A cultura organizacional é reconhecida como motor de resultado, mas é a primeira a ser sacrificada quando a meta aperta. Esse é o principal achado da pesquisa “Cultura na Prática”, realizada pelo Instituto QualiBest para o iFood e apresentada na última terça-feira (29). Enquanto 89% dos profissionais concordam que empresas com cultura forte entregam melhores resultados, 58% afirmam que ela é a primeira a ceder diante da pressão por metas.
O estudo ouviu 1.406 profissionais de empresas com cem ou mais funcionários, em todas as regiões do país, de analistas a diretores e C-level. Entre os que conhecem a cultura da própria empresa, apenas 36% dizem vê-la praticada sempre. “Cultura não se prova quando tudo vai bem. Ela se revela quando a pressão aumenta e a empresa precisa decidir do que não abre mão”, afirma Raphael Bozza, sócio e VP de Pessoas do iFood.
As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada
O teste de pressão expõe a distância entre discurso e prática. Entre os 600 diretores e gerentes ouvidos, 65% afirmam que ações de bem-estar e capacitação são as primeiras cortadas quando o negócio está sob pressão. Entre os 809 respondentes que exercem função de liderança, 41% admitem que eles próprios abrem mão de pontos importantes da cultura para bater metas.
Topo e base enxergam empresas diferentes
A percepção varia conforme o nível hierárquico. A parcela que vê a cultura praticada sempre desce em escada; 60% entre diretores e C-levels, 45% entre gerentes, 32% entre coordenadores e supervisores e 23% entre analistas e especialistas. O conhecimento profundo da cultura segue o mesmo desenho, de 69% no topo a 36% na base.
Para 60% dos profissionais, é na alta e na média gestão que discurso e prática mais se distanciam. Os próprios diretores e gerentes estão entre os mais críticos à alta gestão (44%). O problema também é horizontal: 55% apontam as relações entre áreas e entre colegas.
Entre os que conhecem a cultura da empresa, 57% não a veem como estratégia central do negócio. Para 43%, ela orienta de fato as decisões de diretoria, produto e receita; 40% acham que ela serve ao clima e à convivência; e 16% a enxergam restrita ao discurso ou inexistente. Onde a cultura é vista como estratégia, 58% concordam totalmente que a empresa tem melhores resultados, índice que cai a 45% onde ela não é vista assim.
O RH está no centro dessa equação. Só 43% dos diretores e gerentes afirmam que a área participa sempre das decisões estratégicas antes de sua implementação. Entre os que dizem que o RH participa sempre, 92% avaliam que a área contribui para os resultados da empresa.
Cultura decide carreira
O custo de ignorar o tema aparece na disputa por talentos. Para 79% dos entrevistados, conhecer a cultura de uma empresa e como ela é praticada influencia ou influenciaria uma decisão de carreira. Além disso, 73% já tomaram uma decisão concreta motivada por ela: recusar uma oferta, permanecer no emprego ou pedir demissão. A influência sobe a 89% entre quem a percebe praticada sempre e cai a 66% entre quem não a vê praticada.
“É importante deixar claro para os colaboradores o que está acontecendo por trás das decisões da empresa, para onde vamos, o que isso influencia na carreira delas”, afirma Bozza.
IA é oportunidade, mas liderança é despreparada
A inteligência artificial (IA) é o ponto em que a pesquisa conecta todos os fios. As ferramentas já são rotina. Na pesquisa, 71% dos profissionais se dizem familiarizados com elas e 45% as usam várias vezes ao dia. Para 69%, o profissional está preparado para usar a tecnologia, e 60% avaliam que a empresa também está.
O acesso, porém, é desigual, pois 57% trabalham em empresas que incentivam o uso e fornecem as ferramentas, enquanto 28% dizem que a empresa incentiva, mas não oferece ferramentas, o que leva a recorrer a soluções por conta própria. Entre coordenadores e supervisores, essa situação chega a 38%.
Entre os líderes, 70% esperam ser cobrados para levar suas equipes à IA no dia a dia, mas só 25% se sentem muito preparados para conduzir essa transformação. A leitura geral é mais de oportunidade do que de ameaça: 86% veem na IA novas formas de trabalhar, ainda que 42% concordem que a tecnologia vai reduzir empregos. Também há elo com a cultura. Dos entrevistados, 55% associam o uso da IA à cultura da empresa, índice que sobe a 75% entre os que a veem praticada sempre.
Em coletiva de imprensa, Fabia Silveira, gerente de planejamento do instituto QualiBest, comentou o otimismo dos números. “Diretores, gerentes, C-Level sempre vão dizer que a empresa está oferecendo IA. É uma percepção muito forte de que a IA é uma oportunidade. Por isso, esse 86% vê como uma oportunidade de uma nova forma de trabalhar”, relata. Ela reconhece, porém, que o processo está em curso. “Ainda as pessoas estão tentando entender, correndo atrás da inserção de tecnologia nas demandas.”
Leia mais: Google e DataCrazy fecham acordo de US$ 1,5 mi
Bozza defende que a próxima fronteira da IA é cultural. “A vantagem competitiva que a IA entrega hoje vira commodity em pouco tempo, e o que não se compra é a cultura que decide como a tecnologia é usada”, indica.
O executivo também contou como a empresa tratou o tema internamente. “Em 2025, escrevemos o manifesto de IA, e deixamos claro que IA era uma responsabilidade de todos, não apenas para C-Level ou área de tecnologia”, explica.
Segundo Bozza, a capacitação é parte essencial da estratégia. “É importante preparar, capacitar as pessoas para inserção dessa cultura da IA, fazer workshops, preparar, explicar, ter um objetivo e guiar as pessoas na direção. Até incentivando. Nós colocamos IA na avaliação de desempenho. A avaliação está ligada à PLR, então isso incentiva as pessoas a querer buscar entender melhor.”
Pesquisa e livro
O estudo faz parte de uma agenda do iFood para compartilhar aprendizados sobre cultura. O tema também estará no livro “Código Aberto: O Jeito iFood de Trabalhar”, da Editora Gente, previsto para janeiro de 2027, que reúne práticas construídas ao longo dos 15 anos da empresa. Bozza ressalta que a intenção não é vender um modelo. “Não fizemos a pesquisa para validar o nosso jeito, fizemos para abrir uma conversa. Cultura não se copia, ela precisa fazer sentido para cada organização”, reitera.
A metodologia foi por meio de pesquisa quantitativa on-line com 1.406 entrevistas, realizada entre 13 e 17 de julho de 2026, com profissionais de 18 anos ou mais em regime CLT, PJ ou contrato formal, em empresas com 100 ou mais funcionários (40% analistas e especialistas, 25% gerentes, 18% coordenadores e supervisores, 17% diretores e C-level). Margem de erro de 2,6 pontos percentuais, com 95% de confiança.
Leia o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!
Fonte: https://itforum.com.br/noticias/cultura-metas-pesquisa-ifood/


