O amor materno que atravessa gerações no Ver-o-Peso

A chegada de um filho é capaz de transformar prioridades e ressignificar até as percepções mais simples do cotidiano. Para muitas mulheres, tornar-se mãe significa experimentar um amor que dá força para atravessar desafios nunca imaginados. Um sentimento que se faz presente em todos os dias do ano, mas que ganha ainda mais destaque em datas como o Dia das Mães.

Mãe de seis filhos, avó de oito netos e bisavó, a autônoma Paula dos Santos, 50 anos, conhece bem o sentido da maternidade. Desde o momento em que ela se viu mãe pela primeira vez, algo mudou dentro dela.

“Pra mim, a maternidade significa tudo porque eu sou mãe e pai dos meus filhos. É um amor que é diferente de qualquer outro. A palavra do Senhor diz que o único amor que é quase comparável com o amor do Senhor Jesus é o amor de uma mãe por um filho, e eu concordo”.

É o amor pelos filhos que dá força para Paula sair de casa, mesmo nos dias mais difíceis, e se dirigir até o maior cartão postal de Belém, o Complexo do Ver-o-Peso. Há 16 anos, a autônoma trabalha com a venda de lanches no local e, em alguns momentos do dia, pode contar com a companhia do filho João Pedro, de sete anos, o único que ainda mora com ela. “A gente é capaz de fazer tudo pelos nossos filhos. É uma coisa que ninguém explica”.

Ter a companhia dos filhos durante a rotina de trabalho não é raro quando se percorre as bancas do Ver-o-Peso. Muitos dos trabalhadores de hoje foram as crianças que acompanhavam as mães na feira no passado. A autônoma Maria Emi, de 57 anos, foi uma dessas crianças. Ela lembra que quando a mãe Maria Gomes, hoje com 83 anos, precisou começar a trabalhar no Ver-o-Peso, ela e as irmãs costumavam acompanhá-la no trabalho. E, hoje, elas trabalham ao lado da mãe.

“A gente ia para a escola e depois a gente vinha pra cá com ela pra gente não ficar à toa, né? Quando a minha mãe começou a trabalhar aqui, ela trabalhava pra uma senhora vendendo peixe com açaí. Depois é que ela foi desenvolvendo até ter o box dela”.

Maria Emi lembra que, antes disso, a rotina da mãe era de cuidado quase exclusivo com os nove filhos. Porém, quando o marido sofreu um acidente de trabalho e não pôde mais trabalhar fora, Maria Gomes precisou sair para garantir o sustento da família. Os aprendizados que ela acumulou ao longo de anos de vendas de refeições, ela repassou para as filhas que hoje trabalham com ela.

“Eu falo para minhas irmãs que ela tem mais força do que nós, de hoje em dia. A gente está meio mole, mas a mamãe está aí firme. E é ela que faz questão de vir todo dia, a gente fala pra ela que não precisa, mas não tem jeito”.

Mais do que a profissão, Maria Emi conta que aprendeu com a mãe a importância de manter a família unida. Também mãe, ela conta que contou muito com a ajuda dos irmãos para criar os filhos.

“Hoje em dia, a gente acaba criando os meninos sozinhos porque os homens, hoje em dia, logo arranjam outras mulheres e não ligam pros filhos. Então, bem dizer, eu criei meus filhos com a ajuda dos meus irmãos. Como nós somos nove, um ajudou o outro e nunca vi nenhum reclamar porque tava cuidando dos meninos. E a gente é assim, um vai ajudando o outro”, conta.

“E essa união vem muito da nossa mãe. Depois que o papai morreu e ficamos só nós, a mamãe percebia as nossas indiferenças, eu e meus irmãos, e não aceitava aquilo. Um dia, ela chorou na nossa frente e disse que não aceitava uma irmã brigando com a outra, que a gente precisava viver unido. Aí a gente coloca a mão na consciência, né? E hoje somos muito unidos, inclusive pra cuidar da nossa mãe”.

Foi também a partir dos ensinamentos das matriarcas da família que a erveira Socorro Soares da Silva, 66 anos, desenvolveu a sua própria maternidade. Ela conta que sempre sonhou em ser mãe e não mediu esforços para conseguir realizar esse desejo.

“Foi uma coisa tão linda para mim ter a minha filha. Eu planejei ter minha filha mais velha. Eu não tinha filho e os médicos diziam que eu não poderia pegar barriga. Mas a minha bisavó fazia remédio com as ervas e eu aprendi com ela. Eu fiz, tomei e engravidei da minha primeira filha. Eu fui mãe pela primeira vez com 20 anos”.

Assim como a primeira filha, os outros filhos de Socorro também foram planejados. Dos quatro, a caçula decidiu seguir a profissão da mãe, da avó e da bisavó e também trabalha como erveira no Ver-o-Peso.

“Eu criei meus filhos todos daqui dessa banca. Eu fui mãe e pai dos meus filhos, criei todos sozinha e eles são o orgulho da minha vida. São três mulheres e um homem”, conta, orgulhosa.

COMPANHIA NO TRABALHO

A erveira Maria dos Anjos Pacheco, 76 anos, também tem o privilégio de ter a companhia de uma filha no trabalho. Ela conta que começou a trabalhar com as ervas por intermédio do marido, que lhe ensinou o ofício que, mais tarde, ensinou à filha Márcia Cardoso, 46 anos. “A minha filha veio trabalhar comigo quando ela terminou os estudos. Tava muito difícil emprego naquela época e ela veio nos ajudar. Ela foi começando devagar, eu fui ensinando ela, e hoje em dia ela tá uma profissional aqui, trabalhando comigo”, conta Maria dos Anjos, que além de Márcia, também é mãe de um rapaz. “Eles são maravilhosos para mim. Eles são um orgulho na minha vida. Eu tenho um casal de filhos e agora eu tenho três netos que também são a minha vida”.

Mais do que uma companheira no trabalho, Márcia vê na mãe um exemplo. Ela conta que a forma como ela via a mãe mudou depois que ela própria vivenciou a experiência da maternidade.

“A gente sempre pensa como filho, mas quando a gente se torna mãe, é quando a gente vai entender o que é o cuidado, o que é proteção, o que é de querer saber onde o filho tá e como está 24 horas por dia. Coração de mãe é uma coisa que a gente não tem nem como explicar”, conta.

“E depois que eu fui mãe, eu entendi melhor a minha própria mãe, o cuidado que ela tinha com a gente. A gente passa a entender melhor as nossas mães porque começa a sentir a mesma preocupação que elas sempre tiveram com a gente, e que ainda têm porque nunca passa”.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/o-amor-materno-que-atravessa-geracoes-no-ver-o-peso/