Mara Maehara não tem uma história de vocação precoce para contar, e faz questão de dizer isso. “A minha história é um pouco menos romântica. Ela não tem aquela coisa: sempre sonhei, fui direcionada ou incentivada.” Aluna de escola pública, sem orientação vocacional e com pouco acesso à tecnologia, ela tinha uma única referência: o irmão mais velho.
Ele era analista de sistemas de um banco francês e, quando algo parava, era chamado de madrugada. Mara não sabia exatamente o que ele fazia, mas guardou a cena. “Só o fato de ele pegar um táxi, sair de casa correndo e voltar no outro dia me dava a sensação de que ele fazia diferença.” Dali nasceu uma vontade: “Um dia, quem sabe, eu também posso fazer alguma coisa tão importante assim.”
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Prestou vestibular para Letras, Direito e Processamento de Dados, nome que a computação tinha na época, e passou no último. Precisou de um ano de cursinho e de um emprego para pagar a faculdade particular. “Sempre foi com bastante luta.” Primeira da família a chegar ao ensino superior, dava valor a cada aula. “Eu sabia o quanto custava estar ali.”
A vocação se revelou no caminho. Sentindo falta de profundidade em algumas matérias, Mara juntou economias para pagar cursos de programação por fora. “Eu me tornei uma expert em programação. Virou quase um hobby para mim. Eu adorava programar.” Foi ali que abraçou de vez a tecnologia, em uma sala com cinco ou seis mulheres.
O negócio aprendido na pele
O talento técnico abriu a primeira porta, na Andersen Consulting, hoje Accenture, onde trabalhou como programadora de 1991 a 1994. Foi atendendo a um cliente da consultoria, a Brahma, que Mara encontrou o que define sua carreira até hoje.
Nos 12 anos em que ficou na cervejaria, que logo se tornaria Ambev, aprendeu que não bastava entregar sistemas. Era preciso conhecer o negócio melhor do que as próprias áreas de negócio. “Eu tinha que saber como era feita uma cerveja. Eu degustava cerveja, degustava refrigerante, sabia como se pedia caminhão.” A equipe de TI saía de ônibus com os vendedores, palmtop na mão, para viver a rotina de perto. “Não adiantava simplesmente ouvir de uma área o que ela queria. Eu tinha que vivenciar aquilo.”
O ritmo era intenso: cinco aviões em um único dia, noites em banco de aeroporto. “A minha vida era trabalhar.” Em troca, Mara ganhou o que nenhum curso ensinaria, a capacidade de sentir as dores do cliente como se fossem suas. “Isso me deu uma musculatura de aprender a conversar com as áreas de negócio. Aprendi a ouvir, porque não é falar, é ouvir.”
A programadora descobriu ali um prazer maior do que o código. “O gostoso não é entregar um sistema, finalizar um projeto. O gostoso é depois ver o benefício que aquilo gera.” Mais tarde, no Grupo Pão de Açúcar, participou da definição das regras do Programa de Cashback da rede Extra, o primeiro do País. “Era incrível ver aquilo impactar a vida das pessoas.”
O aprendizado virou método na Totvs, onde está entrando no 11º ano e lidera uma TI de 520 pessoas. Encontrou um time muito técnico e o aproximou do negócio. Hoje, o problema é outro: “Eu não tenho todo o tempo que as áreas exigem para poder estar com elas nas reuniões.” Como gestora, começa sempre pelo mesmo ponto: “Eu gosto de gente. A tecnologia é importante, os processos são importantes, mas o que faz diferença para mim são as pessoas.” Próxima do time, não abre mão do rigor: “Alguns me acham brava, mas não é ser brava, é seriedade.”
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O preço de querer dar conta de tudo
O amor também veio do trabalho. Mara conheceu o marido entregando projetos. “A gente passava tanto tempo junto, a gente brigava bastante. O negócio foi tão intenso que a gente acabou casando.” Com perfis diferentes, os dois se complementam. “Ele já foi meu chefe. Eu já fui chefe dele. A gente fala que quem leva um contrato já leva dois.”
O casamento veio aos 43 anos, depois de décadas de foco total na carreira. Logo depois vieram os dois filhos, hoje com 11 e nove anos. Foi o capítulo mais difícil de sua vida: o menino nasceu em uma emergência e quase morreu três vezes na UTI. Mara atribui o risco à crença de que podia dar conta de tudo. “Talvez seja a única coisa de que eu me arrependo na vida até hoje: ter bancado a heroína.”
A lição virou a mensagem que deixa para outras mulheres. “A gente não tem que ser heroína. É uma armadilha pela qual a mulher tem que ficar atenta.”
A sandália da humildade
No encontro de 30 anos de formatura, Mara percebeu que era a única mulher da turma que tinha seguido na tecnologia. Ainda assim, o papel de referência demorou a ficar claro. “Eu sempre trabalhei tanto, mas tanto, que a gente meio que fica focada ali e não presta muita atenção.”
A virada veio há cerca de oito anos, em um painel. Alguém perguntou quantas mulheres havia em seu time, e ela não soube responder. “Eu vou aqui vestir a minha sandália da humildade. Eu não sei te responder, mas vou apurar isso hoje quando voltar para o trabalho.” De volta à Totvs, reuniu as 18 mulheres da TI em um grupo. Ao contar sua história, desfez o mito da executiva que “nasceu para ser de tecnologia”. “Não sou. Sou de carne e osso, com muita dificuldade na minha vida.”
O grupo cresceu, ganhou o apoio do RH e se tornou o embrião da cadeira de gênero do programa de diversidade da empresa, da qual Mara é embaixadora. Hoje, segundo ela, são entre 400 e 500 mulheres. Ela também faz mentorias e aceita todos os convites de almoço de colegas que não conhece. Já viu algumas saírem chorando para agradecer. “Eu não tive essa condição. Se eu posso gerar algum movimento, eu vou fazer. Essa é a minha responsabilidade.”
Desses encontros, sai com uma palavra: “Abençoada”. A pequena Mara que via o irmão sair de madrugada para fazer diferença hoje faz a sua, mostrando a outras mulheres que a tecnologia também é lugar para elas.
Mara Maehara integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
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Fonte: https://itforum.com.br/conte-com-sua-rede-de-apoio-mara-maehara-totvs/

