Boom da IA eleva juros e força aperto fiscal global, alertam bancos centrais

O boom de inteligência artificial está provocando uma corrida global por capital, levando autoridades monetárias das maiores economias do mundo a considerar um cenário de juros estruturalmente mais altos e de aperto fiscal prolongado. Os banqueiros centrais reunidos em Bangkok nesta sexta-feira (16) alertaram que os investimentos em IA já pressionam a procura por recursos antes que os ganhos de produtividade prometidos pela tecnologia se materializem.

A avaliação surgiu nos encontros anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizados na capital tailandesa. Para os participantes, a expansão acelerada de gastos em infraestrutura de IA, de chips de silício a centros de dados e redes de telecomunicações, alimenta pressões inflacionárias e cria riscos financeiros de difícil mensuração no curto prazo.

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Demanda antes da oferta

O presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, foi direto ao caracterizar o fenômeno. “Se você é um banqueiro central, precisa reconhecer isso como um choque”, afirma. “Está claramente atingindo o lado da demanda da economia antes de atingir o lado da oferta”.

Warsh diz que os Estados Unidos se beneficiam de uma ampla “onda de investimentos”, mas advertiu que a transição pode ser “muito turbulenta”, já que investidores, empresas e formuladores de política econômica lidam com uma tecnologia cujos vencedores finais ainda não estão definidos.

Colegas de Warsh no grupo das vinte maiores economias (G20), também presentes em Bangkok, avaliaram que bastaria uma pequena revisão das perspectivas otimistas de lucro que sustentam os investimentos em IA para desencadear turbulências severas nos mercados. A avaliação ganhou respaldo em uma venda de ações de tecnologia asiáticas registrada na semana.

Juros neutros mais altos

A disputa global por capital levanta uma questão central para as autoridades monetárias: o nível de juros necessário para manter as economias em equilíbrio, conhecido como R-star (taxa neutra de juros), pode estar em ascensão.

“Há uma briga global pelo dinheiro”, afirma Martins Kazaks, integrante do Conselho do Banco Central Europeu (BCE). “O investimento em IA é um dos principais fatores que elevam o custo do dinheiro”.

O governador do Banco de Reserva da África do Sul, Lesetja Kganyago, descreveu a dificuldade de calcular esse piso. “O problema no momento ao calcular o R-star é que as estrelas estão cobertas pelas nuvens, e as nuvens são muito espessas. Sabemos que o R-star está mais alto, mas não sabemos até que ponto”, diz.

O economista-chefe do Banco da Inglaterra, Huw Pill, foi mais direto: “Talvez as taxas, em média, sejam um pouco mais altas”.

O Banco do Japão já citou a procura ligada à IA como fator por trás de suas recentes elevações de juros, argumentando que as pressões de preços impulsionadas pelo investimento se tornaram mais amplas e persistentes.

Pressão sobre governos endividados

A perspectiva de juros estruturalmente mais altos representa um desafio para governos que acumularam dívidas elevadas durante anos em que os juros ficaram próximos de zero. Os rendimentos dos títulos soberanos subiram globalmente, com alguns atingindo na semana níveis não vistos desde antes da crise financeira de 2008.

A pressão se soma ao aumento dos gastos públicos em defesa, política industrial e energia em países que vão dos Estados Unidos ao Japão e à Alemanha, todos competindo pelo mesmo capital privado.

A zona do euro, e a França em particular, é vista como especialmente vulnerável. A maior parte dos investimentos em IA se concentra nos Estados Unidos e, em menor escala, no Japão e em outras partes da Ásia. Entre os europeus, ASML e Siemens figuram entre os poucos beneficiários claros do ciclo. Ao mesmo tempo, o bloco enfrenta custos de energia mais altos por conta dos conflitos no Irã e na Ucrânia, que agravam as pressões inflacionárias e comprimem as finanças públicas.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, foi direta sobre o caso francês em evento da CNN em Bangkok. “Há circunstâncias particulares que levam alguns países a ser mais afetados, e a França é um exemplo. Para esse caso, a solução primária e primeira está em casa, na França. E tem a ver com políticas fiscais”, afirma.

Os economistas projetam que o Banco da Inglaterra elevará os juros na reunião de cinco de novembro. BCE e Fed já subiram as taxas em setembro, e os mercados precificam novos movimentos de ambos em dezembro.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ia-pressiona-juros-fiscal-global/