Ânima inclui IA na esteira do aluno e colhe resultados em cobrança e atendimento

Na Ânima Educação, a estratégia de inteligência artificial (IA) acompanha o percurso do aluno: da matrícula à formação, do atendimento ao pagamento. Batizado de Nova Esteira do Aluno, o programa reúne quatro frentes — Matrícula Mais, Educa Mais, Soluciona Mais e Recebe Mais — e tem a ambição de gerar ganhos de eficiência e contribuir para os resultados do negócio. A companhia não divulga projeções de impacto financeiro. À frente da iniciativa está Bruno Machado, vice-presidente de Transformação Digital do grupo, e finalista do prêmio Executivo de TI do Ano 2026, do IT Forum.

A simplicidade da mensagem, uma esteira, quatro frentes, foi uma escolha para mobilizar a organização. Os vice-presidentes de marketing e vendas, atendimento, finanças e educação tornaram-se copatrocinadores do programa, dividindo a responsabilidade pelas entregas. “Para comunicar uma ambição, é preciso ser simples”, indica Machado.

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Os primeiros resultados vieram de áreas distintas. No Recebe Mais, frente de cobrança, modelos preditivos de inadimplência e a comunicação direta com o estudante permitiram à Ânima recuperar internamente o mesmo que os escritórios terceirizados, que ficavam com 2% do valor recuperado.

A companhia encerrou esses contratos e eliminou uma despesa de alguns milhões de reais por ano. A empresa descreve a frente como uma combinação de disciplina financeira e cuidado com a continuidade dos estudos: a proposta é melhorar a recuperação de valores e reduzir os custos da cobrança com uma abordagem que considere a realidade de cada estudante e facilite a regularização de sua situação. No atendimento, a troca dos menus do WhatsApp por uma interface conversacional elevou de 30% para 45% a parcela de demandas resolvidas sem atendente humano em uma das marcas, usada como piloto. A meta, agora que a solução será levada a todas as instituições do grupo, é chegar perto de 90%.

Professor com a caneta

No Educa Mais está a IA.RA, família de cerca de 20 funcionalidades de IA para alunos e professores, disponível no Ulife, o ambiente digital de aprendizagem da Ânima. Essas funcionalidades aparecem como “botões mágicos”: o professor escolhe se quer, por exemplo, gerar uma questão de prova ou corrigir uma avaliação com apoio da tecnologia, analisa as sugestões e mantém a decisão final. O desenho responde à cautela do órgão regulador com o uso de IA em avaliações e preserva a decisão humana. “Não automatizamos de ponta a ponta algo de que o professor é o dono. Ele tem a caneta”, assinala.

Com o controle nas mãos, mais de 80% dos quase 6 mil docentes optam pelo recurso, e, em mais da metade dos usos, revisam o conteúdo gerado. Outro indicador é o volume de material. Segundo Machado, mais de 25 mil objetos de aprendizagem, como apresentações e documentos para sala de aula, já foram produzidos pelos professores na IA.RA Creators. A diferença em relação às ferramentas públicas é que a plataforma incorpora a matriz curricular, as diretrizes acadêmicas e os requisitos regulatórios do Ministério da Educação (MEC) e verificações como a distribuição do conteúdo pela carga horária da disciplina e pelos momentos de interação com os estudantes. Mais do que o volume de produção, a companhia afirma acompanhar como a tecnologia se incorpora à prática docente, com a ambição de ampliar a personalização da aprendizagem e preservar a relação humana que sustenta a educação.

O próximo passo é encadear essas funcionalidades em ciclo fechado. O aluno faz a prova, recebe um feedback individualizado e, a partir das lacunas identificadas, a IA.RA produz um conteúdo de reforço específico, revisado pelo professor e entregue no chat do Ulife. “Todas as peças já existem. O trabalho agora é orquestrá-las. Não havia como escalar um professor particular para 400 mil alunos, mas desse jeito é possível”, explica.

A frase que mata ideias

Para aproximar as áreas de negócios da tecnologia, a Ânima criou uma edição do programa interno de inovação Elevar dedicada à IA. Os grupos propõem projetos com business case, que precisam reforçar a Nova Esteira, e recebem treinamento e licenças.

Quase 300 colaboradores têm hoje acesso ao Claude, com crédito inicial de US$ 100 direcionado a esses projetos. O direcionamento tem motivo. Machado cita pesquisa da McKinsey segundo a qual 80% das pessoas relatam ganho de produtividade com IA em suas rotinas, mas apenas 37% das empresas conseguem atribuir à tecnologia algum ganho no resultado do ano. “O Elevar é a ponte entre a produtividade individual e o que conseguimos medir na Nova Esteira”, indica.

O processo também mudou a postura da própria TI. A consultoria responsável pelos treinamentos levantou as dez frases que matam uma ideia na companhia. A primeira da lista saía da área de tecnologia: “isso já está sendo feito”. A equipe pactuou abandoná-la. “Dizer que já estamos fazendo me parece uma desculpa elegante para não fazer nada. O time de tecnologia não é o único especialista na sala e talvez nem seja o especialista da sala”, reconhece.

Cobrança que vem do topo

A governança chega ao conselho de administração, cujos membros passaram pelo mesmo letramento dos executivos. No Comitê de Pessoas, João Senise acompanha a prontidão da organização para adotar IA, e é dele a síntese que Machado repete: não se trata de uma estratégia de IA, mas de uma estratégia de negócios em um mundo impactado por IA. Com o Comitê de Auditoria e Risco foi definida a política de ciberdefesa, depois que a empresa submeteu a própria infraestrutura a ataques simulados com modelos de código aberto, identificou vulnerabilidades e as corrigiu, também com IA.

A pressão por resultado parte da presidência. Segundo Machado, o impacto mapeado para 2027 triplicou em uma semana, depois que a presidente do Grupo Ânima, Paula Harraca, escreveu e ligou para cada patrocinador do programa pedindo novos ganhos com IA. Os resultados de 2026, afirma, estão acima do previsto. “É uma prioridade da Ânima, não da área de tecnologia da Ânima”, resume.

Para 2027, a prioridade da área é consolidar a esteira agêntica de desenvolvimento de software, em operação há três meses. O orçamento já parte de um Capex de tecnologia 15% menor para as mesmas entregas, e a intenção é levar depois o modelo a outras esteiras, como backoffice, recrutamento e finanças. O executivo lista os desafios que acompanha: o regulatório, o de ciberataques e o de execução.

Machado evita medir maturidade pela quantidade de agentes, erro que compara ao de contar squads no início da transformação digital, há dez anos. A Ânima deve fechar o ano com consumo de tokens mais de 20 vezes superior ao de 2025, mas o indicador que importa é outro. “Temos menos de cem casos de uso, mas são casos profundos. O que buscamos é resultado de negócio”, afirma. Um relatório do UBS sobre cinco grupos de educação listados em bolsa colocou a companhia em boa posição, e a leitura interna se concentrou nos dois pontos em que ela ficou atrás da concorrência. O atendimento é um deles: há quem já resolva 90% das demandas com tecnologia.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/anima-aluno-ia-resultados-2/