Há alguns meses escrevi neste espaço uma provocação: “Data centers de IA: considerem o Nordeste.” O argumento partia de vantagens que a região já possuía: energia solar e eólica em abundância, posição geográfica privilegiada em relação à Europa e à América do Norte, conexão por cabos submarinos e espaço para grandes empreendimentos.
De lá para cá, três peças se moveram. O REDATA saiu do papel. A EPE colocou no papel como conectar cargas de vários gigawatts no Ceará e no Piauí. E o Brasil se prepara para seus primeiros leilões de armazenamento de energia em baterias.
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É hora de inverter a pergunta. Não se trata apenas de saber por que os data centers deveriam considerar o Nordeste. Trata-se de saber por que o Nordeste deveria considerá-los parte de sua estratégia de desenvolvimento e, sobretudo, o que a região precisa fazer para que esse ciclo deixe algo além de uma obra concluída.
As duas mudanças relevantes
O Senado aprovou em 1º de setembro o projeto que institui o REDATA, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, e dois dias depois o Congresso aprovou o complemento que libera o regime das travas fiscais de 2026. O texto suspende Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e PIS/Cofins-Importação sobre equipamentos, por cinco anos, com contrapartidas de energia, eficiência hídrica e oferta de capacidade ao mercado nacional. E estabelece diferenciação regional: empreendimentos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm obrigações reduzidas de disponibilização de capacidade e de investimento vinculado, e o texto direciona ao menos 40% dos investimentos em fomento à economia digital para essas regiões.
Mas duas mudanças impactam o tamanho do incentivo.
A primeira é temporal. Por causa da reforma tributária, os benefícios de PIS, Cofins e IPI produzem efeito apenas até 31 de dezembro de 2026. Na prática, quem não adquirir equipamento nos próximos meses ficará essencialmente com a suspensão do Imposto de Importação. Não é pouco, mas é bem menos do que a manchete sugere e explica por que o setor já busca alternativas, como a redução de ICMS via Confaz.
A segunda é qualitativa. A versão final substituiu a exigência de fontes “limpas” por fontes “de baixa emissão”, com emenda que abre espaço ao gás natural. Isso dilui exatamente a vantagem comparativa em que o Nordeste se apoia. Se gás qualifica, a disputa deixa de ser apenas por sol e vento.
O REDATA melhora a posição relativa da região. Mas incentivo tributário não instala data center. Para quem precisa conectar centenas de megawatts, às vezes mais de 1 GW, o que decide é disponibilidade de energia, estabilidade e tempo até ter potência disponível.
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Produzir energia é diferente de entregá-la
O Nordeste produz muita energia renovável. Isso não significa conseguir entregá-la exatamente onde uma carga de 500 MW quer se instalar.
A EPE começou a tratar do problema. Em junho, no Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas Eletrointensivas na Região Nordeste, propôs uma solução capaz de acomodar até 4 GW adicionais nas regiões de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí: uma nova subestação de 500 kV, Pecém IV, cerca de 1.848 km de linhas em 500 kV ligando Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, e investimento estimado em R$ 5,68 bilhões.
O número grande, porém, vem cercado de condições.
A capacidade está prevista a partir de 2032, de forma escalonável e acionada por gatilhos: a primeira etapa, de R$ 1,09 bilhão, entra até 2032, e os R$ 4,59 bilhões restantes dependem de carga contratada. A segunda linha entre Açu III e Pecém IV, por exemplo, só se justifica quando a demanda conjunta atingir 1,5 GW. A rede não antecede a decisão do investidor: responde a ela.
E os 4 GW não estão reservados para data centers. A EPE mapeou 31,8 GW de solicitações de acesso no Nordeste, sendo 22,1 GW no Ceará e no Piauí, boa parte ligada à cadeia do hidrogênio. A própria EPE trata os 4 GW como um teto: até ali é possível expandir transmissão sem custo adicional de geração; acima disso, entram novos parques na conta.
Nada disso invalida a oportunidade. Apenas a coloca no calendário: estamos falando da próxima década.
O argumento que ainda não usamos o suficiente
Há um dado que fortalece a tese mais do que a abundância de sol e vento: o corte de geração. O Nordeste convive há anos com restrições de escoamento que obrigam a reduzir produção renovável já instalada.
Carga que consome onde se gera é a resposta econômica direta a esse desperdício. Não é apenas “temos energia sobrando”; é “temos energia que hoje deixa de ser produzida por falta de destino”. O armazenamento em baterias, que agora entra nos leilões, atua na mesma direção. Renováveis, armazenamento, expansão da rede e novas cargas começam a formar uma arquitetura que não existia com essa clareza há poucos meses.
Antes da IA vem o concreto
Um artigo recente da Columbia Business School chama atenção para um fenômeno nos Estados Unidos: o ciclo de investimento em infraestrutura de IA ficou tão grande que já aparece nos números de crescimento da economia americana. O ponto muda a maneira de enxergar um data center. Antes das GPUs vêm terreno, edificação, estrutura metálica, concreto, refrigeração, instalações elétricas de enorme capacidade, transformadores, subestação, geradores e telecomunicações.
Um estudo da FGV Projetos — encomendado pela Scala Data Centers e pela Norgás — estima que um data center de 100 MW voltado à IA envolve cerca de R$ 25 bilhões. São R$ 5 bilhões aproximadamente em infraestrutura física, a cargo do operador, e R$ 20 bilhões em servidores, GPUs e armazenamento.
Mas a FGV não calcula impacto sobre os R$ 25 bilhões. Ela desconta equipamentos importados e trabalha com cerca de R$ 3,6 bilhões efetivamente absorvidos pela economia doméstica. Sobre essa base, estima R$ 1,5 bilhão de PIB e R$ 590 milhões em renda do trabalho nos efeitos diretos e indiretos, chegando a R$ 2,86 bilhões de PIB e R$ 1,04 bilhão de renda quando inclui o efeito induzido pelo consumo das famílias. A implantação leva de 18 a 36 meses e mobiliza cerca de 12.560 empregos diretos e indiretos, dos quais aproximadamente 15% permanecem após a entrada em operação.
A conclusão prática é que o impacto econômico escala com o CAPEX de instalação, não com o investimento total. GPU se importa. Obra civil, subestação e linha de transmissão, não. É por isso que a parcela relevante do efeito acontece onde a infraestrutura é implantada.
O impacto, calculado com honestidade
O PIB nordestino foi de aproximadamente R$ 1,51 trilhão em 2023, cerca de 13,8% da economia brasileira.
Façamos um exercício deliberadamente conservador. Suponha que, dos 4 GW estudados pela EPE, 1 GW seja ocupado por data centers ao longo dos anos 2030. Aplicando a referência mais baixa da FGV, sem efeito induzido, seriam cerca de R$ 15 bilhões de PIB associados à implantação. Espalhado por cinco a sete anos, isso equivale a algo entre 0,15% e 0,2% do PIB regional ao ano. Nos 4 GW inteiros, entre 0,6% e 0,8% ao ano.
São números menores do que as manchetes e não são pontos percentuais permanentes de crescimento, são fluxos temporários de investimento. Ainda assim, para uma economia regional, um choque dessa ordem em construção civil, montagem eletromecânica e engenharia é macroeconomicamente relevante. E a conta considera apenas os data centers, sem geração, transmissão, subestações, armazenamento e fibra ao redor deles.
O risco real: virar enclave
Esta é a objeção mais forte à agenda, e precisa ser enfrentada de frente.
Data centers são intensivos em capital e pouco intensivos em trabalho permanente. O REDATA suspende tributos federais, os estados costumam oferecer ICMS, e o consumo de energia, terra e água é local. A região entrega recursos e renúncia, e captura obra, tributos indiretos e uma operação enxuta.
A água não é questão secundária. Estamos falando de Ceará e Piauí, de refrigeração em larga escala e de contrapartidas de eficiência hídrica cuja fiscalização ainda será definida. Organizações da sociedade civil já apontaram a ausência de transparência ativa sobre consumo energético e hídrico como falha do desenho. Quem defende a agenda precisa resolver isso antes que vire disputa pública.
Há ainda a pergunta que raramente fazemos: quem é o cliente? Capacidade de treinamento para exportação esbarra em controles de exportação de GPUs e concorre com Estados Unidos, Golfo e países nórdicos. Inferência para o mercado brasileiro trata a latência melhor no Sudeste. A vantagem nordestina é real, mas é de custo de energia e de rota internacional.
Onde está o valor durável
Se o emprego permanente é pequeno e a renúncia é grande, o retorno para a região precisa vir de outro lugar. Eu apostaria na cadeia industrial que se forma em torno dessa infraestrutura.
Uma GPU dificilmente será fabricada aqui no futuro próximo. Mas entre a rede elétrica e a GPU existe uma indústria enorme: transformadores, painéis e sistemas de distribuição, UPS, baterias, racks, cabos, estruturas metálicas, refrigeração, trocadores de calor, automação e equipamentos de subestação. Boa parte dela já existe no Brasil, e a camada mais básica, de construção, pré-moldados, montagem eletromecânica e manutenção, já existe no Nordeste.
A pergunta difícil é por que um fabricante instalaria planta no Ceará em vez de expandir onde já está, no Sudeste ou no Sul. A resposta plausível está no desenho da própria EPE: Pecém IV foi concebida como hub de conexão para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Porto, área industrial, energia renovável, hidrogênio e data centers no mesmo lugar formam um mercado local com escala e logística de carga pesada. Transformador de grande porte não viaja bem por rodovia. É isso, e não o discurso regional, que muda a equação de localização de um fabricante.
A oportunidade se organiza em camadas: primeiro maximizar a participação de empresas nordestinas na construção; depois atrair fabricantes de equipamentos elétricos, refrigeração e armazenamento para o entorno do Pecém; e progressivamente desenvolver competência local em refrigeração líquida, sistemas de armazenamento e gestão inteligente de energia.
Uma agenda para o Nordeste
Aos governos estaduais, cabe transformar incentivo em contrapartida: ICMS negociado no Confaz atrelado a compras locais e a metas de eficiência hídrica, licenciamento com prazo definido e balcão único, e reserva fundiária no entorno do Pecém e de Parnaíba. À Sudene e ao Banco do Nordeste, cabe usar o FNE para financiar a cadeia fornecedora. Ao Senai e às universidades da região, cabe antecipar a formação em montagem eletromecânica, comissionamento elétrico de alta tensão e refrigeração líquida, competências hoje escassas e que serão o gargalo de 2030. E ao setor privado regional, cabe se organizar para qualificar-se como fornecedor antes de a obra começar, não durante.
Antes de exportar inteligência artificial
O REDATA criou uma vantagem regional explícita, ainda que menor e mais curta do que se anuncia. A EPE mapeou o caminho da rede, com data marcada e gatilhos. O armazenamento entra no sistema elétrico brasileiro.
Agora a provocação mudou de lado: o Nordeste é quem precisa considerar os data centers. Não como consumidores da nossa energia nem como grandes instalações tecnológicas, mas como possíveis âncoras de um ciclo de investimento em energia, transmissão, armazenamento, construção, engenharia e, progressivamente, indústria.
Uma das tecnologias mais digitais já criadas está produzindo uma gigantesca onda de investimento físico. Antes de exportar inteligência artificial, alguém terá de construir a infraestrutura que a produz. O impacto real para a região não será medido por quantos gigawatts conseguirmos atrair, mas por quanto dessa infraestrutura conseguirmos construir e, progressivamente, fabricar aqui.
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Fonte: https://itforum.com.br/artigos/data-centers-nordeste/

