De segunda a sábado difícil, domingo fácil: 8 lições de Tom Brady sobre alta performance

No segundo dia do IFS Unleashed 2026, em Orlando*, nos Estados Unidos, o palco recebeu alguém acostumado a decidir jogos sob pressão. Tom Brady, sete vezes campeão do Super Bowl ao longo de 23 temporadas na NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, sentou-se com o apresentador britânico Jake Humphrey para uma gravação ao vivo do High Performance Podcast. Era o encontro mais pedido pelo público de um programa que, segundo Humphrey, chega aos sete anos com cerca de 500 conversas e 250 milhões de visualizações.

A conversa não falou de software. Mirou performance. E boa parte do que Brady contou serve para qualquer executivo que tenta tirar mais de uma operação, de um time ou de si mesmo. Abaixo, os principais aprendizados.

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1. Alta performance é sustentar, e não acertar uma vez

Para Brady, performance é estar preparado física, mental e emocionalmente para quando o momento chega, “seja um jogo, uma final de campeonato ou uma reunião de negócios”. Alta performance é outra coisa. “Muitos conseguem fazer algo muito bem uma vez, duas vezes. Mas como continuar buscando a sua performance de elite todos os anos? Isso, na minha opinião, é performance de elite de verdade”, afirmou.

A régua, segundo ele, é pessoal. “Existe uma pessoa que você sempre precisa tentar servir e agradar, e é a que olha de volta para você no espelho toda manhã”, disse. “Suas ações refletem suas prioridades. Se a sua prioridade é a performance de elite, existe um conjunto de ações, e não só de palavras, que você precisa cumprir todos os dias.”

Brady admitiu que nem sempre foi assim. No começo da minha carreira, suas ações não refletiam isso. “Tive de mudar esses comportamentos ao longo do tempo.” Parte da mudança, contou, veio de acordar para a própria realidade. A outra parte veio das “pessoas certas entrando na minha vida no momento certo”.

Perguntado sobre o que significa alta performance, resumiu: “Dar o seu melhor todos os dias e tentar ter orgulho da pessoa que olha de volta para você no espelho.” O poema “The Man in the Glass”, sobre essa ideia, continua escrito na parede do banheiro dele.

2. Faça do treino o jogo

A história mais marcante da conversa foi lembrada a partir de um acontecimento em 1996, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Brady chegou à faculdade como o sétimo quarterback na fila do time. Filho caçula, com três irmãs mais velhas, se descreveu como um garoto mimado. “Minha mãe ainda acha que eu nunca fiz nada de errado na vida”, brincou. No segundo ano, ainda longe de ser titular, começou a culpar os outros. “Não é culpa sua, Tom. É culpa deles. É culpa do técnico, que não reconhece o quanto você é talentoso.”

Foi quando o psicólogo do esporte Greg Harden, que morreu no último ano e se tornou mentor de Brady por toda a carreira, o chamou para encontros semanais. O primeiro deles foi direto. “É melhor você parar de reclamar e de choramingar de todas as coisas que não estão saindo do seu jeito. E é melhor começar a focar em todas as coisas que estão”, contou Brady, imitando o mentor. A instrução seguinte mudou tudo: tratar cada treino como um jogo. “Se você lançar um touchdown no treino, vai comemorar como se tivesse lançado contra Ohio State”, ordenou Harden, referindo-se ao grande rival de Michigan.

Brady obedeceu. Passou a correr para comemorar cada passe completado com o recebedor. Os outros recebedores entraram na festa, depois os jogadores da linha. “Eu lançava um touchdown qualquer no treino e tinha 11 caras na end zone comemorando”, lembrou. Colegas e técnicos perceberam, os jogadores passaram a querer jogar com ele e Brady começou a subir na disputa pela posição. “Eu tratei o treino como um jogo pelos 27 anos seguintes.”

Brady criticou atletas que querem uma semana confortável e chegam despreparados ao dia do jogo. “Eles aparecem no domingo, apanham, e o domingo é horrível. Mas culpam o juiz e o técnico”, disse. “A minha visão era: vamos tornar de segunda a sábado difícil para que o domingo seja fácil.”

É por isso, explicou, que parecia tão calmo diante de 70 mil pessoas que assistiam aos seus jogos presencialmente. “Por que o Tom parece tão no controle? Por que nada parece incomodá-lo? Porque não incomodava. Porque de segunda a sábado tinha sido difícil”, indicou.

Ele próprio fez a ponte com o mundo corporativo. “Quando se vai para uma grande reunião, uma grande conferência, é melhor praticar para aquele momento, e não esperar ele acontecer”, afirmou. “Você treina para que 90% do que você faz seja memória muscular, e 100% do seu cérebro possa focar nos 10% de nuance”, completou.

3. Fracasso não é o contrário de sucesso

Brady se descreveu como alguém que acorda “mais 2 pontos feliz” todos os dias. “Não mais 5, nem menos 2”, explicou. E admitiu que boa parte do sucesso veio de ser “um pouco delirante, ingênuo e otimista”. “Eu não percebia todos os desafios que existiam à minha frente”, disse.

Os exemplos arrancaram risadas. No ensino médio, recusava-se a preencher formulários de faculdade porque tinha certeza de que ganharia uma bolsa. Ao terminar a universidade, esperava ser escolhido na segunda ou terceira rodada do draft. “Afinal, todo mundo devia ter visto como eu era incrível”, ironizou. Saiu na sexta rodada e chegou aos Patriots como o quarto quarterback de um time que costumava manter dois. Mesmo assim, duas semanas antes dos cortes finais, ligou para o agente dizendo que queria comprar uma casa. “Ele perguntou: dá para entrar no time primeiro?”, lembrou.

Para Brady, o otimismo só funciona combinado com a disposição de errar. Ele citou uma frase atribuída a Thomas Edison, guardada no celular: “Eu não fracassei. Só encontrei mil maneiras que ainda não funcionaram.” E completou: “Tentamos muitas coisas na vida que não funcionam. Não acho que isso seja fracasso. Acho que é sucesso, porque sem esses fracassos a gente não se torna quem é”.

4. Pare de culpar os outros

Como comentarista da Fox, Brady acompanha jogos toda semana e diz enxergar uma diferença nas novas gerações de atletas. “Eles ainda não enfrentaram suas lutas. Não superaram seus fracassos”, afirmou. “Muitas vezes, nós, pais e técnicos, nem deixamos as crianças fracassarem de um jeito que ajude a construir o caráter delas. E quando fracassam, querem culpar todo mundo”, reforçou.

Ele contou que assiste às entrevistas coletivas depois das derrotas só para ver como os jogadores reagem. “Eu balanço a cabeça e penso: o que estamos fazendo?”, disse. “Perde um jogo, culpa o juiz. Perde um jogo, culpa o técnico. Perde um jogo, culpa o clima. Como você vai crescer se quer colocar seus fracassos nos outros?”, questionou.

Para ele, a cultura de proteger as pessoas do fracasso “só faz você andar para trás no longo prazo”. E as redes sociais pioram o cenário, ao permitir que qualquer um dispare críticas anônimas para envergonhar quem errou. “As pessoas nesta sala deveriam ajudar a construir os outros. Não deveríamos atacar quem está fracassando, porque sabemos que o fracasso, se usado do jeito certo, pode virar algo positivo na vida das pessoas.”

Não por acaso, entre os três comportamentos que considera inaceitáveis, citou “colocar a culpa em outra pessoa”, ao lado do egoísmo e de não aproveitar o próprio potencial.

Em casa, com três filhos de 19, 16 e 13 anos, ele diz ter dobrado a aposta nos últimos dois anos, sem livrar ninguém das lições que precisam aprender. Quando o filho de 16 anos pediu para ir a um festival de música em Miami, Brady pediu dois argumentos: por que ele deveria ir e o que preocuparia um pai ao ouvir aquele pedido. “O importante é ter essa conversa”, disse.

5. Dois terços da performance estão entre as orelhas

Perguntado sobre o peso do talento físico, Brady dividiu a performance em três partes iguais: física, mental e emocional. “O que basicamente está entre as suas orelhas responde por dois terços”, resumiu. “Seu corpo só leva você até certo ponto.”

O próprio draft dele prova o argumento. O relatório dos olheiros, lembrou, dizia: “Magro, fraco demais. É derrubado com facilidade demais. Não consegue lançar a bola longe.” O que ninguém mediu foi o resto. “Como avaliar em uma ou duas reuniões o quanto alguém é obcecado pelo que quer fazer, o que superou até ali, o quanto é competitivo e disciplinado para tomar as decisões certas todos os dias?”, indicou.

Daí vem a importância do time. “Eu não sei tocar um instrumento. Não sei dançar. Não sei cantar. Não sei ler uma planilha muito bem”, listou, para risos da plateia de executivos. “Em um negócio, você se cerca de pessoas mais talentosas no que precisa que elas sejam talentosas. E aí todo mundo tem papéis e responsabilidades.” A maior alegria que teve no esporte, disse, foi “vencer pelos outros e eles vencerem por mim”.

Já veterano, aos 45 anos, cercado de jogadores de 21 e 22, fazia questão de dar o primeiro passo. Chegava para o novato e dizia: “Oi, tudo bem? Eu sou o Tom Brady.” A resposta costumava ser um palavrão de espanto. “Eles fazem de você uma figura mítica, quando no fim eu sou só um quarterback tentando fazer o meu trabalho, e preciso que eles façam o deles”, contou arrancando risos da plateia.

6. Gostar não basta

Brady descreveu uma escala de cinco níveis de envolvimento com o trabalho. Você faz algo porque é pago, porque é bom nisso, porque gosta, porque ama ou porque é obcecado. “Se você é obcecado, vai fazer o que for preciso”, disse. “Vai lidar com uma lesão de ligamento, como eu lidei. Vai lidar com o jornal dizendo que você é ruim e que deveriam te demitir. Vai lidar com treinos às 6h da manhã enquanto todo mundo está dormindo”, orientou.

Foi a obsessão que o fez trocar o beisebol pelo futebol americano. Na escola de Barry Bonds, na Califórnia, Brady era um jogador de beisebol melhor do que de futebol americano e chegou a ser escolhido no draft profissional, com uma oferta generosa. Recusou. “Eu escolhi a coisa que seria um grande desafio para mim. E esse desafio trouxe à tona algumas das melhores coisas em mim”, lembrou.

7. Mire na perfeição, aceite a excelência

Em cerca de 400 jogos, Brady calcula ter sido perfeito “talvez três ou quatro vezes”. “Um por cento”, disse. “Se eu miro na perfeição e só chego lá 1% das vezes, mas, quando não chego, atinjo a excelência, isso ainda é muito bom.” A conta inversa também vale. Quem aceita quatro ou cinco passes errados no melhor treino da semana vai ser, na melhor hipótese, mediano no jogo.

Nem todo dia, admitiu, ele acorda “mais 2”. O filho mais velho, que joga basquete em Boston, ligou na véspera reclamando de um treino ruim. “Eu disse: isso é o esporte. Você não vai estar no seu melhor todos os dias.” E a vida pessoal atravessa tudo. Em 2013, depois de uma virada histórica em que metade do estádio já tinha ido embora, voltou para casa celebrando, e o filho Benny, então com quatro anos, passou mal no banco de trás. “Isso é a vida. Ela vem para cima de você e você não sabe o que esperar”, disse.

Também é preciso saber comemorar, mas sem exagerar no tempo. “É importante sentir o perfume das rosas e dar crédito a si mesmo pelo que fez”, assinalou. “Mas, se você ainda quer conquistar mais, é importante voltar ao trabalho, porque o concorrente que perdeu na semana anterior não está se dando tapinhas nas costas.”

8. Esteja disposto a ser iniciante de novo

“Eu não me aposentei. Eu terminei”, disse Brady sobre o fim da carreira, aos 45 anos. A intensidade, segundo ele, apenas mudou de direção. Na Fox, ele é parte de um time de transmissão. Como sócio do Birmingham City, clube de futebol inglês, virou mentor de atletas e técnicos. A transição começou a ser preparada em 2013 e 2014, quando abriu um negócio de bem-estar com o amigo e preparador físico Alex. “Ser uma família é um esporte de equipe. Estar em um negócio é um esporte de equipe”, afirmou.

O conselho para quem muda de papel é aceitar voltar ao começo. “Você vai ser iniciante de novo em muitas coisas. Muita gente tem anos de vantagem”, comentou, olhando para a plateia. “Não vou tentar competir com vocês sabendo que têm duas décadas de vantagem. A pergunta é: que papel eu posso ter para que o negócio de vocês cresça de um jeito que não cresceria sem mim?”.

Ao jovem Tom, diria apenas para “pegar um pouco mais leve consigo mesmo às vezes”. E o melhor conselho que já recebeu poderia estar na parede de qualquer sala de reunião que discute inteligência artificial (IA) hoje. “Se tudo o que você gosta de fazer é tudo o que você sempre fez, tudo o que você vai conseguir é tudo o que você sempre conseguiu.”

Brady encerrou separando diversão de gratificação. “As pessoas perguntam: no futebol americano, isso não é divertido? E eu digo: às vezes não é. Na verdade, na maior parte do tempo não é”, afirmou. “Se vocês querem diversão, há muitos parques temáticos aqui em Orlando.” O que o esporte dá, segundo ele, é outra coisa. “A gratificação de fazer algo muito difícil. De olhar para trás e pensar: fiz algo que nem eu achava que conseguiria”, encerrou ele.

*A jornalista viajou a convite da IFS

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/8-licoes-tom-brady-sobre-alta-performance/