A tradição de acender velas durante a noite do Dia de Finados voltou a reunir famílias no Cemitério São José, na ilha de Mosqueiro, distrito de Belém, nesta segunda-feira (2). Conhecido como “iluminação”, o costume atravessa gerações pelo interior do Estado. A repositora Kátia Santos, 39, participou da homenagem ao pai, José Ferreira, que morreu aos 82 anos, em outubro do ano passado.
“Ele me repassou essa tradição de vir acender vela, de homenagear, porque, por mais que a pessoa parta fisicamente, fica espiritualmente com a gente. Ele sempre me ensinou a lembrar, cuidar e zelar pelos nossos entes queridos. A pessoa parte, mas ficam as lembranças boas”, relatou.
A homenagem também representa um momento de saudade para Kátia, que perdeu o marido há três anos. Após a morte dele, o pai passou a exercer uma figura paterna na vida do neto. “A gente lutou muito com ele durante o câncer. Ele teve alta, mas um mês depois faleceu dormindo. Ele nos deixou muita saudade. Por mais que a pessoa parta, ficam as lembranças e tudo aquilo que ela ensinou para a gente”, contou.
Mauro Cabral, 53, participou da iluminação em homenagem à mãe, Maria Helena, falecida em 2014, e à tia, Maria Eugênia, que morreu em 2020. “É uma lembrança, um sentimento que a gente tem pelas pessoas queridas que Deus leva. Isso já se tornou uma tradição. Todos os anos a gente vem, alguns filhos, alguns netos, para prestar essa homenagem”, afirmou.
Ao recordar a mãe, Mauro destacou que a saudade permanece mesmo depois de mais de uma década. “É uma saudade muito grande, que não tem como explicar. Eu sempre digo para as pessoas que ainda têm suas mães vivas, preservem, cuidem e valorizem. Às vezes, a gente só dá valor quando perde”, declarou.
A tradição da iluminação no Dia de Finados
O historiador e cientista da religião Márcio Neco explica que os primeiros cristãos já utilizavam velas. “A ideia de acender velas tanto no judaísmo como no cristianismo antigo é muito forte e tinha justamente esse significado de luz, de oração contínua pelos mortos. Nas catacumbas, os primeiros cristãos já costumavam acender velas pedindo para que a luz de Deus pudesse iluminar os caminhos desses mortos”, explicou.
De acordo com o pesquisador, a realização das visitas durante a noite ganhou força no interior do Pará também por questões climáticas. As temperaturas mais amenas favorecem a presença das famílias. “Os campos-santos se tornam um grande espaço luminoso, não só do ponto de vista estético, mas também cheio de celebração, fé, encontro e grandes expressões culturais. As pessoas não deixam apenas suas orações, mas acabam promovendo encontros comunitários, conversando, recordando histórias e falando um pouco da vida”, destacou.
Significado cultural e religioso
Márcio Neco ressalta que o costume ultrapassa a dimensão religiosa e integra a identidade cultural de municípios como Mosqueiro, Curuçá, São Caetano de Odivelas e Marapanim. Em algumas localidades, a movimentação também envolve a comercialização de comidas, bebidas, flores e velas nos arredores dos cemitérios.
O historiador observa ainda que a iluminação passou a reunir manifestações de diferentes crenças, além da tradição católica. “As homenagens que nós fazemos aos mortos dizem muito mais sobre nós do que sobre aqueles que partiram. É importante perceber que os cemitérios estão se tornando espaços dessa diversidade religiosa, indo além de locais de enterramento. O luto ultrapassa a tristeza e se transforma também em um momento de celebração da vida”, concluiu.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/velas-fe-e-saudade-conheca-a-tradicao-que-ilumina-mosqueiro-no-dia-de-finados/

