Risco cambial e tarifas levam Construtivo a migrar de hyperscaler para nuvem brasileira

A decisão da Construtivo de migrar sua infraestrutura de nuvem não partiu de um problema técnico com o provedor anterior, mas de uma análise de risco cambial e geopolítico. A empresa de tecnologia, especializada em software como serviço (SaaS) para o setor de engenharia, vende seus contratos em reais, mas tinha a nuvem, um dos principais componentes de seu custo, indexada ao dólar.

“Como somos uma empresa SaaS, o insumo da nuvem é muito importante na nossa composição de custo. Fiquei preocupado com a possibilidade de uma eventual taxação de empresas americanas no Brasil por reciprocidade, porque isso poderia elevar significativamente meu custo”, afirma Marcus Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo.

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Segundo Granadeiro, o movimento começou como resposta às tensões tarifárias entre Brasil e Estados Unidos, mas também resolveu um problema anterior: os contratos com provedores estrangeiros eram indexados ao dólar, enquanto a companhia vende seus serviços em reais. “A questão geopolítica motivou a decisão após uma análise de risco”, diz.

De provedor global a atendimento direto

A Construtivo migrou parte de sua infraestrutura para a Magalu Cloud, nuvem pública do grupo Magalu. Granadeiro afirma que a companhia hesitou inicialmente porque a Magalu Cloud ainda oferecia menos produtos do que os provedores mais estabelecidos. A percepção mudou, segundo ele, a partir do atendimento recebido da equipe técnica.

Nos grandes provedores de nuvem, relata o executivo, o atendimento era mais distante e concentrado no sistema de chamados. Na Magalu Cloud, segundo ele, a empresa passou a ter contato direto com a equipe técnica, o que contribuiu para a decisão de avançar com a migração.

Economia maior que a esperada

Granadeiro afirma que a redução de custo veio depois da decisão e não foi o motivador inicial. Segundo ele, a economia ficou entre 30% e 40% em relação ao provedor anterior.

O executivo também cita ganho de desempenho de disco, que atribui a uma infraestrutura mais recente, sem os sistemas legados de provedores mais antigos no mercado.

Segundo Granadeiro, o processo de migração não foi excessivamente custoso porque a Magalu Cloud concedeu meses de carência para cobrir o gasto de retirada de dados do provedor anterior, item que costuma encarecer trocas de nuvem.

No início, a companhia também enfrentou a ausência de recursos considerados básicos, como logon único (SSO, na sigla em inglês para single sign-on). Segundo o executivo, isso exigia a configuração de uma rede privada virtual (VPN, na sigla em inglês) para que os clientes acessassem o sistema.

Granadeiro afirma que essas lacunas foram resolvidas com a maturação da oferta da Magalu Cloud. A insegurança inicial da equipe de segurança dos clientes em relação à adoção de um provedor menos conhecido, segundo ele, também não se confirmou na prática.

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O caso CSN

O ganho de desempenho apareceu de forma concreta no atendimento à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cliente da Construtivo que usa a plataforma Colaborativo para gerenciar o fluxo de aprovação de documentos e desenhos técnicos de obras de mineração, portos e fabricação de cimento. Segundo material da Construtivo sobre o caso, as operações estão distribuídas entre as unidades Casa de Pedra, Namisa, Arcos e Itaguaí.

Antes da adoção da plataforma, o controle desses documentos era feito por e-mail, o que dificultava a gestão à distância entre os empreendimentos.

Com o crescimento do volume de dados da CSN, decorrente da expansão dos negócios de mineração da companhia, a Construtivo avaliava dividir o servidor da cliente em dois para preservar o desempenho. A mudança exigiria meses de refatoração de código.

Segundo Granadeiro, o problema deixou de existir com a transferência da operação para a infraestrutura de disco da Magalu Cloud.

“Estávamos estudando dividir esse servidor em dois por causa do desempenho. Quando a operação foi transferida para o disco da Magalu, isso não foi necessário”, afirma.

O executivo estima um ganho de velocidade entre cinco e dez vezes em relação à infraestrutura anterior. Segundo ele, o resultado está relacionado ao alto volume de leitura e gravação de dados de engenharia da operação da CSN, que tem grande fluxo de entrada e saída de informação.

Software de código aberto como ponto em comum

Granadeiro aponta uma convergência técnica entre as duas empresas: tanto a Construtivo quanto a Magalu Cloud priorizam software de código aberto na infraestrutura, ao contrário de concorrentes que dependem de licenciamento de marcas internacionais, com custos de licença mais altos.

Na avaliação do executivo, essa escolha facilitou o alinhamento técnico entre as equipes durante a migração e abre espaço para um projeto conjunto mais amplo, atualmente em negociação, de recuperação de desastres (DR, na sigla em inglês).

Soberania de dados ganha espaço

Para Granadeiro, ter uma solução de gestão de obras rodando em uma nuvem brasileira se tornou um diferencial competitivo da Construtivo frente a concorrentes estrangeiros no mercado de gestão de engenharia e modelagem de informação da construção (BIM, na sigla em inglês).

“A Construtivo é um dos poucos provedores brasileiros que competem com os estrangeiros nesse mercado. Ser uma solução 100% brasileira, com nuvem brasileira, tornou-se um diferencial”, afirma.

Ele pondera, no entanto, que a soberania de dados ainda não é um fator decisivo para a maioria dos clientes na hora de fechar contrato. A percepção, segundo ele, está mudando, sobretudo entre empresas públicas e negócios ligados a infraestrutura considerada estratégica.

Granadeiro compara o momento atual ao amadurecimento do tema segurança da informação, que, segundo ele, levou cerca de cinco anos para se tornar uma exigência padrão dos clientes.

“Cinco anos atrás, a segurança de dados não era uma preocupação dos clientes. Hoje, todos querem saber como é o compliance. Acredito que a soberania seguirá o mesmo caminho”, diz.

Segundo o executivo, o grau de exigência sobre soberania deve variar conforme a criticidade do ativo. Ele cita como exemplo hipotético a diferença entre uma creche no interior de São Paulo e uma ponte interestadual, um aeroporto ou um porto, ativos que classifica como estratégicos para o país e que, na avaliação dele, tendem a exigir maior controle sobre onde os dados são processados.

Granadeiro também avalia que a escalada de tensões tecnológicas entre países pode levar empresas a diversificar provedores de nuvem por região ou alinhamento geopolítico, como forma de reduzir a dependência de um único país fornecedor.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/construtivo-magalu-cloud/