Agentes em equipe e humanos no comando são a aposta da IFS para gerar resultados

Ter os dados e conhecer a fundo a operação dos clientes coloca a IFS em vantagem na corrida da inteligência artificial (IA), mas não garante o próximo ciclo de crescimento. A avaliação é de Matt Kempson, COO dos negócios de IA da companhia, para quem a tecnologia é, ao mesmo tempo, oportunidade de expansão e pressão para acelerar investimentos. E nessa equação, a aposta tem sido a soma de agentes de IA e humanos.

“O cenário de tecnologia mudou por completo há dois anos e meio. Percebemos cedo que quem tem esse nível de dados e de contexto está em uma posição muito forte”, disse ele, em entrevista ao IT Forum durante o IFS Unleashed 2026, em Orlando*, nos Estados Unidos. “Mas também entendemos que, sem investir direito, não manteríamos o ritmo de crescimento”, completou.

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A pressão vem, sobretudo, de quem compra. “Pessoas não querem mais comprar produtos. Querem comprar resultados”, resumiu. Em setores nos quais um erro significa máquina parada ou avião no chão, entregar resultado exige mais do que um bom modelo de linguagem. Para Kempson, depende de juntar contexto, controles e IA.

Foi essa leitura que levou a IFS, fundada na Suécia em 1983 e hoje com sede em Londres, a montar nos últimos anos uma espécie de holding de IA dentro de casa. Ela reúne a Nexus Black, unidade que desenvolve soluções lado a lado com os clientes, a IFS Loops, nascida da compra da startup de agentes TheLoops, e a operação de logística, reforçada com a aquisição da britânica 7bridges.

Kempson está na IFS desde 2018, e responde hoje por todos os negócios de IA da companhia. “Todas as decisões sobre quais empresas compramos, que lideranças trazemos, como estruturamos, como vamos ao mercado e como empacotamos as ofertas passam por essa área”, contou.

Ele admitiu que o caminho não foi simples. A IFS investe em seis ou sete frentes ao mesmo tempo e, às vezes, testa abordagens que competem entre si. “Tivemos de ser muito honestos com os clientes. Haverá momentos em que vamos fazer testes A/B de capacidades diferentes, porque não sabemos exatamente para onde a tecnologia vai”, explicou. “Enquanto formos transparentes, eles topam a jornada.”

Há, porém, um limite. “Existem coisas que não negociamos, e a confiança na IA é uma delas”, afirmou. “Se não tiver uma visão muito séria sobre segurança, permissões, humano no circuito e governança dos agentes, perde o direito de operar em um ambiente industrial.

Trabalhador digital, na prática

Uma das peças dessa estrutura é a IFS Loops, unidade comandada por Somya Kapoor. Ela fundou a TheLoops, startup do Vale do Silício, nos Estados Unidos, comprada pela IFS em 2025, depois de passar por SAP, ServiceNow e Microsoft. Ao IT Forum, ela explicou a diferença entre os tantos “agentes” que o mercado vende hoje e o que a IFS chama de trabalhador digital.

“Existem agentes de tarefa, existem agentes orquestrados. Desenhamos o trabalhador digital dentro de um fluxo de ERP e de gestão do ciclo de vida de ativos”, sintentizou. Cada um resolve um pequeno processo e entrega valor rápido. O ponto, segundo ela, é que eles se somam. “É possível combinar um repositor de materiais com um gerente de compras e, depois, com o contas a pagar. Começa em um ativo que precisa de uma peça e termina no financeiro”, indicou.

Para reforçar seu ponto de vista ela citou a Kodiak Gas Services, operadora norte-americana de compressão de gás natural. Na empresa, cada ordem de serviço levava de 15 a 30 minutos para chegar até o pedido da peça, e eram cerca de 7 mil ordens por mês. Com o agente que localiza e compra peças, a empresa registra ganho de 85% de eficiência nessas transações.

Na Eight Group, empresa britânica de manutenção predial, um agente lê os e-mails de chamados que chegavam à caixa de entrada e eram digitados manualmente como ordem de serviço. A economia estimada é de cerca de 1,3 mil horas por mês em uma única unidade, e o grupo tem cinco unidades nessa situação. Um segundo agente, recém-implantado para processar cerca de 30 mil faturas de fornecedores, deve gerar perto de 1 milhão de libras por ano em economia, segundo Somya. Na KLN, o ganho de eficiência chega a 60%. “Em cada um desses cenários, há duas ou três pessoas cuidando de uma caixa de entrada. Dá para economizar até 80% das horas de trabalho”, observou.

Humano no circuito

Os números levam à pergunta inevitável. Questionada sobre um dado da pesquisa divulgada pela própria IFS no evento, segundo a qual só 4% das empresas exigem supervisão humana obrigatória sobre decisões tomadas com apoio de IA, Somya respondeu pelo lado da regulação. “Estamos em setores altamente regulados. Em óleo e gás, em finanças, a regulação exige uma pessoa olhando esses agentes”, disse. “As pessoas se sentem ameaçadas, acham que vão perder o emprego. Isso não é verdade.”

Ela não romantizou. “Eu estaria mentindo se dissesse que não dá para automatizar parte do back office. Dá. Mas você sempre vai precisar de um humano para tratar as exceções”, afirmou. A aposta dela é em um mundo de agentes e pessoas trabalhando juntos, com novas funções surgindo para monitorar quem trabalha 24 horas por dia. “Como se constrói o tratamento de exceções, os limites, o plano, a gestão de memória? Vão surgir muitas oportunidades e novos empregos para gerenciar esses agentes.”

A disciplina vem do próprio desenho do produto. Somya contou que, depois da compra, a IFS manteve a Loops como unidade de negócio independente para preservar a velocidade, e que cada trabalhador digital é desenvolvido com um cliente antes de ser oferecido aos demais. A prioridade foi torná-los determinísticos. “Responder perguntas e buscar informação é relativamente fácil. Dá para errar e tudo bem”, explicou. “Mas no ERP uma fatura precisa ser processada corretamente. Se não for, alguém vai ligar.”

Quem constrói esses agentes também está mudando. No middle market, segundo ela, a área de TI desenvolve e o negócio passa os requisitos. Nas grandes empresas, a tendência é o inverso: o negócio constrói, e a TI cuida de governança, segurança e monitoramento.

Para Kempson, é nessa combinação que está o diferencial em um mercado em que toda empresa de tecnologia vende agentes. “Existem ótimos agentes de produtividade no mercado, e as pessoas devem usá-los. Mas agentes de verdade precisam executar um fluxo inteiro. E eles têm o contexto por baixo?”, provocou.

Ele recorreu a um exemplo simples. Um fabricante de mesas compra o mesmo parafuso de fornecedores diferentes, cada um com um código. “Se a IA não entende que é materialmente a mesma coisa, só de outro fornecedor, ela pede outra caixa. De repente, seu armazém está cheio de caixas”, disse. “Você não confiaria a sua vida a um modelo de linguagem que usamos no dia a dia. Do mesmo jeito, não dá para confiar o seu negócio a uma tecnologia probabilística”, refletiu.

Kempson citou estudos recentes da Cisco e da McKinsey para descrever o momento do mercado. No ano passado, menos de 20% das empresas diziam ter ao menos um caso de IA industrial em produção. Neste ano, são cerca de 60%. Mas só 20% afirmam ter algo maduro e em escala. “Não acho que seja coincidência”, disse. Para ele, muitas empresas testaram, compraram e construíram por conta própria, e agora procuram fornecedores em que possam confiar cada processo crítico. “As startups não estão ganhando tanta participação. Ou viram scale-ups, ou ficam pelo caminho. E os clientes têm medo de ficar presos a um único fornecedor monolítico.”

O que vem a seguir

Nos próximos meses, Kempson prevê duas mudanças importantes no mercado de IA. A primeira é a escala. “Hoje, temos algumas dezenas de fluxos de trabalho transformados em agentes. Vamos ver isso virar centenas”, afirmou. A segunda é regulatória. “O ambiente regulatório vai mudar e vai ficar mais difícil para startups e para empresas que privilegiaram velocidade em vez de controle”, apostou.

Ele também apontou a cadeia de suprimentos como a maior oportunidade, e a mais subestimada. Citou o Estreito de Ormuz e as novas rotas marítimas que se abrem no Ártico como exemplos de risco e de mudança. “Não há muitas empresas que tenham tanto as operações de supply chain quanto, principalmente, o fio financeiro para entender quando o dinheiro entra e sai”, disse. “Tudo vai migrar para precificação por resultado. Quão rápido você faz? Quão rápido você entrega? Quanto dinheiro consegue colocar no banco?”, questionou.

Somya fechou a conversa com um conselho que vale para qualquer empresa, e não só para clientes da IFS. “Nas grandes empresas, todo mundo está esperando o momento perfeito, o dado perfeito, o processo perfeito. É mais sobre simplesmente começar”, apontou. “Não precisa nem ser com a IFS. Pode ser com qualquer um.”

Defensora da presença de mulheres em IA, ela foi questionada sobre o que as empresas deveriam fazer para atrair mais mulheres para o desenvolvimento de agentes. A resposta foi além da questão de gênero. “Estamos em um momento como a passagem do cavalo para o motor. O que funcionava antes não funciona mais”, afirmou. “Quem aprender essa habilidade mais rápido vai ganhar muito dinheiro. É estabilidade no emprego para a vida toda”, finalizou ela.

*A jornalista viajou a convite da IFS

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/agentes-humanos-comando-ifs-resultados/