IA vai identificar até 60 espécies de peixes em tempo real no rio Xingu

Um sistema baseado em inteligência artificial está sendo desenvolvido para identificar automaticamente até 60 espécies de peixes que passam pelo rio Xingu, no Pará. A tecnologia será instalada no Sistema de Transposição de Peixes do Complexo Hidrelétrico Belo Monte e deverá realizar o reconhecimento dos animais em tempo real.

Atualmente, uma câmera registra durante 24 horas por dia uma janela de observação localizada abaixo da superfície do rio. As imagens auxiliam o trabalho dos biólogos, mas a identificação das espécies ainda depende de profissionais treinados e é realizada por meio de amostragens.

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A proposta é automatizar essa atividade e ampliar a agilidade do monitoramento ambiental. Batizado de Idarsa, sigla para Inteligência de Dados para Automação de Relatórios Socioambientais, o sistema foi criado pelo Instituto Atlântico dentro do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Norte Energia, regulado pela Aneel (PD-07427-0325/2025), com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

As 60 espécies incluídas no projeto foram selecionadas por sua relevância ecológica e pela importância para a pesca local.

O monitoramento ocorre em um canal de 1,2 mil metros de extensão, construído para permitir que os peixes mantenham o fluxo migratório necessário ao ciclo reprodutivo. Em funcionamento desde 2016 na Usina Hidrelétrica Pimental, que integra o Complexo Belo Monte, o sistema já registrou a passagem de mais de 4,3 milhões de peixes de 168 espécies.

Reconhecimento em tempo real

Após a implantação, a tecnologia funcionará como um monitor inteligente, analisando as imagens captadas pela câmera e classificando os animais. O projeto utiliza o modelo Yolo, sigla em inglês para You Only Look Once, algoritmo capaz de detectar e identificar múltiplos objetos em uma única análise da imagem.

A expectativa é que o sistema alcance maturidade técnica em 2027, com precisão média superior a 90% na identificação dos peixes.

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Um dos principais desafios é adaptar o modelo às condições da bacia do rio Xingu. Muitas espécies amazônicas possuem características visuais semelhantes, enquanto a turbidez natural e a baixa iluminação da água dificultam a captura de imagens nítidas.

“A inovação fortalece o monitoramento ambiental no rio Xingu ao transformar a tecnologia em uma aliada direta da conservação da biodiversidade amazônica”, destaca Roberto Silva, gerente dos Meios Físico e Biótico da Norte Energia, concessionária de Belo Monte. “O uso da IA no Sistema de Transposição de Peixes vai contribuir para robustecer o banco de dados sobre a as espécies amazônicas do rio Xingu, servindo de exemplo de inovação que poderá ser replicada para elevar o padrão de sustentabilidade no setor de energia”, conclui.

Parceria entre indústria e academia

O desenvolvimento do Idarsa reúne pesquisadores, profissionais da indústria e estudantes de universidades federais. Mestrandos e doutorandos participam tanto da criação dos modelos de inteligência artificial quanto de estudos sobre o comportamento das espécies no rio.

Para Tommaso Giarrizzo, doutor em Biologia Marinha pela Universidade de Bremen, Alemanha, e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), a iniciativa também poderá ajudar a responder questões ecológicas relacionadas à migração dos animais.

“Envolvemos estudantes de mestrado e doutorado da UFC e de outras universidades federais, como a Universidade Federal do Pará, para desenvolver teses focadas tanto na criação dos modelos quanto na aplicação da IA para responder questões ecológicas fundamentais, como os fatores que determinam a passagem das espécies pelo Sistema de Transposição de Peixes e a promoção da conectividade fluvial”, explica o professor.

O pesquisador também destaca o potencial de disseminação internacional dos resultados e de formação de profissionais especializados nas regiões Norte e Nordeste.

“A formação desses profissionais qualificados fortalece o desenvolvimento tecnológico nas regiões Norte e Nordeste e consolida uma base de pesquisa capaz de subsidiar políticas públicas de conservação e monitoramento ambiental de forma contínua e tecnicamente sólida”, ressalta Giarrizzo.

Biodiversidade amplia complexidade do projeto

Tecnologias voltadas à automação do monitoramento ambiental já são utilizadas em países como Estados Unidos, Canadá, Suécia e Noruega. O Idarsa, no entanto, deverá operar com uma quantidade maior de categorias.

Enquanto o sistema norte-americano trabalha com cerca de 15 categorias de espécies, o projeto desenvolvido para o rio Xingu pretende reconhecer 60, de modo a contemplar parte da biodiversidade encontrada na região.

Para Polycarpo Neto, cientista de dados do Instituto Atlântico, a variedade de espécies torna o projeto mais complexo do que outros modelos existentes.

“Estamos lidando com uma biodiversidade muito superior ao que vemos em sistemas internacionais. Para nós, é uma oportunidade ímpar de aplicar a ciência de dados para gerar um impacto real na conservação de vidas e na inteligência ambiental”, conclui.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ia-vai-identificar-peixes-no-xingu/