Gonzaguinha: a gente quer viver uma Nação!

IRAPUAN SANTOS

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, compositor e intérprete, como ele se autodenominava, nasceu em 22 de setembro de 1945 e completaria 81 anos este mês.

Autor de 309 músicas e 372 gravações registradas, segundo dados do ECAD, em 2014 ocupava o 3º lugar entre os arrecadadores de direitos autorais mortos, ficando atrás apenas de Tim Maia (2º lugar) e Tom Jobim (1º lugar), numa demonstração de que deixara para a posteridade uma obra de inegável valor e muito apreciada pelos brasileiros.

Artista de trajetória ímpar, transportou para a arte suas sensações, sentimentos e trajetória de vida através da melodia, da poesia, da denúncia, do romantismo e da crônica. Fez do seu viver ponto de identidade com a cultura nacional, com o dia a dia do povo pobre e trabalhador, de admiração pela imensidão do país no qual nasceu, de protesto contra o arbítrio e de comunhão com as esperanças que nós brasileiros vivemos dos anos 60 aos anos 90, quando ele nos deixou, vítima de um acidente de carro na flor dos seus 45 anos.

Inegavelmente, deu grande contribuição ao Brasil, num momento em que a juventude brasileira e um conjunto de patriotas se sublevou contra a opressão da ditadura militar até derrotá-la com apoio popular, após 21 anos de luta. Embora, até hoje, não tenhamos conseguido extirpar de vez a doença social que representa o fascismo, que ainda nos dias atuais nos atormenta, como veremos adiante.

Reunindo uma obra repleta de grandes sambas, sambas-canções, boleros, marchas, xote, baião e toadas, Gonzaguinha foi gravado pelos principais intérpretes brasileiros como Maria Betânia, Elis Regina, Gal Costa, Nana Caymmi e Simone, dentre outros. Foi cantado na avenida pelo povo, no desfile da Império Serrano, que em 2019 transformou em enredo seu samba “O que é o que é?”, e Estácio de Sá, em 2017, no enredo “É! O moleque desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu com a Estácio”.

COM A PERNA NO MUNDO

Filho de Luiz Gonzaga, o rei do baião, e Odaléa Guedes dos Santos, dançarina, cantora e compositora, que atuava no Dancing Brasil, falecida aos 22 anos de idade, de tuberculose, Gonzaguinha foi criado desde os dois anos de idade por seus padrinhos Leopoldina de Castro Xavier, a Dona Dina do Morro de São Carlos, e Henrique Xavier, o Baiano do Violão, com quem aprendeu o instrumento. Em entrevista ao Pasquim em 1981, Gonzaguinha assim se define:

“É evidente que sou uma pessoa sofisticada, porque tenho um lastro cultural. Sou formado em Ciências Políticas e Econômicas. Mas, lido com um universo que vem desde meu pai (sic Luiz Gonzaga), passando por Estácio, pela memória do meu padrinho, que tocava violão na zona, pegando Benedito Lacerda, o chorinho, Lapa, Café Thalia, Largo da Carioca com Hotel Avenida, transei coisas que a gente não vê mais. Sou esta mistura toda, que se torna um emaranhado”

Aos 9 anos de idade pegava um bonde no Largo do Estácio e ia brincar o carnaval na Praça Onze ou na Candelária. Garoto de feira, pegava uma batata aqui, outra ali, vendia gibi, vendia jornal, quem está na rua sabe o que faz. Até que decidiu ir morar com o pai Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador.

Começou a compor aos 14 anos e o pai gravou suas três primeiras músicas, em 1967: “Lembranças da primavera”, “Festa” e “From US of Piauí”.

Em 1968 participa do l Festival Universitário de Música Popular Brasileira, com a música “Pobreza por pobreza”. Em 1969 vence o ll Festival Universitário com a música “O Trem ou (Você se lembra daquela nega maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?)”, recebida por vaias estrondosas da plateia.

Neste mesmo ano funda com Aldir Blanc, Ivan Lins, César Costa Filho, Paulo Emílio, Ronaldo Monteiro, entre outros, o MAU – Movimento Artístico Universitário, que logo é absorvido e em seguida desagregado por influência da gravadora Som Livre.

Antes de prosseguirmos é necessário traçarmos um breve panorama da situação do Brasil no final dos anos 60.

RECRUDESCIMENTO DA DITADURA

Em 1968, em resposta à retomada do movimento popular cujos marcos, na época, são as greves operárias de Contagem (MG) e Osasco (SP), a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro e a grande agitação cultural no país, a ditadura recrudesce com a edição do AI-5, em dezembro, fechando o Congresso Nacional e levando perseguição, tortura, prisão e morte a centenas de brasileiros. A censura passa a ser o maior inimigo de artistas, jornalistas, professores e intelectuais brasileiros durante bom tempo.

Em 1969, a Império Serrano desfila com “Heróis da Liberdade”, samba de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. Os mentecaptos de plantão do regime inquirem os compositores no Dops e eles são obrigados pela censura a substituir o verso “É a revolução em sua legítima razão” por “É a evolução em sua legítima razão”. O resultado foi inócuo, ainda hoje é considerado o mais belo samba-enredo de todos os tempos por sua profundidade em mostrar a resistência dos negros contra a escravidão e a amplitude alcançada pela luta no Brasil. Diga-se de passagem, era a música preferida dos presos políticos na Frei Caneca naquela época, segundo testemunhos.

Para gravar o primeiro LP, em 1973, Gonzaguinha submeteu à censura 28 músicas e somente 9 foram autorizadas. Ao longo da carreira o autor teria mais de 50 músicas censuradas.

De 1968 a 1971, a execução de civis de modo brutal e quase ritualizada por policiais civis tem um grande aumento. O relatório “Repressão Política: Origens e Consequências do Esquadrão da Morte” da Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”, diz explicitamente:

Já fazia pelo menos três meses que um grupo de policiais de São Paulo viajara para o Rio de Janeiro com a missão exclusiva de absorver dos policiais cariocas a ‘técnica’ de eliminar os indesejáveis do convívio social com base em critérios estritamente particulares. Um “esquadrão” já funcionava no Rio e seus membros, ligados a uma associação com o nome do detetive Le Cocq, promoviam eliminações sumárias. O nome francês era o de um policial morto por um marginal, Manuel Moreira, conhecido nos anos 60 como Cara de Cavalo e que por causa desse crime foi massacrado em seu esconderijo na cidade de Cabo Frio. 3

O Esquadrão da Morte atuava sob o comando do delegado do Departamento de Ordem e Política Social (Dops) Sérgio Paranhos Fleury, que havia cultivado nos primeiros momentos da carreira uma referência pessoal de “caçador de bandidos”.

O modus operandi do Esquadrão da Morte se estendeu de tal forma que Fleury participou incisivamente de apreensões fora do Estado de São Paulo. Comandou pessoalmente, a tocaia para executar Carlos Marighella, dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) no dia 2 de novembro de 1969.

Na Operação Pajussara, montada para assassinar o capitão do Exército Carlos Lamarca, Fleury organizou equipes de busca, participou do assassinato de Otoniel Campos Barreto, no dia 28 de agosto de 1971 e após torturar toda a família, deixou cravado na porta da casa de Otoniel o símbolo do Esquadrão da Morte.4

No entanto, embora fosse um período de grande cerceamento e ocultação de informação pelo poder, não conseguiram abduzir a existência de mais de 1500 ossadas não identificadas numa vala clandestina no Cemitério de Perús, em São Paulo, numa investigação que perdura até os dias atuais.

A repressão feroz ao movimento popular e à oposição ao regime foi mascarada pelo chamado “milagre brasileiro” (1968/1973), em que houve uma reanimação da economia até então estagnada, através da utilização de sua capacidade ociosa, aceleração da dívida externa e um grande processo de desnacionalização com entrada de capital estrangeiro e o consequente arrocho salarial. Os anos de 1970, 1971 e 1973 , foram de descenso no movimento social. Só em 1978 as greves por melhores salários retornariam.

Diante do fechamento do regime, a luta armada se torna a alternativa para a esquerda revolucionária. O embaixador americano é aprisionado em 1969 pelo MR8 e a ALN, para ser trocado pela libertação de 15 presos políticos. É deflagrada a Guerrilha do Araguaia pelo PCdoB.

O repertório de atrocidades e crimes do sistema se supera. Em janeiro de1971, o Deputado Federal Rubens Paiva é morto na prisão. O estudante Stuart Angel, dirigente do MR8, é morto sob tortura, em 14 de maio de 1971. O mesmo acontece com o estudante Alexandre Vannuchi Leme, da ALN, em 17 de março de 1973. Guerrilheiros no Araguaia são mortos em 1973/1974 e ainda hoje mais de 50 são considerados desaparecidos políticos. O jornalista Vladmir Herzog é morto na prisão em 25 de outubro de 1975. O metalúrgico Manoel Fiel Filho, do PCB, é morto na prisão e dado como vítima de suicídio, como Vladmir Herzog. Em 1976, a estilista Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel, é silenciada num “acidente” de carro fatal na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Não é demais lembrar, para não perdermos de vista com quem lidamos na atual conjuntura, que o miliciano Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018, era filiado à Scuderie Lecocq desde 1989, conforme carteira de sócio exibida pela revista Época, mencionada por Sérgio Rubens de Araújo Torres, no artigo “Bolsonaro e as Milícias”, publicado pela Hora do Povo, na edição de 24/04/2019, numa demonstração de que ainda hoje nos deparamos com os animais cevados nos porões da ditadura, que fazem da condecoração de assassinos, da corrupção, da submissão ao império seu modus vivendi.

E VAMOS À LUTA

A música brasileira cumpriu um papel especial nesta fase da vida nacional, pós o golpe de 1964 até a redemocratização do País. Em sua diversidade característica, continuou sendo uma das manifestações artísticas mais cultuadas pelos brasileiros nos seus gêneros e tipos tradicionais, mas viu nascer um estilo em que a denúncia, o combate, a ironia passam a moldar seu conteúdo de resistência.

Em 1964, o samba “Opinião”, de Zé Kéti, que deu nome ao espetáculo, originário do CPC da UNE que reunia no palco o sambista, Nara Leão e João do Vale, já desafiava a ordem vigente com os versos “Podem me prender / Podem me bater / Que eu não mudo de opinião/ Aqui do morro eu não saio não.”

Em 1968, Gilberto Gil, José Carlos Capinam e Torquato Neto compõem o calypso “Soy loco por ti América”, em homenagem a Che Guevara, gravado por Caetano Veloso, onde se destacam os versos “Canções de guerra / quem sabe canções do mar” e “Sei que adiante um dia vou morrer/ De susto, de bala ou vício”.

O samba “Apesar de você”, de Chico Buarque de Holanda, gravado em 1970, se transforma num autêntico “grito de guerra”, com os versos “Você vai pagar é dobrado/ Cada lágrima rolada deste meu penar”. Já o samba “Construção/Deus lhe pague”, em 1971, do mesmo autor, gravado com um arranjo esmerado do maestro Rogério Duprat, tece o corolário de um operário da construção civil, que, vítima de um acidente de trabalho, se projeta no espaço e “morreu na contramão atrapalhando o trânsito/o sábado”, numa clara alusão a que o povo brasileiro era um estorvo para o regime.

A primeira música de grande repercussão de Gonzaguinha é “Comportamento geral”, de 1972, que ainda hoje é cantada, regravada em 1973, no seu primeiro álbum.

“Você deve lutar pela xepa da feira

E dizer que está recompensado”

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“Você deve rezar pelo bem do patrão

E esquecer que está desempregado”

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“Prá ganhar um fuscão no juízo final

E um diploma de bem comportado”.

Os versos denunciam a miséria, os salários achatados ou a ausência deles e funcionam como combate à passividade. É dirigida contra o sistema e concepções religiosas a ele associadas através de uma sátira mordaz. A música foi cantada por Gonzaguinha no Programa Flávio Cavalcanti, e, como não poderia deixar de ser, foi execrada pelo antro de conservadores que lá se fantasiavam de jurados. Como consequência, o compositor foi chamado e advertido pela censura, que quando proibiu a execução pública do samba a repercussão tinha sido tamanha que havia esgotado a venda de todos os exemplares e virado sucesso.

De qualquer forma, no espectro religioso, não devemos perder de vista que parcela importante da Igreja Católica se colocou do lado do povo nos embates contra a ditadura. Em seu livro clássico “1968: o ano que não terminou”, o mestre Zuenir Ventura, que recentemente nos deixou aos 95 anos de idade, assim descreve uma das alas da passeata dos 100 mil em 26 de junho de 1968:

“A ala do clero foi um dos sucessos do dia. Eram uns 30 padres, que chegaram em grupos de cinco, mantiveram-se unidos durante toda a manifestação e se dispersaram também em grupos. Um dos coordenadores circulava em torno do grupo, recomendando que se mantivessem de braços dados, formando um círculo e volta do vigário-geral do Rio, de alguns padres idosos e da freiras… a sua palavra de ordem era a mesma dos professores: ‘Os alunos tem razão’. P.162/163. 5

Entre 1973 e 1978 Gonzaguinha lança 6 álbuns, com músicas que ficariam marcadas, como “Meu coração é um pandeiro” (1974), depois gravada por Elis Regina, em que são mesclados versos de encantamento com o Brasil: “No cenário mundial dentre outras mil / No universo dentre as nações/ Já não és se quer apenas uma estrela/ Sendo bela quanto as mais belas constelações/ “, com versos de pura ironia “Vem ver/ A sociedade no asfalto/ Gastando seu salto alto,/ Sambando a pleno vapor /Vem ver /Um morro na arquibancada / Apreciando a moçada/
Desfilando com garbo esplendor”.

Grava também “Galope” (1974), da qual fez várias regravações e na mencionada entrevista do Pasquim dedicou aos operários do ABC: “Deixa essa criança chorar/ Deixa essa criança chorar/ Não adianta cara feia, nem adianta se zangar/ Que ela só vai parar quando essa fome passar/ E doutor, uma esmola a um pobre que é são/ Ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”.

Em 1976 compõe e grava o bolero “Começaria tudo outra vez”, que faz grande sucesso. “Ao som desse bolero vida vamos nós/ E não estamos sós/ Veja meu bem/ A orquestra nos espera/ Por favor recomeçar/”. Música que remete ao cenário de um grande baile, que possivelmente ficou registrado na memória do compositor como local de trabalho de sua mãe. A canção “Odaléa noitesbrasileiras”, que gravaria em 1978 em diversos compassos tem melodia semelhante.

Em 1977 o seu “Samba do avestruz” é censurado. Após fazer algumas adaptações o samba é gravado com o título “Dias de Santos e Silvas”. O samba é uma crônica sobre um dia na vida de um trabalhador que enfrenta a falta de comida, o aumento do trem, do aluguel, o calo que dói, a briga na fila do ônibus, o calor, mas pensa que “Pior que tá não dá pra ficar”, e tem como única alternativa ganhar no jogo do bicho. O resultado é: “Pobre não tem mesmo vez/ Não dá sorte ou dá azar/ E o danado do avestruz/ Também não deu/ Minha mulher vai reclamar/ O dinheiro que era seu”.

Gonzaguinha lança dois álbuns no ano de 1978, onde se destacam, o frevo “Vai meu povo”, onde imagina “Um carnaval sem 4ª. feira de cinzas/ Pintado com a cor da liberdade/ Seguindo braço dado com a esperança.” O samba “E por falar no Rei Pelé”, faz o paralelo do futebol profissional com a vida do povo: “Craque mesmo é o povo brasileiro/ Corre em campo, se esforça o tempo inteiro/ Vai pra ponta e centra e cabeceia/ E ele mesmo é o goleiro que escanteia.” O samba “Recado” funciona como um desabafo: “Se me der um beijo eu gosto/ Se me der um tapa eu brigo/ Se me der um grito não calo/ Se me manda calar mais eu falo.”

Ainda neste ano lança a bela toada” Diga lá coração”, que se sobressai em sua obra pela beleza harmônica e o lirismo dos versos “Diga lá meu coração/ Conte as histórias das pessoas/ Nas estradas dessa vida/ Chora e essa saudade estrangulada/ Fale sem você não há mais nada”.

Ainda neste álbum lança o primeiro dos seus grandes sambas, o “Com a perna no mundo”, claramente autobiográfico, como espelham os versos “Ô Dina/ Seu menino desceu o São Carlos/ Pegou um sonho e sumiu/ Pensava que era um guerreiro/ Com terras e gente pra conquistar/ Havia um fogo em seus olhos/ Um fogo de não se apagar”.

O samba-canção “Não dá mais prá segurar”, que fez enorme sucesso na voz de Maria Betânia, que aparentemente reproduz o fim de um relacionamento ou mesmo o momento do parto é, na verdade, uma projeção de uma antevisão do fim da difícil situação política do país depois de 14 anos de ditadura. “Eu quero mais é me abrir/ E que essa vida entre/ Assim como se fosse o sol/ Desvirginando a madrugada/ Quero sentir a dor dessa manhã/…/Não dá mais prá segurar/ Explode coração.”

Para continuarmos apreciando a obra de Gonzaguinha, que entrará na fase de consolidação, é indispensável que corramos a vista sobre o que se passava no Brasil em torno dos anos 80.

Este período coincide com o mandato do último presidente da ditadura, João Figueiredo (15/03/1979 – 15/03/1985). As rachaduras no sistema ficavam cada vez mais visíveis, a partir da política de abertura do seu antecessor que contrariou uma corrente dos que estavam no poder. Diante desse quadro o esgoto do sistema mais uma vez deu as caras recorrendo ao terrorismo para provocar o fechamento do regime.

Foram aproximadamente 40 atentados à bomba em bancas de jornal, em jornais como o Estado de São Paulo, Hora do Povo, Pasquim e Tribuna Operária e em instituições como OAB e ABI.

Em 27 de agosto de 1980, uma carta bomba foi colocada na OAB-RJ matando a secretária Da. Lyda Monteiro da Silva. No mesmo dia uma carta-bomba foi enviada ao Gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho, dirigente do MR8, que ao ser aberta pelo assessor do vereador, Luiz Ribamar Freitas, explodiu deixando-o gravemente ferido. Uma terceira bomba no mesmo dia explodiu na redação do Jornal Tribuna da Luta Operária, do PCdoB.

Em 30 de abril de 1981, 20.000 pessoas se reuniram no Riocentro, no Rio de Janeiro, para comemorar o 1º de Maio, num show organizado pelo CEBRADE, com a participação dos principais nomes da música brasileira, quando um automóvel puma explodiu no estacionamento matando um dos seus ocupantes, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, e deixando gravemente ferido o motorista e proprietário do veículo capitão Wilson Luís Chaves Machado, que saiu do carro segurando as próprias vísceras com as mãos. Os dois militares eram integrantes do DOI-CODI, aparelho de repressão do sistema. Foram localizados explosivos no carro e outros locais do pavilhão. Gonzaguinha é quem comunica ao público o que estava acontecendo: “…explodiram duas bombas. Essas duas bombas que explodiram foram mais duas tentativas de acabar com a realização dessa festa que foi conseguida … Essas duas bombas representam exatamente uma luta para destruir aquilo que nós todos queremos … uma democracia, a liberdade.”

Por outro lado, na economia, a escalada da dívida externa, a adesão ao FMI, o aumento da dependência e uma violenta recessão levaram a que parte dos anos 80 fosse considerado na economia como a “década perdida”.

Para combater o arrocho salarial greves operárias eclodiram em 1978, 1979 e 1980 no ABCD paulista, por reposição salarial. A greve geral de 1983 com a participação decisiva do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o maior da América Latina, e que mobilizou sindicatos de todo país, anunciava os estertores da ditadura. Tinha na pauta de reivindicações o fim do arrocho salarial, congelamento dos preços básicos, devolução dos sindicatos sob intervenção a suas legítimas diretorias, reforma agrária e repúdio ao acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), entre outras bandeiras.

Em 1982 a oposição elege a maioria dos governadores do país (inclusive dos principais Estados) e a maioria do Congresso Nacional, instalando uma situação de dualidade de poderes. O Brasil entra os anos 1983 e 1984 em mobilização geral para eleição direta do próximo presidente. É a histórica campanha das “Diretas Já”.

Em seu livro “Por um Brasil Brasileiro”, Cláudio Campos, Secretário Geral do MR8, assim se expressa no artigo “Está nascendo um novo Brasil”, em dezembro de 1982,

“As eleições de 15 de novembro inauguraram uma situação inteiramente nova na vida política do país. A Oposição conquistou a maioria dos governos dos principais Estados, inclusive São Paulo, minas e Rio. A maioria da Câmara Federal é, também, de Oposição. E, mais uma vez, o PMDB foi o partido mais votado em todo Pais.

O autoritarismo continua detendo a principal parcela do poder, isto é, o governo federal – na verdade ele não esteve em disputa nestas eleições. Mas o autoritarismo já não detém sozinho todo o poder. Está instaurada uma situação dedualidade de poderes, característica de uma situação revolucionária razoavelmente avançada.P.13” 6

DE VOLTA AO COMEÇO

O álbum “De volta ao começo”, de 1980, o 8º gravado por Gonzaguinha, é um dos mais importantes na sua obra. Recheado de músicas que se tornariam sucessos como o samba “E vamos à luta”, em que o autor faz uma ode à luta da juventude brasileira nos versos “Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão/ … Eu ponho fé é na fé da moçada/ Que não foge da raia e enfrenta o leão…”Os sambas-canção “Grito de alerta” e “Ponto de interrogação”, as canções “Sangrando”, “Dá maior liberdade” e “De volta ao começo”. Ele representa uma espécie de microcosmos melódico e temático de sua obra.

Também fazem parte do álbum “A Marcha do Povo Doido”, em que parodiando o “Samba do Crioulo Doido”, de Stanislaw Ponte Preta, só que colocando o povo como protagonista, cria imagens irreverentes como, “Confesso/ A culpa pela carestia/ E pela crise da energia/ Eu sou o dono da Opepe/ Ou Pepsi ou Pop ou Coca/ Confesso/ Nem precisa bater../.

A veia satírica se repete no samba de breque “A cidade contra o crime”. Na gravação o cantor reproduz a voz de apresentador de programa policial radiofônico e diz os versos: “Eu faço parte desse medo coletivo/ Já nem sei se confio/ Na polícia ou no ladrão/ A barra não tá mole não/ Ladrão já tem que andar/ Com plaqueta de identificação/ A dita anda dura mesmo com a abertura”… E o ladrão, que na verdade era um trabalhador explorado, tentando sobreviver finaliza … “A concorrência oficial /Não tá deixando prá ninguém”. O samba foi censurado por razões óbvias e depois gravado.

No entanto, o mesmo álbum é fundamental por conter duas composições que denunciam as ações bárbaras do fascismo infiltrado no autoritarismo e homenageia suas vítimas. A primeira é “Achados e perdidos”, que trata do drama dos desaparecidos nos versos “Quem me dirá onde está/ Aquele moço fulano de tal/ (Filho marido irmão namorado que não voltou mais)/ Insiste o anúncio nas folhas/ Dos nossos jornais/ Achados perdidos morridos/ Saudades demais/ … E quem souber algo/ Acerca do seu paradeiro/ Beco das liberdades/ Estreita e esquecida/ Uma pequena marginal/ Dessa imensa Avenida Brasil”. Poeta de grande sensibilidade Gonzaguinha constrói um poema a partir de anúncios de jornal e nele deixa transparecer a dor dos familiares pelas perdas, colocando como referência para qualquer informação o Beco das Liberdades, que seria uma hipotética marginal da grande Avenida Brasil. Ou seja, a metáfora rebuscada é para apontar que a liberdade no imenso Brasil naquele momento podia ser comparada a um beco.

A canção acima, nas apresentações de Gonzaguinha, funcionava como introdução à “Pequena memória para um tempo sem memória”, um samba apresentado sem a harmonização rítmica tradicional do samba, cantado em andamento marcial marcado apenas pela sonoridade grave do tambor, o que lhe empresta um tom solene de réquiem pelos mortos nem sempre identificados.

Memória de um tempo

Onde lutar por seu direito

É um defeito que mata

São tantas lutas inglórias

São histórias que a história

Qualquer dia contará

De obscuros personagens

As passagens, as coragens

São sementes espalhadas nesse chão

De Juvenais e de Raimundos

Tantos Júlios de Santana

Nessa crença num enorme coração

São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas

Memória de um tempo

Onde lutar por seu direito

É um defeito que mata

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Ê eu não quero esquecer

Essa legião que se entregou por um novo dia

Ê eu quero é cantar, essa mão tão calejada

Que nos deu tanta alegria

E vamos à luta

Esta música, lançada no circuito nacional, feito por Gonzaguinha e Gonzagão, fez muito sucesso nas apresentações. Homenageia os heróis anônimos e personagens conhecidos. Júlio Santana foi considerado o primeiro preso do regime militar. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreiros, Rio Formoso e Serinhaém, em Pernambuco, foi preso e enquadrado na Lei de Segurança em 13 de outubro de 1963, numa grande articulação para desestabilização do Governo de Miguel Arraes. Já Raimundo seria o personagem para quem Luiz Gonzaga compôs “A Missa do Vaqueiro” e morreu em disputa política defendendo os mais pobres, segundo depoimento do próprio Gonzagão.

Em 1981 Gonzaguinha compõe o samba “Fala Brasil”, que viria fazer muito sucesso na voz de Roberto Ribeiro: “Deixa o suor do teu corpo mostrar/ O quanto que pode um amor/ Mostra que a vida da gente/É sempre maior do que toda e qualquer dor/ Canta!!dança!!massa, raça e emoção!!/ Fala Brasil, solta o fogo do teu coração/ Fala Brasil”.

Em 1982 compõe o samba que ainda hoje é o mais tocado de tudo que compôs, “O que é o que é?”, cuja letra de caráter filosófico parte de uma indagação do sentido da vida: “…Sempre desejada/ Por mais que esteja errada/ Ninguém quer a morte/ Só saúde e sorte/ E a pergunta roda/ E a cabeça agita/ Fico com a pureza da resposta das crianças/ É a vida, é bonita e é bonita/ Viver e não ter a vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser um eterno aprendiz”.…

Nos anos seguintes compõe outros sucessos como “Guerreiro menino”, “Alô alô Brasil”, “Lindo lago do amor”, “Nunca pare de sonhar”, dedicada aos filhos, “O homem falou” onde mais uma vez ressalta a importância do coletivo na vida do homem usando como metáfora uma Escola de Samba e “Eu apenas queria que você soubesse”.

Em 1988, ano em que o Brasil, derrotada a ditadura em 1985, e já respirando os ares da democracia tão duramente conquistada, promulga a Constituição Cidadã, que nos encheu de orgulho e esperança por seu caráter altamente progressista, Gonzaguinha brinda o povo brasileiro com um samba cuja letra sintetiza aspirações coletivas e individuais do cidadão brasileiro. O samba ´’É”, composto com certa ênfase impositiva, retratando a altivez de um povo que lutou para chegar até aquele momento e do qual foi extraído o título deste artigo, talvez seja um dos momentos mais importantes de síntese de sua obra.

É!

A gente quer valer o nosso amor

A gente quer valer nosso suor

A gente quer valer o nosso humor

A gente quer do bom e do melhor

A gente quer carinho e atenção

A gente quer calor no coração

A gente quer suar, mas de prazer

A gente quer é ter muita saúde

A gente quer viver a liberdade

A gente quer viver felicidade

……………………………………..…

É!

A gente quer viver pleno direito

A gente quer viver todo respeito

A gente quer viver uma nação

A gente quer é ser um cidadão

A gente quer viver uma nação

É, é, é, é, é, é, é!

Prezado leitor e prezada leitora, infelizmente o presente texto já extrapolou o que seria razoável para um artigo de jornal e fico sinceramente preocupado com o trabalho que dará ao editor, no entanto, a título de encerramento gostaria de mencionar apenas duas questões.

A primeira é sobre a importância de Luiz Gonzaga pai na vida do Luiz Gonzaga Jr. É ilusório achar que a vida dos dois foi um eterno conflito. Pelo contrário, o Rei do baião foi uma influência fundamental na vida do seu filho, que através desta influência conheceu o Brasil e viu o tamanho e a força do País em que nasceu e como o pai era querido e respeitado pelo povo. Segundo o próprio Gonzaguinha, assim ele descobriu que o Brasil não era só Rio e São Paulo.

Segundo depoimento de Gonzaguinha…”Ele teve uma fase em que fez músicas que para mim foram o início da coisa chamada protesto no Brasil, com Zé Dantas, um dos maiores letristas do Brasil”. E prossegue.. “Meu pai fez coisas da maior riqueza e também fez “A Marcha da Petrobrás”, ou uma música colocando a grandeza de Paulo Afonso…” 7

Em sua segunda entrevista para o Pasquim, realizada em 1990, um ano antes de seu trágico falecimento, Gonzaguinha explica que a imprensa aumentava as brigas. Diz que é coisa de pai e filho. Um sertanejo durão e um carioca durão do Morro do Estácio, e conclui: “Ele tinha tanta confiança em tudo que eu fazia por isso mesmo morreu colocando um sonho nas minhas mãos..” O sonho a que se refere era um Centro Cultural no Sertão. Hoje na cidade de Exu, no Parque Asa Branca, Pernambuco, existe o Museu do Gonzagão, que tem a maior coleção de peças do Rei do Baião.

A segunda questão a registrar é que recentemente foi lançado o documentário “Gonzaguinha: Da maior liberdade”, dirigido por Susanna Lira e premiado com o kikito de ouro no último Festival de Gramado. É um filme bastante fiel à vida de Luiz Gonzaga Jr e retrata bem sua trajetória. Embora de distribuição restrita, merece ser amplamente assistido.

Fiquei especialmente feliz por assisti-lo porque minha filha, Iara Cassano, faz uma participação especial, representando Odaléa, a mãe de Gonzaguinha, numa sequência de dança bem executada ao lado de Jeferson Bilisco.

Ao ver as imagens logo me veio à cabeça uma festa escolar no Colégio Pedro II no Humaitá, nos anos 90, exatamente da turma da Iara, então menina, onde a música escolhida para ser cantada pelas crianças foi “Sementes do Amanhã – Nunca pare de sonhar”, de Gonzaguinha, que é, antes de tudo uma celebração da vida e da luta.

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“Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs

Deixe a luz do Sol brilhar no céu do seu olhar

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá

Nós podemos tudo

Nós podemos mais

Vamos lá fazer o que será”

Gonzaguinha foi um compositor talentoso, muito brasileiro e inspirador de gerações que se formaram almejando e lutando por um Brasil soberano, democrático e feliz.

E vamos à luta!

Niterói, 28 de setembro de 2026

Irapuan Santos é presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB).

Notas

1 Gonzaguinha mais tarde homenagearia sua mãe com a bela composição “Odaléa, noites brasileiras”

2 Entrevista ao Pasquim, ano 1981/Edição 00621. https://memoria.bn.gov.br/ visto em 21.02.2026

3 Depoimento de Hélio Bicudo durante audiência pública realizada no dia 15 de outubro de 2014 na Assembleia Legislativa de São Paulo relembrando os principais pontos da investigação que deu origem ao livro “Meu depoimento sobre o Esquadrão da Morte”.

5 “Repressão Política: Origens e Consequências do Esquadrão da Morte”. Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” – Pag 13

VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. A aventura de uma geração. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1988. 15ª Ed. p. 162/163

6 CAMPOS, Cláudio. Por um Brasil Brasileiro – Esá nascendo um novo Brasil. Global. São Paulo/SP. 1985.

7 Entrevista ao Pasquim, ano 1881/Edição 00621.

Fonte: https://horadopovo.com.br/gonzaguinha-a-gente-quer-viver-uma-nacao/