Suicídio é a segunda causa de morte entre jovens em Belém

Belém enfrenta um inimigo silencioso e persistente: o suicídio, um problema de saúde pública que vai muito além do drama individual e reflete fatores sociais, econômicos, biológicos e emocionais. A real dimensão desse fenômeno na capital paraense, porém, segue encoberta por falhas graves no registro de dados e pela subnotificação.

Em 2022, o Pará contabilizou 1.484 casos de lesões autoprovocadas, sendo 235 em Belém, segundo o Datasus, mas a pesquisadora Samara Machado Paiva – autora da dissertação de mestrado “Itinerário, cuidado e vivência de profissionais de saúde na atenção à pessoa em risco e crise suicida”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), alerta que esse número é maior, já que muitos óbitos intencionais acabam registrados como acidentes ou outras causas, distorcendo as estatísticas oficiais.

A subnotificação é agravada pela sobrecarga dos serviços de saúde e pela burocracia das fichas de notificação compulsória, que deveriam ser preenchidas em até 24 horas. Além disso, os formulários carecem de critérios adequados para identificar grupos vulneráveis, como a população LGBTIQIA+ e pessoas negras, e sequer tornam obrigatórios alguns campos essenciais. Mesmo com essas limitações, a pesquisa aponta maior vulnerabilidade entre jovens de 16 a 32 anos, mulheres, população LGBTIQIA+, pessoas negras e profissionais da saúde e da segurança pública. O alerta é ainda mais grave diante do fato de que o suicídio figura entre as principais causas de morte de jovens no Brasil e no mundo.

No cotidiano da atenção básica, o problema já se manifesta de forma precoce: crianças e adolescentes com ideação suicida fazem parte da rotina de atendimento, sinal claro de que as estratégias atuais não estão dando conta do desafio.

A pesquisa também evidencia a desarticulação da Rede de Atenção Psicossocial em Belém, com falhas de comunicação entre atenção primária, urgência e Caps. Na prática, pacientes atendidos após tentativas de suicídio muitas vezes saem das unidades sem acompanhamento psicológico contínuo, e a ausência de registros adequados impede ações de prevenção e pós-venção eficazes.

Outro ponto crítico é a formação insuficiente dos profissionais de saúde, que, em sua maioria, não recebem treinamento específico em suicidologia durante a graduação. Isso gera insegurança, encaminhamentos excessivos e sobrecarga dos serviços especializados. Como alternativa, a dissertação defende uma “clínica ampliada”, que ultrapasse o enfoque hospitalar e leve o cuidado para os territórios onde a vida acontece — escolas, universidades, ambientes de trabalho e comunidades.

Nesse contexto, ganha força a proposta de capacitar os chamados “guardiões da vida”: educadores, profissionais de segurança e outros agentes comunitários que convivem diariamente com pessoas em sofrimento e podem identificar sinais de risco precocemente. A ideia é fortalecer a rede de apoio informal, aproximar a escola e a comunidade do cuidado em saúde mental e fazer da prevenção uma responsabilidade coletiva. Porque, quando o inimigo é invisível, ignorá-lo nunca foi uma boa estratégia.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/suicidio-e-a-segunda-causa-de-morte-entre-jovens-em-belem/