Bets fora do ar podem levar profissionais de tecnologia a outros setores

A retirada das plataformas de bets do ar no Brasil pode abrir um movimento de recolocação de profissionais de tecnologia em setores como bancos, fintechs, meios de pagamento e varejo digital. Especialistas em desenvolvimento de software, cibersegurança, dados e infraestrutura estão entre os perfis com competências aproveitáveis por outras empresas, segundo Alexandre Benedetti, diretor-geral da LANDtech, especializada em recrutamento de profissionais de tecnologia e negócios digitais.

A interrupção das operações começou em 6 de outubro, em cumprimento à Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no País. O tamanho do impacto sobre os empregos, entretanto, ainda é desconhecido.

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Segundo Benedetti, a possibilidade de recolocação depende de fatores como a estrutura das empresas de apostas, a experiência dos trabalhadores e a manutenção da interrupção das atividades. “Uma empresa pode movimentar um grande volume de apostas no Brasil sem manter aqui uma equipe de tecnologia proporcional à sua operação”, explica.

A avaliação ocorre em um mercado que continua projetando contratações. A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) estima a criação de 33 mil empregos formais no macrossetor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) em 2026.

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Quais profissionais das bets podem encontrar oportunidades?

Entre os perfis associados às operações de apostas estão desenvolvedores de software, especialmente de sistemas de retaguarda (back-end) e integrações, engenheiros e analistas de dados, especialistas em cibersegurança e profissionais de computação em nuvem, infraestrutura e confiabilidade de sistemas.

Benedetti também cita profissionais de testes de software, produto digital e experiência do usuário. Outra frente envolve prevenção a fraudes, verificação de identidade e integração com meios de pagamento.

Essas atividades, porém, não são exercidas exclusivamente por trabalhadores de tecnologia. Parte delas também envolve profissionais de risco, operações e conformidade regulatória (compliance).

Para o executivo, o principal diferencial está na experiência com sistemas que precisam processar transações rapidamente, suportar picos de acesso e manter segurança e disponibilidade. Arquitetura de sistemas, processamento de dados, integração de pagamentos, monitoramento de aplicações e resposta a incidentes estão entre os conhecimentos que podem ser aproveitados em outras operações digitais. A experiência é especialmente relevante para empresas que enfrentam desafios tecnológicos semelhantes aos das plataformas de apostas.

Fintechs e bancos estão entre os possíveis destinos

A experiência adquirida em operações de apostas pode encontrar aplicação em outros segmentos da economia digital. Para Benedetti, a proximidade entre os desafios tecnológicos das empresas ajuda a identificar os setores com maior potencial de absorção desses profissionais.

“Fintechs, bancos, meios de pagamento e varejo digital são destinos naturais pela proximidade dos desafios: transações, proteção de contas, prevenção a fraudes, análise de comportamento e disponibilidade de serviços”, afirma ele.

As oportunidades não se restringem ao setor financeiro. Seguradoras, plataformas de comércio eletrônico, empresas de mobilidade e logística, desenvolvedoras de software e fornecedoras de serviços de segurança e infraestrutura também podem aproveitar essas competências.

A possibilidade de transição, entretanto, não significa que a recolocação será imediata. Mesmo em áreas com demanda por profissionais especializados, as contratações dependem das condições de cada empresa e da experiência dos candidatos. “Demanda por determinadas competências pode coexistir com processos seletivos mais rigorosos, restrições de orçamento e menor disponibilidade de posições de liderança”, explica Benedetti.

Nesse cenário, profissionais com experiência comprovada em engenharia de software, segurança, dados e infraestrutura crítica tendem a encontrar condições mais favoráveis. Conhecimento de inglês, atualização técnica e flexibilidade quanto ao setor e ao modelo de trabalho também podem ampliar as alternativas de recolocação.

Tecnologia projeta 33 mil novos empregos formais

A Brasscom projeta a criação de 33 mil empregos com carteira assinada no macrossetor de TIC ao longo de 2026. Desse total, cerca de 23 mil devem surgir nas atividades tradicionais de tecnologia, como software, serviços, nuvem e equipamentos. Outros 8,2 mil postos estão previstos em funções de tecnologia dentro de empresas de diferentes setores, enquanto telecomunicações responde por aproximadamente 2,3 mil.

O presidente-executivo da Brasscom, Affonso Nina, afirma, em entrevista ao IT Forum, que o Brasil mantém uma procura contínua por profissionais de tecnologia, tanto nas empresas especializadas quanto em organizações que utilizam intensivamente sistemas digitais.

Ele cita os setores financeiro, comércio, serviços e indústria, além de competências em desenvolvimento de software, cibersegurança e inteligência artificial (IA). “Profissionais, venham de onde venham, que tenham conhecimento e experiência nessas áreas demandadas vão encontrar demanda no mercado brasileiro”, indicam.

Affonso ressalta, entretanto, que a possibilidade de absorção precisa considerar os conhecimentos e a experiência de cada trabalhador. O relatório da Brasscom também dimensiona a presença de profissionais de tecnologia no País. Em levantamento divulgado em agosto, a entidade identificou aproximadamente 943 mil trabalhadores com carteira assinada em ocupações típicas de TIC. Analistas de desenvolvimento de sistemas representavam o maior grupo, com 252,9 mil profissionais, seguidos por analistas de suporte computacional, com 114,7 mil, e programadores de sistemas de informação, com 101,6 mil.

Os números indicam o tamanho do mercado brasileiro de tecnologia, mas não representam vagas disponíveis nem permitem estimar quantos profissionais das bets poderão ser contratados.

Regulamentação exigiu segurança e disponibilidade das plataformas

Parte das competências associadas às operações de apostas está relacionada às exigências técnicas estabelecidas durante a regulamentação do setor. Em maio de 2024, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, publicou a Portaria nº 722, que definiu requisitos de segurança para os sistemas e plataformas das empresas autorizadas.

As regras incluíam controles contra acessos não autorizados e ataques cibernéticos, monitoramento de componentes críticos, proteção de servidores, cópias de segurança e planos de continuidade de negócios. As operadoras também precisavam manter por pelo menos cinco anos cópias dos dados relacionados aos apostadores e às operações. Os registros deveriam ser atualizados ao menos a cada 24 horas e submetidos periodicamente a testes de integridade.

A regulamentação também estabeleceu condições para armazenamento de dados em centros de processamento no Brasil e, em determinadas situações, no exterior, com replicação das informações no País. Essas exigências ajudam a explicar a necessidade de estruturas de segurança, infraestrutura e tratamento de dados nas operações regulamentadas.

Benedetti ressalta, porém, que a existência desses requisitos não comprova individualmente a qualificação de todos os trabalhadores empregados pelas bets.

Quantos profissionais podem ser afetados?

Ainda não há um levantamento consolidado que permita estimar quantos profissionais de tecnologia serão afetados pela interrupção das plataformas.

Segundo Benedetti, esse dimensionamento depende do modelo operacional de cada empresa. Algumas desenvolvem sistemas internamente, enquanto outras contratam plataformas de terceiros. Também há diferenças entre equipes locais, estruturas globais e trabalhadores alocados por fornecedores.

Levantamento elaborado pela LCA Consultores Econômicos e pela Cruz Consulting, a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), estimava que o setor sustentava cerca de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos.

A estimativa abrange diferentes atividades e não permite determinar quantos desses postos são ocupados por profissionais de tecnologia. Também não representa um levantamento de demissões decorrentes da medida provisória.

A LANDtech ainda não possui dados consolidados sobre um eventual aumento na procura por recolocação entre profissionais das casas de apostas.

Recolocação pode envolver salários menores e empresas estrangeiras

Além da disponibilidade de vagas, a transição dos profissionais das bets para outros setores pode envolver mudanças nas condições de contratação, especialmente na remuneração.

De acordo com Benedetti, não há dados suficientes para afirmar que as casas de apostas pagavam salários superiores aos praticados pelo restante do mercado de tecnologia. Ainda assim, profissionais que receberam remunerações elevadas durante a expansão do setor podem encontrar condições diferentes na recolocação. “Profissionais que tenham recebido pacotes elevados para uma expansão acelerada ou remuneração vinculada a referências internacionais podem encontrar propostas inferiores na transição”, afirma.

A comparação, entretanto, não deve considerar apenas o salário. Bônus, benefícios, regime de contratação e eventuais incentivos de longo prazo também precisam entrar na avaliação das propostas.

Outra possibilidade é a busca por oportunidades internacionais, sobretudo entre profissionais com inglês fluente, experiência internacional e conhecimentos aplicáveis a diferentes mercados. Uma redução das oportunidades locais pode tornar essas propostas mais atraentes. “É preciso, porém, separar contratação internacional de emigração. O profissional pode continuar no Brasil e trabalhar remotamente para uma empresa estrangeira, ou ser transferido para outra operação do próprio grupo”, explica Benedetti.

Ainda não há dados que permitam dimensionar quantos profissionais poderão seguir esses caminhos. A LANDtech também não identificou, até o momento, um movimento consolidado de procura por recolocação que permita quantificar os efeitos da interrupção das operações. A possibilidade de absorção por outros setores, portanto, existe, mas dependerá da correspondência entre as competências dos trabalhadores e as vagas disponíveis, além da evolução das atividades das empresas de apostas no Brasil.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/bets-profissionais-tecnologia-recolocacao-mercado/