O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tenta vender aos eleitores a imagem de que sua gestão teria conseguido acabar com a Cracolândia. Em vídeo exibido no horário eleitoral, o governador afirma que “o que diziam ser impossível” foi realizado e encerra a peça com uma frase categórica: “A Cracolândia acabou.”
A realidade, porém, é bem diferente da propaganda. O que as ações do governo conseguiram fazer foi retirar o chamado fluxo de seus antigos pontos de concentração e espalhar os usuários por diferentes regiões da capital. A própria propaganda de Tarcísio reconhece que ainda existem dependentes químicos pela cidade, enquanto tenta apresentar a dispersão como se fosse o fim do problema.
A crítica é feita, por exemplo, pelo sociólogo Marco Maia, conhecido como Marquinhos Maia, fundador do coletivo Pagode na Lata, que atua com cultura, geração de renda e redução de danos junto à população usuária de drogas. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirmou que “a Cracolândia não acabou” e denunciou uma política marcada por repressão, violência e dispersões forçadas.
Segundo Maia, a retirada dos usuários de um determinado ponto não resolve a dependência química nem garante atendimento. Ao contrário, apenas desloca o problema para outros lugares. “Espalham as pessoas da Cracolândia na porrada”, denunciou o sociólogo, acrescentando que os usuários passam a ser acompanhados para que não permaneçam em um mesmo local. Para ele, trata-se de uma política que dificulta a atuação de profissionais de saúde e assistência social.
O resultado dessa estratégia também aparece em vídeos utilizados na campanha de Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo. Em uma peça produzida repostada pelo candidato petista, a mensagem é direta: Tarcísio não acabou com a Cracolândia; espalhou o fluxo pela cidade. O vídeo cita registros de aglomerações em diferentes pontos, inclusive nas marginais Tietê e Pinheiros e em praças da Zona Leste.
Outro vídeo exibido na campanha de Haddad recorre a imagens e relatos de reportagens televisivas para mostrar a formação de novos pontos de concentração de usuários. A peça afirma que, depois das operações policiais, o fluxo se espalhou e passou a aparecer em diferentes bairros. Em determinado trecho, uma reportagem menciona cerca de 300 dependentes distribuídos por diferentes locais.
E não são apenas as imagens que mostram a mudança de endereço. No vídeo, moradores também relatam a presença dos usuários em novos pontos da cidade e os efeitos provocados pela dispersão. Um dos depoimentos chama atenção para o fato de que o problema teria ultrapassado os limites da capital e chegado a Diadema, no ABC paulista.
A diferença entre a propaganda e a vida real é justamente o foco central da denúncia. Fechar um ponto de concentração não significa acabar com o consumo de drogas, com o tráfico ou com a situação de abandono dos dependentes. Quando não há uma política de assistência, saúde, moradia e tratamento, o resultado é deslocar pessoas vulneráveis de um lugar para outro.
É o que a deputada Tabata Amaral também aponta em conteúdo utilizado na campanha eleitoral. “A Cracolândia acabou?” – questiona Tabata – para em seguida responder que não. Segundo ela, “ela não acabou, só se espalhou”. A parlamentar afirma ainda que, sem assistência do Estado e reféns do tráfico, os dependentes continuam abandonados, enquanto surgem “mini-Cracolândias” cada vez mais próximas das áreas residenciais.
A denúncia desmonta a principal operação de marketing da propaganda de Tarcísio: confundir o desaparecimento do fluxo de uma determinada rua com a solução de um dos mais complexos problemas sociais e de saúde pública da cidade.
A experiência relatada por Marquinhos Maia ajuda a entender o que está por trás da maquiagem eleitoral. O sociólogo participou do programa municipal De Braços Abertos, implantado na gestão Fernando Haddad e posteriormente extinto pelo seu sucessor João Doria. A iniciativa trabalhava com a perspectiva de oferecer moradia, acompanhamento e condições para que os usuários pudessem reconstruir suas vidas, em vez de simplesmente expulsá-los dos espaços públicos.
“Eu trabalhei nesse programa. As pessoas tinham um lugar para ficar, uma casa, um CEP”, relatou Maia. Para ele, a existência de um endereço permitia que profissionais de saúde e assistência social acompanhassem os usuários e construíssem, junto com eles, formas de tratamento e cuidado.
O contraste com a política atual é evidente. Segundo o sociólogo, a dispersão impede justamente a continuidade desse trabalho: “Tanto o assistente social, quanto os agentes de saúde não conseguem fazer o atendimento dessas pessoas, porque eles não sabem onde elas estão.”
Não se trata, portanto, de uma solução para a dependência química, mas de uma política de ocultação do problema. Nessa perspectiva, a ausência do fluxo em determinado ponto é apresentada como prova de que o problema deixou de existir.
Para Marquinhos Maia, não há como resolver a questão com operações policiais e dispersão. “A Cracolândia não acabou”, afirmou, criticando o que classificou como uma política de “tiro, porrada e bomba”. Na avaliação do sociólogo, o enfrentamento precisa envolver saúde, moradia e assistência social.
Fonte: https://horadopovo.com.br/tarcisio-diz-que-cracolandia-acabou-mas-fluxo-se-espalha-por-sao-paulo/

