Em 1973, o mundo foi surpreendido pela primeira grande crise do petróleo. A decisão dos países produtores de restringir a oferta provocou uma explosão nos preços da commodity e expôs uma fragilidade que afetava diretamente países altamente dependentes de importação, como o Brasil. Naquela época, uma parcela significativa da energia que movimentava nossa economia vinha de fora. Bastava uma crise internacional para que inflação, crescimento econômico e abastecimento fossem colocados em risco.
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Foi nesse contexto que, em 1975, nasceu o Programa Nacional do Álcool, o conhecido Pró Álcool. Muito mais do que incentivar um combustível alternativo, o programa representava uma estratégia nacional para reduzir uma dependência considerada crítica. O objetivo nunca foi eliminar o petróleo da matriz energética brasileira, mas construir alternativas que tornassem o país menos vulnerável às oscilações geopolíticas e econômicas do mercado internacional.
Ao longo das décadas seguintes, essa estratégia foi sendo complementada por outros movimentos estruturantes. Vieram os avanços na exploração offshore, a descoberta do pré sal em 2006, a expansão da produção nacional, a tecnologia flex e a consolidação da maior frota de veículos híbridos do mundo. O resultado foi uma transformação profunda na posição estratégica do Brasil.
Hoje continuamos integrados ao mercado global de petróleo. Quando há conflitos internacionais, como ocorreu recentemente no Oriente Médio, os preços do barril continuam afetando os combustíveis e pressionando a inflação. A diferença é que o país deixou de viver sob o risco permanente de desabastecimento. Não vimos filas nos postos de gasolina nem uma crise energética como aquelas que marcaram o passado. Continuamos sujeitos ao mercado internacional, mas conquistamos algo talvez ainda mais importante: resiliência e autonomia.
Essa história me veio imediatamente à mente ao ler a notícia sobre os investimentos anunciados pelo Governo Federal em supercomputação e na construção de uma infraestrutura nacional para inteligência artificial. Independentemente de governos, partidos ou orientações políticas, existe uma transformação muito maior acontecendo no mundo. Estamos entrando em uma economia em que capacidade computacional passa a ser um ativo estratégico, da mesma forma que o petróleo foi durante boa parte do século XX.
Durante décadas medimos capacidade computacional pela quantidade de CPUs disponíveis. Depois vieram as GPUs, que revolucionaram o processamento paralelo e abriram caminho para a inteligência artificial moderna. Agora entramos em uma terceira fase, marcada pelo surgimento de aceleradores especializados para IA, desenvolvidos especificamente para executar modelos de linguagem, visão computacional e outras aplicações inteligentes com muito mais eficiência, sem dependência das concorridas GPUs.
Essa nova infraestrutura não está distribuída de forma homogênea pelo planeta. Pelo contrário. A maior parte da capacidade computacional utilizada para treinar e executar os maiores modelos de inteligência artificial está concentrada em poucas empresas e em poucos países. As grandes hyperscalers controlam uma parcela significativa dessa infraestrutura global, o que naturalmente desperta reflexões sobre autonomia tecnológica, competitividade e resiliência.
É justamente nesse ponto que entra um conceito que será cada vez mais importante para empresas e governos: soberania digital.
Muitas pessoas associam soberania digital apenas ao local onde os dados estão armazenados. Na prática, ela vai muito além disso. Soberania digital é a capacidade de uma empresa ou de um país de manter autonomia sobre seus dados, sua infraestrutura e seus ativos digitais. Isso envolve saber onde as informações estão sendo processadas, qual é o país e quais legislações regem o fornecedor de infraestrutura de cloud, onde acontece a orquestração do ambiente e quais alternativas existem caso o cenário geopolítico ou tecnológico mude.
Perceba que essa discussão não é sobre isolamento tecnológico nem sobre substituir soluções internacionais. Assim como o Brasil não deixou de consumir petróleo após o Pró Álcool ou depois da descoberta do pré sal, também não deixará de utilizar tecnologias globais em inteligência artificial. O objetivo é outro: ampliar as opções disponíveis e reduzir dependências excessivas de recursos considerados estratégicos. Uma decisão de um governo estrangeiro não deveria ser capaz de comprometer parte da internet, bancos, aplicativos e serviços no Brasil.
É exatamente por isso que vemos com bons olhos iniciativas voltadas ao fortalecimento da capacidade computacional instalada no Brasil. Mais infraestrutura significa mais pesquisa. Mais pesquisa significa formação de talentos. Mais talentos significam mais startups, mais inovação, mais propriedade intelectual e mais empresas desenvolvendo soluções de alto valor agregado. Toda a cadeia tecnológica se fortalece.
Temos, inclusive, um excelente exemplo recente de que esse tipo de coordenação pode funcionar muito bem quando diferentes atores trabalham em conjunto. O PIX talvez seja um dos maiores casos de sucesso da inovação brasileira nas últimas décadas. Sob coordenação do Banco Central, governo, bancos tradicionais, fintechs e empresas privadas construíram uma infraestrutura comum que hoje é referência internacional. Não foi uma substituição do mercado privado. Foi uma plataforma que permitiu que todo o ecossistema inovasse mais rapidamente.
Talvez esse seja o melhor paralelo para o momento que estamos vivendo. Construir uma infraestrutura nacional de inteligência artificial não deve ser encarado como um projeto exclusivo do governo nem como uma responsabilidade exclusiva da iniciativa privada. Trata se de um desafio que exige cooperação entre academia, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, provedores de infraestrutura, investidores e setor público.
O Brasil reúne ativos importantes para isso. Temos uma matriz energética predominantemente renovável, uma comunidade científica reconhecida internacionalmente, um mercado interno relevante, competência em engenharia e um ecossistema de tecnologia cada vez mais maduro. Se conseguirmos coordenar esses elementos de forma inteligente, poderemos construir muito mais do que data centers ou clusters de GPUs e placas aceleradoras de IA. Poderemos construir uma base sólida para a economia digital das próximas décadas.
Talvez, daqui a dez anos ou até muito antes, considerando a velocidade com que a inteligência artificial evolui, olhemos para este momento da mesma forma que hoje olhamos para o Pró Álcool ou o Pix. Não como uma iniciativa isolada, mas como o início de uma estratégia nacional para ampliar nossa autonomia em uma infraestrutura que será tão essencial para o século XXI.
Porque, se capacidade computacional realmente está se tornando o novo petróleo, talvez estejamos assistindo ao nascimento do Pró Álcool da era da Inteligência Artificial. E essa é uma oportunidade que vale a pena construir juntos e apostar nela.
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Fonte: https://itforum.com.br/artigos/capacidade-computacional-petroleo-alcool/

