistência de homens dentro dos terreiros tradicionais e estamos nesse papel de começar a questionar algumas estruturas mesmo dentro das religiões afroindidgenas”, acrescentou ela.
Para a Matilde Lisar, 91 anos, titular do Terreiro, lá as mulheres têm espaço para assumir o tambor. “Teve um encontro da nossa religião na Universidade em 2022, onde falaram sobre a mulher bater atabaque, e disse que na minha casa podia bater, porque quando não tem gente, não tem homem para bater, então a mulher pode bater o atabaque, aí o pessoal aplaudiu. Quem foi que botou o povo, não foi a mulher? Tem muita gente que faz discriminação com a mulher, mas na minha casa ela pode fazer tudo. Só tome um banho de folha para limpar e vá para onde você quiser”, disse Marilde.
O primeiro ciclo de formação será apresentado no dia 11 de fevereiro, em um encontro coletivo que reúne as participantes das duas turmas. Em março, o projeto continua com uma nova etapa formativa e um intercâmbio com o bloco paulistano Afro Ilu Obá de Min, formado exclusivamente por mulheres. O projeto tem incentivo da Política Nacional Aldir Blanc, com apoio da Secult-PA e do Ministério da Cultura.
CONFIRA!
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/mulheres-ao-tambor-projeto-nzinga-quebra-hegemonia-masculina-nos-terreiros/

