Krenak chega ao palco da CAIXA Cultural Belém como ponto de partida para uma reflexão sobre humanidade, natureza, Brasil, colonização e os mundos silenciados ao longo da história. Inspirado nas obras do escritor e líder indígena Ailton Krenak, o espetáculo “Ideias para adiar o fim do mundo” será apresentado nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho, na capital paraense, com atuação de Yumo Apurinã e direção e dramaturgia de João Bernardo Caldeira. Os ingressos já estão à venda.
A montagem propõe uma travessia cênica pelas ideias de Krenak e leva ao teatro debates sobre a formação do Brasil, os impactos da colonização, os desafios enfrentados pelos povos indígenas e a urgência de imaginar outras formas de relação entre humanidade e natureza. Em cena, a obra busca tensionar a narrativa dominante sobre o país e aproximar o público de outras cosmologias, memórias e modos de existir.
Reflexões sobre a formação do Brasil e povos indígenas
Idealizado pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira, o espetáculo nasceu do desejo de transformar em linguagem teatral algumas das reflexões presentes na obra de Ailton Krenak. A pesquisa ganhou novo corpo a partir do encontro com o ator indígena Yumo Apurinã, que passou a integrar também a construção dramatúrgica da peça. No palco, Yumo interpreta a si mesmo: um homem do povo Apurinã que foi evangelizado na infância e tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade.
Nascido em Rondônia e morador da região Sudeste, Yumo leva à cena experiências atravessadas por deslocamentos, pertencimento, identidade e pelos estereótipos que ainda recaem sobre os povos indígenas no Brasil contemporâneo. “Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não caibo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”, afirma o ator.
Sucesso de público e alcance simbólico na Amazônia
O espetáculo estreou com temporadas de ingressos esgotados no Rio de Janeiro e integrou festivais como o Interculturalidades, em Niterói, e o Festival Amir Haddad. Atualmente, a montagem circula por unidades da CAIXA Cultural em São Paulo, Curitiba, Belém e Brasília. Em 2025, a convite das organizações La Clima e FILE Foundation, também participou da programação do Dia da Justiça Climática durante a COP 30, em Belém.
Para João Bernardo Caldeira, apresentar a montagem na Amazônia amplia o alcance simbólico e político das reflexões propostas pela obra. “Trazer o espetáculo para a Amazônia tem um significado especial porque muitas das questões presentes na obra de Krenak atravessam diretamente este território. Ao colocar diferentes cosmologias em diálogo, a peça convida o público a reflorestar os imaginários com que pensamos o Brasil, abrindo espaço para outras narrativas sobre a nossa história e outras possibilidades de futuro”, afirma o diretor.

Reelaborando histórias e imaginários sobre o Brasil
A montagem conduz o público por uma reflexão sobre os processos históricos que moldaram a formação do Brasil e definiram quais vidas, saberes e modos de existir foram reconhecidos como parte daquilo que se convencionou chamar de humanidade. “A peça sugere que talvez seja impossível imaginar futuros diferentes sem antes reelaborar as histórias que contamos sobre nós mesmos. Ao colocar em diálogo perspectivas historicamente marginalizadas pela colonização, ela amplia os imaginários a partir dos quais compreendemos o Brasil”, diz João Bernardo Caldeira.
O espetáculo também recupera episódios da história brasileira e dialoga com processos que ainda produzem efeitos no presente. Um dos pontos lembrados pela montagem é que, até a Constituição de 1988, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados relativamente incapazes perante a legislação brasileira. Para o diretor, essa memória ajuda a compreender a força das narrativas que apagaram múltiplas existências. “Muitos mundos precisaram ser silenciados para que uma única narrativa sobre o Brasil se tornasse dominante. A peça procura aproximar o público de experiências, memórias e saberes que ajudam a compreender a complexidade da nossa formação histórica”, afirma.
Programação e ingressos em Belém
A temporada em Belém terá ainda a atividade gratuita “Histórias para adiar o fim”, no dia 20 de junho, às 16h. O encontro reunirá Yumo Apurinã e a escritora, poeta, geógrafa e ativista indígena Márcia Kambeba. Nascida no Amazonas e radicada no Pará, Márcia é uma das principais vozes indígenas da literatura contemporânea brasileira, com produção voltada a temas como território, ancestralidade, memória e identidade indígena. A conversa pretende aproximar arte, literatura, produção de conhecimento e os caminhos abertos pelos povos indígenas para pensar o presente e o futuro do Brasil.
As apresentações de “Ideias para adiar o fim do mundo” ocorrem nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho, na CAIXA Cultural Belém, localizada na Avenida Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Reduto, no Porto Futuro II. As sessões serão realizadas na quarta, quinta, sábado e domingo, às 19h. No domingo, haverá sessão extra às 16h.
Não haverá apresentação no dia 19 de junho em razão do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Os ingressos custam R$ 30,00 a inteira e R$ 15,00 a meia. A CAIXA Cultural Belém funciona de terça a domingo, das 10h às 21h, com acesso para pessoas com deficiência. Mais informações podem ser acompanhadas pelos canais oficiais da CAIXA Cultural Belém e do espetáculo.
Fonte: https://diariodopara.com.br/entretenimento/peca-inspirada-em-krenak-chega-a-belem-com-debate-indigena/

