Capgemini transforma ideias em resultado de negócios no Brasil

Com dezenas projetos em andamento, um time enxuto e uma estratégia que prioriza retorno sobre vitrine, o Applied Innovation Exchange (AIE) da Capgemini tem se consolidado como um dos laboratórios de inovação mais ativos da empresa no mundo. À frente da operação brasileira está Silvio Dantas, executivo que carrega mais de duas décadas de tecnologia aplicada a negócio, da venda de carros on-line em 2002 a avatares de IA que treinam vendedores hoje.

Em conversa com o IT Forum, Dantas detalhou a filosofia, a metodologia e os bastidores do hub de inovação que comanda no Brasil há cinco anos e meio, parte de uma rede de 22 laboratórios da Capgemini espalhados pelo mundo.

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Dantas abriu sua primeira empresa aos 18 anos, ainda nos anos 1990, e construiu carreira sempre um passo à frente do mercado. Criou o primeiro site de venda de carros on-line da América Latina em 2002, atuou em projetos de produção just in time para a General Motors e passou nove anos entre EDS e HP. Em 2011, foi para a IBM montar áreas de e-commerce e mobile, período em que também cursou uma certificação em estratégia e inovação no Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Na Volkswagen, liderou o primeiro projeto de tecnologia embarcada da marca na América Latina, incluindo um manual cognitivo baseado no IBM Watson que eliminou o manual em papel das concessionárias, projeto premiado internacionalmente pela Big Blue. Depois de um período retomando a área de inovação na IBM, foi convidado pela Capgemini para estruturar a competência de inovação da empresa no Brasil, em plena pandemia, sem nunca ter apertado a mão de um colega presencialmente por mais de um ano.

Hoje, a área que lidera no Brasil tem cinco anos e meio de existência, mas o conceito global, o Applied Innovation Exchange, já opera há oito anos em 22 laboratórios ao redor do mundo, formando um ecossistema integrado de pessoas, startups e conhecimento compartilhado entre países.

Transformar o etéreo em prático

“Inovação aplicada” é o propósito central do AIE, resume ele. Segundo o executivo, o time captura algo abstrato, como uma nova tecnologia, uma estratégia, uma experiência de cliente, e o transforma em algo concreto e mensurável. Por isso, segundo Dantas, o primeiro movimento diante de qualquer demanda de cliente é desconstruir o pedido.

“Quando um cliente chega pedindo “uma solução de inteligência artificial (IA)”, a equipe primeiro pergunta: quem vai precisar disso, quais são os KPIs de negócios, e se a tecnologia é de fato viável na margem do cliente. Afinal, ao desenhar uma solução de IA errada, gasta-se mais do que o seu lucro”, resume o executivo.

O processo costuma evoluir para cocriação: ideias são validadas coletivamente com o cliente, e mesmo quem discorda no início tende a se engajar, seja contribuindo, seja tentando convencer o restante do grupo de que a solução não funciona. “Trabalhamos muito com cocriação, com se aproximar dos clientes e deixar os clientes confortáveis”, explica. “Somos facilitadores”, completa.

Dantas descreveu o fluxo típico de um projeto a partir de um cliente do setor de seguros que buscava vender mais, mas enfrentava dificuldade frente à concorrência. Em vez de partir direto para uma solução, o time iniciou um diagnóstico completo de mercado, produto, preço e posicionamento competitivo.

Conclusão: o produto era bom, mas nem o próprio time comercial sabia comunicá-lo direito. A resposta foi um projeto de dados seguido da criação de um agente de IA que orienta o vendedor em tempo real, indicando quais clientes abordar, qual produto tem mais fit, o que a concorrência está oferecendo e até gerando a proposta comercial automaticamente a partir de uma calculadora integrada.

O piloto, rodado em uma região específica como soft launch, gerou salto de 30% nas vendas em poucas semanas, resultado que levou o próprio cliente a pedir a passagem direta do projeto para produção, com o time de inovação assumindo também a transição.

Entre os projetos de maior repercussão do laboratório está o “sommelier digital” criado para o Pão de Açúcar, um avatar de IA implementado em seis semanas para atuar sozinho em um quiosque na maior loja de vinhos do Brasil. A iniciativa gerou crescimento de 25% nas vendas nos dois meses seguintes ao lançamento.

Mais recentemente, o AIE no Brasil passou a olhar para “Personas Sintéticas”: grupos de usuários simulados por IA, com nível de detalhe que inclui sentimento e comportamento de compra, usados para testar campanhas antes de irem ao mercado. Em um exercício com uma montadora, o time treinou a avatar de IA da Capgemini, batizada Olívia, para atuar como especialista no carro de um concorrente e nenhum dos dez vendedores selecionados pelo cliente conseguiu convencê-la a comprar o veículo da própria marca, expondo lacunas no discurso comercial da equipe.

O laboratório também experimenta com IA física e robótica aplicada a estudos de comportamento, incluindo testes com análise de sentimento em robôs autônomos, e usa ferramentas como o Apple Vision Pro em sessões de imersão para abrir a cabeça de clientes sobre o que é, e o que não é, prioridade tecnológica.

Ecossistema amplo

O time brasileiro do AIE é formado por um time enxuto. Mas, para Dantas, a chave não está em volume de gente, mas em especialização. “Essas pessoas não são altamente qualificadas, elas são especializadas”, afirma, destacando que evita o perfil tradicional de consultoria, buscando profissionais com vivência prática de descoberta de problemas junto ao cliente.

Como apoio, o laboratório aciona o ecossistema mais amplo da Capgemini, 6,5 mil funcionários no Brasil e 360 mil no mundo, sempre que precisa de competência específica. Para inovação aberta com startups, o AIE no Brasil opera sob demanda, em parceria com hubs como o InovaBra, e conta com um processo de curadoria batizado de Startup Catalyst, além de acesso à base global Rocket Station, que reúne cerca de 10 mil startups cadastradas. Globalmente, a Capgemini ainda mantém um programa de investimento direto em startups, o Ventures, com cerca de 20 empresas no portfólio.

A sede de São Francisco, nos Estados Unidos, do AIE tem perfil ainda mais conectado ao Vale do Silício, incluindo parceria com Stanford para sessões de inovação com pesquisadores e PhDs.

Sobre o momento atual do mercado, Dantas observa uma mudança de maturidade. Empresas estão deixando de buscar inovação como vitrine para perguntas mais objetivas sobre impacto e retorno. Ele também separa automação de IA “automatizar não é a mesma coisa que pôr IA”, destaca e descreve o papel da área como transformar dado em informação, e informação em insight estratégico.

Entre as apostas mais recentes do laboratório estão as interfaces conversacionais com análise de sentimento, agentes autônomos que executam tarefas (em contraste com assistentes que apenas respondem a perguntas) e iniciativas de “vibe coding” para acelerar o desenvolvimento de soluções.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/capgemini-transforma-ideias-resultado-de-negocios/