A inteligência artificial (IA) já foi utilizada por 66% dos donos de pequenos negócios brasileiros, mas sua aplicação ainda está concentrada na produção de conteúdo. Entre os empreendedores que adotaram a tecnologia, apenas 30% a utilizam em tarefas financeiras ou administrativas, segundo pesquisa do Nu Empresas, realizada pela Bridge Research e apresentada nesta quinta-feira (8), em São Paulo.
O levantamento ouviu 1,2 mil proprietários de pequenos negócios e identificou uma diferença entre o uso da IA para comunicação e sua incorporação à gestão. Entre aqueles que já experimentaram a tecnologia, 68% recorrem às ferramentas para criar textos e publicações, enquanto 63% as utilizam na produção de imagens, artes ou vídeos.
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A automação de tarefas repetitivas aparece em 36% das respostas, seguida pelo atendimento automático a clientes, com 33%. Apesar da concentração em atividades de comunicação, 59% dos usuários afirmam que a IA já reduziu o tempo e o esforço necessários para realizar tarefas.
A adoção varia pouco conforme o porte da empresa: 64% entre microempreendedores individuais (MEIs) e 68% entre micro e pequenas empresas.
IA avança no crédito, mas ainda há desafios na gestão
A diferença entre a adoção da IA para produzir conteúdo e seu uso em processos administrativos também aparece quando se observa uma aplicação da tecnologia no Nubank, que utiliza inteligência artificial para analisar informações e apoiar decisões de crédito.
“Hoje usamos inteligência artificial, principalmente no modelo de avaliação de crédito, para consumir dados e melhorar a indicação de produtos para os clientes”, afirma Maximiliano Damian, vice-presidente de Nu Empresas do Nubank, durante a apresentação.
O executivo não detalhou indicadores sobre os resultados dessas aplicações na aprovação de financiamentos ou na inadimplência. Também não apresentou um cronograma para ampliar as funcionalidades de IA disponíveis aos clientes empresariais.
Segundo Maximiliano, a instituição pretende avançar no uso da tecnologia, mas ainda avalia quais aplicações podem trazer benefícios concretos para a operação.
“É um assunto muito novo, que todos nós precisamos entender melhor, mas isso não pode virar uma panaceia”, diz.
A popularização das ferramentas generativas ampliou o acesso à IA, mas sua integração aos sistemas utilizados pelas empresas exige mudanças operacionais maiores do que aplicações voltadas à produção de conteúdo.
Leia também: Concentração de IA oculta em infraestrutura comum compromete resiliência
Digitalização dos pagamentos não chegou à gestão financeira
Os resultados da pesquisa mostram que a adoção de meios digitais de pagamento avançou mais rapidamente do que a modernização dos controles internos.
Embora 85% dos pequenos negócios recebam pagamentos por Pix, 53% ainda utilizam planilhas para controlar o fluxo de caixa. Outros 23% recorrem a anotações em papel ou cadernetas, enquanto apenas 19% utilizam softwares de gestão ou sistemas ERP.
O levantamento também identificou que somente 19% dos entrevistados contam com algum relatório financeiro automatizado.
A diferença aparece na rotina dos empreendedores. Em média, os proprietários de pequenos negócios dedicam nove horas por semana a tarefas financeiras e burocráticas.
As obrigações fiscais e tributárias lideram a lista de atividades que mais consomem tempo, mencionadas por 43% dos participantes. Em seguida aparecem o controle de entradas e saídas, com 41%, e a emissão de notas fiscais, com 40%.
A conciliação de recebimentos, que envolve verificar se os valores das vendas efetivamente entraram na conta, foi citada por 30% dos entrevistados.
O estudo não calculou quanto desse tempo poderia ser economizado especificamente com inteligência artificial. Os números, entretanto, apontam processos administrativos nos quais a automação ainda encontra espaço para avançar.
Organização financeira aparece associada ao uso de crédito
Durante o evento, Maximiliano também apresentou um comportamento identificado pelo Nubank entre seus clientes empresariais.
Segundo o executivo, 54% da base de clientes pessoa jurídica utiliza as chamadas caixinhas PJ, funcionalidade criada originalmente para permitir que os usuários reservassem dinheiro.
O banco percebeu, porém, que a ferramenta estava sendo utilizada para uma finalidade mais ampla do que a prevista inicialmente.
“Os clientes começaram a dar nomes às caixinhas para salário, impostos, compras e até para uma máquina que queriam adquirir. A ferramenta passou a ser usada como uma forma de organização do negócio”, relata.
A descoberta levou a instituição a analisar o comportamento financeiro desses usuários. De acordo com Maximiliano, os clientes que mantinham mais caixinhas também apresentavam melhores resultados na contratação, utilização e pagamento de crédito.
A associação sugere uma relação entre práticas de organização financeira e comportamento na utilização de recursos. O executivo, entretanto, não apresentou o tamanho da amostra ou os critérios dessa análise, o que impede estabelecer uma relação de causa e efeito.
O exemplo também mostra como ferramentas digitais relativamente simples podem assumir funções de gestão, mesmo sem terem sido desenvolvidas originalmente como sistemas administrativos.
Automação pode ajudar a reduzir a sobrecarga dos empreendedores
A concentração das responsabilidades financeiras nas mãos do proprietário é outro desafio para os pequenos negócios. À medida que uma empresa cresce, tarefas como pagamentos, controle de despesas e acompanhamento do caixa precisam ser distribuídas entre diferentes profissionais.
Nesse contexto, o Nubank vem trabalhando com múltiplos acessos à conta empresarial, permitindo que o responsável estabeleça limites de transação para outros usuários.
Maximiliano citou como exemplo a possibilidade de autorizar um funcionário a movimentar até R$ 1 mil, sem permitir operações acima desse valor. A funcionalidade se relaciona a uma dificuldade identificada pela pesquisa: 85% dos empreendedores afirmaram ter deixado de realizar alguma atividade essencial ao negócio nos três meses anteriores por causa da sobrecarga burocrática.
Entre as atividades sacrificadas estão o planejamento do crescimento para o ano seguinte, mencionado por 37%, os investimentos em divulgação e marketing, com 35%, e a dedicação aos clientes atuais, também com 35%. Além disso, 45% dos entrevistados disseram já ter perdido oportunidades de negócio enquanto resolviam questões burocráticas.
Para Maximiliano, a simplificação dessas rotinas pode ter efeitos que ultrapassam a economia de tempo.
“Não é somente uma questão de simplificar. Existe um impacto direto no negócio”, afirma.
A pesquisa também mostra que 68% dos entrevistados acreditam que suas empresas seriam mais lucrativas se tivessem menos burocracia para resolver, enquanto 53% associam as tarefas financeiras a estresse e ansiedade.
A pesquisa aponta um desafio para a adoção de inteligência artificial entre os pequenos negócios: transformar o uso pontual de ferramentas em aplicações integradas à operação. Embora a tecnologia já faça parte da rotina de boa parte dos empreendedores, sua presença na gestão financeira ainda é limitada.
A pesquisa foi realizada online em julho de 2026, com 560 MEIs e 640 proprietários de micro e pequenas empresas. A margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais para o total da amostra.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ia-pequenos-negocios-gestao-financeira/


