Como a Casa de Rui Barbosa impediu nova tentativa de furto do “maior ladrão de livros do Brasil”

Há cerca de 20 anos, Laéssio Rodrigues já havia tentado, sem sucesso, furtar material da instituição

A Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), uma das mais importantes instituições de preservação da memória e da cultura brasileiras, voltou a ser alvo de uma tentativa de furto atribuída a Laéssio Rodrigues de Oliveira, conhecido nacionalmente por crimes contra acervos históricos. Segundo a direção da entidade, esta não foi a primeira vez que o criminoso tentou agir contra o patrimônio da instituição.

“Há cerca de 20 anos, o próprio Laéssio Rodrigues já havia tentado, sem sucesso, furtar material bibliográfico da Fundação Casa de Rui Barbosa”, revelou à Hora do Povo o diretor executivo da instituição, Ricardo Calmon.

A nova investida ocorreu em fevereiro deste ano e acabou contribuindo para a prisão do acusado pela Polícia Federal. De acordo com a Fundação, um vigilante terceirizado foi abordado por Laéssio Rodrigues e uma mulher no dia 4 de fevereiro. Os dois alegaram ter uma proposta de trabalho para o funcionário durante o carnaval e marcaram um encontro para discutir os detalhes.

A reunião aconteceu em 8 de fevereiro, em um restaurante no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. No local, segundo o relato da Fundação, Laéssio se identificou e passou a relatar furtos realizados ao longo da carreira, chegando a afirmar ser “o maior ladrão de livros do Brasil”. Em seguida, propôs ao vigilante facilitar seu acesso à instituição durante o feriado para que obras raras fossem retiradas do acervo e substituídas por réplicas.

O criminoso alegou que os livros teriam valor superior a R$ 1 milhão e ofereceu R$ 500 mil ao funcionário em troca da colaboração.

A proposta, entretanto, foi imediatamente rejeitada. Assim que deixou o encontro, o vigilante comunicou o ocorrido à empresa responsável pela segurança, que acionou a direção da Fundação. O caso foi levado à Polícia Federal, ao Ministério da Cultura e a outros órgãos competentes.

Para Calmon, a atitude do trabalhador foi decisiva para impedir a ação criminosa e proteger um patrimônio que pertence a toda a sociedade brasileira. “O vigilante teve um comportamento ético e muito honrado, defendendo o patrimônio brasileiro. Nós só temos a agradecer”, afirmou.

Segundo o diretor executivo, a rápida comunicação do caso permitiu que a Fundação reforçasse os procedimentos de segurança durante o período do carnaval e colaborasse de forma efetiva com as investigações. “Foram redobradas as medidas de segurança naquele período de feriado”, explicou.

Embora considere que o sistema de segurança da Fundação tenha funcionado adequadamente, o diretor informou que o episódio levou a uma reavaliação dos protocolos internos. “O nosso sistema de segurança tem funcionado a contento, mas diante do ocorrido foi feita uma revisão em todos os protocolos de acesso e segurança da Casa”, declarou.

Instalada na antiga residência de Rui Barbosa, em Botafogo, no Rio de Janeiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa é uma instituição vinculada ao Ministério da Cultura responsável pela preservação de um dos mais importantes conjuntos documentais e bibliográficos do país.

O diretor ressalta que a atuação da Fundação vai muito além da conservação de livros, documentos e objetos históricos. Segundo ele, a instituição desempenha um papel relevante na produção de conhecimento sobre a cultura brasileira e na formulação de políticas públicas para o setor.

“A Fundação atua fortemente na produção e na difusão de conhecimentos sobre a cultura brasileira, contribuindo para o seu fortalecimento, bem como para a formulação de políticas públicas de cultura”, afirmou.

Segundo ele, nos últimos anos, sob a presidência de Alexandre Santini e a orientação da ministra da Cultura, Margareth Menezes, a instituição também tem enfatizado a promoção da diversidade cultural e das diferentes matrizes que compõem a cultura brasileira, com destaque para as de origem africana e para as culturas indígenas.

A FCRB também mantém atividades acadêmicas por meio do Programa de Pós-Graduação em Memória e Acervos, além de promover iniciativas como o Seminário Internacional de Políticas Culturais, a Festa Literária da Casa de Rui Barbosa, o Congresso de Literatura de Cordel e diversos cursos e debates voltados à reflexão sobre os grandes temas nacionais.

De acordo com o diretor executivo, a preservação do acervo vem sendo acompanhada por um amplo processo de digitalização. A Biblioteca de Rui Barbosa já está totalmente digitalizada, enquanto os demais acervos passam por um trabalho contínuo de tratamento e disponibilização digital.

LEGADO DE RUI BARBOSA

Ao comentar a importância da instituição, Calmon destacou a atualidade do pensamento e da trajetória de Rui Barbosa. Jurista, jornalista, diplomata, parlamentar e ministro da Fazenda, Rui tornou-se uma das figuras mais influentes da história política brasileira, destacando-se pela defesa do abolicionismo, do federalismo, das liberdades civis, da soberania nacional e da igualdade entre os países.

“Rui Barbosa foi um protagonista militante das causas da igualdade entre as nações, do desenvolvimento e da industrialização nacional, do abolicionismo, do poder civil, do federalismo e do enfrentamento das oligarquias”, observou.

Para o diretor da Fundação, manter viva a memória de Rui Barbosa não significa apenas homenagear uma das figuras mais importantes da história nacional, mas também contribuir para o debate dos desafios contemporâneos enfrentados pelo Brasil.

“Preservar e difundir seu legado adquire especial relevância nesses tempos de intensas ameaças à democracia, ao desenvolvimento e à soberania nacionais e à paz mundial”, afirmou.

A tentativa frustrada de furto e a posterior prisão de Laéssio Rodrigues reforçam, segundo a Fundação Casa de Rui Barbosa, a necessidade de fortalecer permanentemente as políticas de proteção dos acervos públicos brasileiros, responsáveis por preservar a memória histórica, cultural e intelectual da nação.

JOSI SOUSA

Fonte: https://horadopovo.com.br/como-a-casa-de-rui-barbosa-impediu-nova-tentativa-de-furto-do-maior-ladrao-de-livros-do-brasil/