O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comemorou o resultado do Estado no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 como o “melhor resultado” da história de São Paulo. O Estado alcançou 443 pontos em Ciências, 434 em Leitura e 404 em Matemática, acima das médias brasileiras de 409, 408 e 377 pontos, respectivamente.
Na esteira da comemoração de Tarcísio, o secretário estadual da Educação, Renato Feder, tratou de reforçar a mesma versão oficial. Em entrevista à rádio CBN, no dia 9 de setembro, classificou o desempenho como “histórico” e chegou a dizer que, se São Paulo fosse considerado um país, estaria à frente de nações como Israel, Grécia e Islândia. A fala reproduz a estratégia do governo de transformar os resultados do Pisa em vitrine para a gestão Tarcísio e para as políticas implantadas por Feder na Secretaria da Educação.
O Pisa é uma avaliação internacional que mede, entre estudantes de 15 anos, conhecimentos e habilidades em Ciências, Leitura e Matemática. Na edição de 2025, que teve Ciências como área principal, participaram cerca de 760 mil estudantes de 91 países e economias. No caso brasileiro, foram avaliados 30.140 alunos de 1.053 escolas.
PROPAGANDA ENGANOSA
A celebração dos números, porém, é contestada pelo presidente da Udemo (Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo), Francisco Antonio Poli, o Chico Poli. Em análise sobre a entrevista de Feder, ele questiona a forma como os resultados foram apresentados e chama atenção para a diferença entre o desempenho das redes pública e privada. Segundo dados citados por ele, a diferença em São Paulo chega a 48,5 pontos em Ciências, 52,4 em Leitura e 49,9 em Matemática.
Chico Poli também observa que, embora os resultados paulistas estejam acima da média brasileira, continuam abaixo das médias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que são de 482 pontos em Ciências, 461 em Leitura e 463 em Matemática. Os 443, 434 e 404 pontos obtidos por São Paulo, portanto, ficam abaixo dos parâmetros médios da organização nas três áreas.
Na avaliação do sindicalista, a valorização do Pisa por Feder ocorre depois de uma mudança de foco da Secretaria da Educação. O presidente da Udemo lembra que o secretário havia assumido a pasta prometendo colocar São Paulo na primeira colocação do Ideb e questiona a importância que passou a ser atribuída ao Pisa após os resultados do indicador. “Se São Paulo está tão bem assim, como explicar o recente naufrágio no Ideb?”, questiona. Os dados oficiais do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mostram que São Paulo teve variações positivas em 2025, embora permaneçam diferenças entre etapas e redes.
Feder atribui parte da ‘melhora’ paulista à reorganização das escolas, à mudança curricular, aos materiais pedagógicos e ao uso de tecnologia. Na entrevista, também relacionou a queda mundial dos resultados do Pisa à expansão dos smartphones e das redes sociais e destacou a restrição ao uso de celulares nas escolas.
O próprio secretário, contudo, reconheceu que a tecnologia precisa ser utilizada com moderação. “Você não pode nem não ter nada de tecnologia e nem entregar um monte de computador para as crianças sem sentido pedagógico”, afirmou.
É justamente nesse ponto que Chico Poli concentra parte de sua crítica. Ele afirma que a realidade da rede paulista está distante do uso “ponderado” descrito pelo secretário. “As plataformas de controle continuam ocupando mais da metade do tempo dos professores e dos gestores”, afirma. Ele ressalta que, redações, tarefas e outras atividades continuam sendo realizadas por meio de computadores e plataformas digitais.
O presidente da Udemo também critica a adoção de materiais padronizados. “Esse material pronto, acabado, cheio de erros, de uso obrigatório, engessou e travou o processo pedagógico”, afirma.
Outro ponto levantado por Chico é a meta anunciada por Feder de chegar a 20 milhões de redações produzidas pelos estudantes. O secretário explicou que a quantidade de textos exige o uso de inteligência artificial para fazer a correção. Chico questiona a prioridade dada ao volume em detrimento do acompanhamento pedagógico. “Os nossos alunos precisam escrever. Escrever, redação, redação, redação. Isso é essencial para o aluno aprender, para ele raciocinar, para ele colocar as ideias no papel.”
PLATAFORMIZAÇÃO E PERSEGUIÇÃO
Para o dirigente da Udemo, a expansão das plataformas também não pode ser dissociada do histórico empresarial de Feder. Antes de assumir a Secretaria da Educação, Feder foi empresário do setor de tecnologia e comandou a Multilaser por 15 anos. Durante sua gestão no governo paulista, contratos com empresas ligadas ao grupo foram questionados publicamente; Tarcísio afirmou, à época, que os contratos estavam dentro das regras, enquanto a empresa sustentou que não havia conflito de interesses.
Chico Poli faz uma crítica direta à transformação da tecnologia educacional em mercado. “Vender tecnologia de educação para o Estado, acompanhar o fluxo e obrigar o uso. E, como tecnologia puxa tecnologia, o mercado está garantido. No ano que vem, mais uma plataforma, depois outra, outra e outra”, denuncia.
A crítica à plataformização também aparece em manifestação da subsede da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) em Bauru. A entidade afirma que “nada disso se resolve despejando plataformas sobre professores e estudantes e transformando acesso, tarefa e porcentagem de conclusão em indicadores de ‘modernização’”. Para a entidade, em São Paulo, a tecnologia passou a ser associada a atividades padronizadas, metas de acesso, controle do trabalho docente e tarefas digitais obrigatórias. “Isso não é educação digital. É burocracia digitalizada”, afirma.
A Apeoesp também chama atenção para os próprios dados do Pisa sobre o uso de tecnologia. Segundo a entidade, estudantes brasileiros que relatam distração digital durante as aulas de Ciências apresentam desempenho médio 19 pontos inferior. “A escola precisa ensinar estudantes a dominar a tecnologia – e não ser dominada por ela”, defende.
O resultado do Pisa também expõe um problema que não se resolve com plataformas: a desigualdade social. Segundo os dados apresentados pela Apeoesp, os 25% dos estudantes brasileiros de maior nível socioeconômico obtiveram, em Ciências, desempenho 96 pontos superior ao dos 25% de menor nível socioeconômico. A diferença brasileira é maior que a média da OCDE, de 85 pontos.
CORTE ORÇAMENTÁRIO
O quadro da educação paulista também precisa ser analisado dentro das condições de financiamento da rede. No final de 2024, a Assembleia Legislativa aprovou a PEC 09/2023, apresentada pelo Executivo, que alterou a Constituição Estadual e reduziu de 30% para 25% da receita o percentual mínimo vinculado à educação, sob o pretexto de investir o restante na área da saúde.
Com a mudança, a gestão Tarcísio de Freitas reduziu o percentual mínimo de recursos constitucionalmente destinado à educação e passou a figurar como o governo que mais cortou recursos da área.
Segundo levantamento do Dieese citado pela Adusp (Associação de Docentes da Universidade de São Paulo), o orçamento da área passou de R$ 35,593 bilhões empenhados em 2025 para uma previsão de R$ 33,394 bilhões em 2026, uma redução de R$ 2,199 bilhões, ou 6,18%.
Vale ressaltar que os resultados do Pisa não podem ser lidos isoladamente nem atribuídos exclusivamente à engenharia tecnológica implantada pela atual gestão. A rede paulista chega a essa avaliação após diferentes administrações e políticas educacionais, enquanto Tarcísio e Feder procuram associar os números às medidas adotadas desde 2023. Os resultados mostram, de um lado, melhora em relação às médias anteriores e, de outro, a permanência de uma distância em relação à média da OCDE, além das desigualdades socioeconômicas e das condições concretas de funcionamento das escolas.
É nesse contexto que Chico Poli contesta a celebração feita pelo governo e a transformação do Pisa em vitrine para às pretensões eleitoreiras de Tarcísio, candidato do bolsonarismo à reeleição. Para ele, o desempenho dos estudantes não pode ser separado das condições de ensino, da valorização dos professores, da estrutura das escolas e dos efeitos da plataformização sobre o trabalho pedagógico. A avaliação também aparece na manifestação publicada pela Udemo em sua página oficial na internet, que questiona diretamente a forma como o governo apresenta os resultados do exame.
“Cuidado! Propaganda enganosa! SP 2º lugar no Pisa. A verdade: SP, 43º lugar no Pisa, declarado pelo próprio secretário da Educação”.
Fonte: https://horadopovo.com.br/tarcisio-mente-sobre-indices-para-esconder-desastre-na-educacao-em-sao-paulo/


