Candidatos e partidos descumpriram a obrigação de sinalizar o uso de inteligência artificial (IA) em ao menos 37 publicações feitas em suas contas oficiais durante os primeiros 11 dias da campanha eleitoral de 2026. Nenhuma dessas peças continha qualquer indicação que permitisse ao eleitor identificar se imagens ou vídeos haviam sido criados ou alterados com a tecnologia.
Os dados integram o primeiro relatório do VigIA, projeto do Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, em parceria com a Unicamp, a Federação das Associações das Faculdades Paulistas (FAAP) e a Meedan. O projeto monitora o uso de IA nas eleições de 2026 e analisou conteúdos publicados entre 16 e 26 de agosto, período que corresponde ao início da campanha oficial.
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A legislação eleitoral exige que partidos, candidatos e coligações identifiquem explicitamente os conteúdos produzidos ou manipulados com IA. A regra prevê exceção apenas para edições de pequeno porte que não alterem substancialmente imagens ou vídeos. Entre os 37 casos irregulares detectados, o VigIA encontrou publicações que usavam IA para impulsionar candidaturas, gerar engajamento, simular sobrevoos por municípios e retratar trajetórias profissionais de políticos.
“O que chama atenção nesses 37 casos é que não são conteúdos publicados por contas anônimas. São publicações feitas pelas contas oficiais de candidatos e partidos, que têm a obrigação de informar ao eleitor quando utilizam inteligência artificial. A transparência sobre o uso dessa tecnologia é uma regra importante para que as pessoas saibam exatamente que tipo de conteúdo estão consumindo”, afirma a gerente de inovação e formação e fundadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila.
Volume de conteúdos com IA
O levantamento coletou 314 conteúdos eleitorais suspeitos de uso de IA em redes sociais e aplicativos de mensagem. O uso da tecnologia foi confirmado em 282 deles, o equivalente a 90% da amostra. A taxa representa mais de 25 casos por dia, ou mais de um por hora. Apenas 22 peças não usavam IA e, em outras dez, o resultado foi inconclusivo.
Dos 282 conteúdos confirmados, 199 eram deepfakes, peças artificiais criadas para simular a aparência, a voz ou a identidade de pessoas reais. Os outros 83 eram conteúdos sintéticos que não reproduziam nem manipulavam identidades específicas: imagens e vídeos de cidades, sobrevoos e animações em formato de cartum envolvendo políticos.
Entre os 282 casos, 181 não traziam qualquer indicação de que IA havia sido utilizada. Dos 101 que foram sinalizados, 55% receberam a marcação pelos próprios autores e 45% pela plataforma.
“O volume também mostra que a IA já está incorporada à comunicação política desta eleição. Em 11 dias, encontramos centenas de conteúdos sintéticos circulando nas plataformas. É fundamental que plataformas e usuários tenham condições de reconhecer com clareza quando estão diante de material produzido ou alterado artificialmente”, diz Tardáguila.
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Lula e Flávio Bolsonaro nos conteúdos identificados
Do total confirmado, 252 peças envolviam imagens de pessoas públicas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi quem mais apareceu: 115 casos. Flávio Bolsonaro (PL) ficou em segundo lugar, com 56 ocorrências.
A promoção de candidaturas foi o objetivo mais frequente, presente em 147 das 282 publicações analisadas (52%). Outros 74 (26%) foram classificados como humor ou sátira, e 58 (21%) tinham como finalidade atacar uma pessoa ou candidatura. Apenas três publicações (1%) apresentavam caráter informativo e neutro.
A maior parte do material tinha alcance nacional; 199 casos (71%) abordavam a disputa pela Presidência. Outros 71 (25%) estavam relacionados a eleições regionais. Entre os estados, Santa Catarina liderou as ocorrências regionais, com nove casos; o Ceará registrou oito e o Tocantins, sete.
Facebook e comercialização de imagens com IA
O Facebook foi a plataforma com mais conteúdos identificados, com 202 ocorrências. O Instagram ficou em segundo lugar, com 62. Uma mesma peça pode ter sido encontrada em mais de uma plataforma.
Pouco mais de 34% dos casos confirmados partiram de contas oficiais de candidatos ou partidos, enquanto cerca de 35% foram publicados por eleitores e militantes e 29% tinham autores desconhecidos.
O VigIA ainda localizou 14 anúncios pagos e ativos na Meta e nove publicações em grupos políticos do Facebook com oferta de venda de imagens geradas por IA ao lado de figuras políticas. Os valores cobrados ficavam entre R$ 10 e R$ 22, e as peças incluíam montagens personalizadas ao lado de Lula, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ia-conteudo-eleicoes-2026/

